As Bruxas da Noite na Segunda Guerra Mundial

aviadoras bruxas da noite perfiladas
Bruxas da noite, ou Bruxas Noturnas, recebendo instruções. Créditos: Evgueni Khaldei / TASS.

Entre a meia noite e a alvorada, na mais perfeita escuridão, sussurros fantasmagóricos vindos dos céus precipitavam a chegada das Bruxas da Noite, que traziam consigo algo para aquecer os soldados da Alemanha Nazista nas noites congelantes da Rússia: bombas, muitas bombas! Eram as bravas aviadoras do 588º Regimento de Bombardeio Aéreo Noturno Soviético, que infernizaram a vida dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

Quando Adolf Hitler iniciou a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), algumas potências, como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), já tinham percebido que se tratava de uma grande e devastadora guerra na Europa e que provavelmente iria se alastrar pelo planeta, como ocorrido 25 anos antes na Primeira Guerra Mundial (1914–1918).

A rápida e crescente escalada da guerra conduzida magistralmente pelo Estado-Maior da Alemanha arrebatou números cada vez maiores de homens da produção doméstica aos campos de batalha. Esse emprego massivo nas operações militares requisitou imediata substituição de mão de obra, tendo as mulheres se encaixado com perfeição nos mais diversos tipos de função.

A Segunda Guerra Mundial foi um conflito de homens e mulheres. Nunca antes em toda a história tantas mulheres, em diferentes países, foram chamadas a contribuir com um esforço de guerra como entre os anos de 1939 e 1945. Elas ocuparam funções que antes eram consideradas masculinas, como engenheiras, supervisoras de produção e motoristas de caminhão, por exemplo, e também se alistaram nas forças armadas. A entrada maciça de mulheres no mercado de trabalho, seja para suprir o vazio deixado pelos homens que estavam no front de batalha, seja para preencher uma demanda surgida com a eclosão da guerra, iria causar um grande impacto social, durante e depois do evento.” (NOGUEIRA, 2017, s/p, grifo nosso)

Rufina Gasheva e Natalya Meklin bruxas da noite
Rufina Gasheva e Natalya Meklin, aviadoras habilidosas e condecoradas do Regimento Bruxas da Noite. Créditos: autoria desconhecida.
dois aviões Polikarpov’s Po-2
As mulheres do 588º regimento voavam nos antiquados biplanos criados na década de 1920, os Polikarpov’s Po-2. Os Po-2 eram lentos, desconfortáveis, inflamáveis e presas fáceis para qualquer bateria antiaérea que os avistasse. Créditos: autoria desconhecida.

1. A quebra do Pacto Molotov-Ribbentrop

Após a quebra do Tratado Molotov-Ribbentrop — pacto assinado em 23 de agosto de 1939 entre a Alemanha Nazista e a União Soviética, que trazia cláusula secreta de não agressão durante 10 anos —, os soviéticos ficaram chocados com a monstruosa invasão alemã, que rapidamente avançava sobre sua terra.

Joseph Stalin, líder máximo da URSS, teria particularmente ficado impressionado com a velocidade em que as tropas de Adolf Hitler destruíam as forças soviéticas, tomando praticamente todo o leste europeu e se projetando cada vez mais contra o interior da Rússia. Stalin vinha se preparando desde o início da década de 1930, mas a invasão alemã mesmo assim o surpreendeu.

2. As mulheres soviéticas na Segunda Guerra Mundial

De nação para nação as funções desempenhadas pelas mulheres variavam grandemente. A URSS, mais do que qualquer outro Estado, engrossou as fileiras de suas forças armadas com mais de 800 mil mulheres em seu tremendo esforço de guerra para deter o avanço nazista.

A União Soviética também se destacou por não restringir o espaço das mulheres às enfermarias e aos serviços burocráticos e industriais, chegando a criar unidades integralmente formadas por mulheres e empregando mais de 300 mil diretamente no campo de batalha.

Eram mecânicas, médicas, instrutoras, pilotas de tanques, etc.. Na função de atiradoras de elite obtiveram merecido destaque.

3. A criação dos regimentos aéreos femininos

Durante a guerra ficou evidente a necessidade ampliar a força aérea soviética para impor alguma defesa contra a poderosa e soberana Luftwaffe (a Força Aérea Alemã), tendo as mulheres também sido incumbidas nessa função.

Grande parte da concepção do regimento aéreo feminino partiu dos esforços da Coronel Marina Raskova, uma aviadora russa com status de celebridade por seus trabalhos em aerodinâmica e na Zhukovsky Air Academy (Academia Aeronáutica Zhukovsky).

Raskova usou sua influência para persuadir Joseph Stalin, que concordou em criar três regimentos femininos na aviação soviética, emitindo a ordem de criação em 8 de outubro de 1941 e operando efetivamente a partir de 1942.

Cada regimento aéreo possuía cerca de 400 mulheres, todas marcadas pela coragem e voluntariedade de servir às Forças Armadas e tendo a maioria vinte e poucos anos de idade. O corpo militar era completamente formado por mulheres, seja pilotando, consertando, administrando ou comandando, etc..

Devido à pressão exercida pelo exército alemão, o tempo de treinamento de aviadores e aviadoras foi reduzido de 4 anos para poucos meses.

Marina Raskova do regimento bruxas da noite
Marina Raskova, como tantas outras aviadoras, não sobreviveu à guerra, morrendo em 4 de janeiro de 1943 em um acidente aéreo às margens do rio Volga. Talvez o acidente tivesse sido evitado se o 588º regimento dispusesse de aviões mais modernos. Créditos: autoria desconhecida.

4. As Bruxas da Noite

As aviadoras que ficariam conhecidas como The Night Witches (Bruxas da Noite ou Bruxas Noturnas) constituíam o 588º Regimento de Bombardeio Aéreo Noturno da URSS. Regimento que ficou consagrado pela valentia e empenho das aviadoras que se lançavam sem paraquedas em aviões obsoletos durante as frias noites da guerra.

Teriam cumprido entre os anos de 1942 e 1945 mais de 23 mil missões de ataque com dedicação e despejado toneladas de bombas sobre as posições alemãs. Tal número referente às toneladas de bombas, de acordo com as referências levantadas, varia absurdamente e por isso não nos arriscamos a pôr algum, mesmo que fosse uma ideia aproximada.

4.1 A origem do apelido

O apelido do 588º teria sido dado pelos alemães em decorrência da tática utilizada pelo esquadrão feminino: as aviadoras desligavam os motores dos aviões quando próximas de seus alvos, o que fazia com que os soldados germânicos não detectassem sua presença até ser tarde demais.

O forte zumbido do vento passando pelas asas dos aviões criavam sons sombrios, fantasmagóricos, fazendo os alemães recordarem das assustadoras histórias de bruxas da infância. Essa lembrança mais os fatos de atacarem à noite e atormentarem com bombas teria originado o apelido, que, ainda que pejorativo, acabou por ser tomado como elogio pelas guerreiras.

Nadezhda Popova
As Bruxas do 588º Regimento em um momento de descanso. Em destaque, encontra-se Nadezhda Popova, uma das mais bem condecoras aviadoras do regimento. Créditos: autoria desconhecida.

4.2 O objetivo do 588º Regimento: atormentar

A função do 588º regimento era o de espalhar o pânico nas tropas alemãs, bombardeando suas linhas de defesa avançadas dentro da URSS, causando pânico e impossibilitando o descanso das tropas com bombas de assédio.

O bombardeio de assédio é uma tática psicológica, na qual, de modo imprevisto mas constante, fustiga-se o inimigo com bombas de baixa potência, imprimindo às tropas assediadas elevado estresse, abaixando o moral e minando sua aptidão para a luta.

4.3 Os obsoletos Polikarpov’s Po-2

Para realizar suas funções, as aviadoras receberam os obsoletos Polikarpov’s Po-2, aviões criados em meados da década de 1920 e geralmente utilizados para o ensino de navegação aérea ou utilidade agrícola. A velocidade máxima do aparelho aéreo, mesmo embalado, não ultrapassaria os 150 km/h.

A escolha do aparelho aéreo Po-2 para o 588º Regimento de Bombardeio Aéreo Noturno, ainda que possa parecer inoportuna, ou mesmo proposital (geralmente as mulheres não eram bem recepcionadas nas forças armadas), parece fazer sentido. Os outros dois regimentos femininos receberam aviões bem diferentes e mais novos por atacarem durante o dia.

Geralmente, fosse na terra, no mar ou no céu, as operações militares aconteciam durante o dia pela dificuldade de coordenação à noite. Com isso, os defasados Polikarpov’s Po-2, por operarem noturnamente, poderiam fazê-lo com a relativa segurança que não disporiam durante o dia.

biplano Polikarpov Po-2
Exemplar bem conservador de um Polikarpov Po-2. Créditos: Douzeff.

4.3.1 Inflamáveis e baixa capacidade de carga

Os Polikarpov’s Po-2 eram construídos praticamente com madeira, lona e algum tecido, ficando incrivelmente suscetíveis a incêndios devido à sua composição altamente inflamável, onde apenas o motor era constituído de aço.

Muitas vezes bastavam apenas alguns tiros para que os aviões se tornassem verdadeiros cometas desgovernáveis antes de se chocar contra o solo.

Além de lentíssimos, possuíam pouca capacidade de carga (aproximadamente 300 quilos), obrigando as navegadoras aéreas ao cumprimento de várias missões numa mesma noite, muitas vezes se chegando a quase 20 incursões.

4.3.2 O inesperado lado positivo

Em meio às desvantagens de se pilotar aeronaves tão antigas surgiram algumas vantagens inesperadas. Uma de grande importância residia no fato de que os modernos caças da Luftwaffe possuíam a velocidade mínima bem superior à máxima dos Po-2, o que fazia com que os pilotos alemães, embora experientes, arriscassem a vida em manobras reprováveis por qualquer comando aéreo, sendo praticamente inúteis contra as Bruxas da Noite.

Outra vantagem dos Polikarpov’s Po-2 era a fácil tarefa de se encontrar alvos terrestres para atacá-los com maior precisão. Esse fato se devia justamente à baixa velocidade e excelente manobrabilidade. Ainda, as aviadoras realizavam voos em baixíssima altitude, deixando os alemães ainda mais perdidos sem saber onde se esconder.

Focke-Wulf Fw 190
Focke-Wulf, versão Fw 190. Suas melhorias o tornaria, de acordo com especialistas, o melhor caça a pistão da guerra. Contudo, sua velocidade mínima praticamente o incapacitava para atacar os infames Polikarpov’s Po-2. Créditos: autoria desconhecida.

4.4 Equipamentos precários, inadequados ou inexistentes

As aviadoras, assim como praticamente todas as mulheres empregadas no exército soviético, sofriam com a falta de interesse de sua própria corporação em disponibilizar coisas simples e adaptadas às necessidades femininas.

Os próprios uniformes utilizados pelas mulheres eram masculinos e não havia uma preocupação de protegê-las contra o frio extremo em seus voos noturnos, visto que as cabines dos Po-2 eram abertas.

Devido à baixa capacidade de carga do modelo de avião também não levavam em suas missões equipamentos de segurança e navegação, como paraquedas, armas ou rádios. No máximo, antiquadas bússolas e cartas (mapas) de navegação aérea.

5. O “agradecimento” da Rússia pós-guerra

Mesmo com tamanha dedicação ofertada em prol da sobrevivência do estado soviético, o intransigente conservadorismo e preconceito, sobretudo de gênero, permeava a sociedade soviética e prevaleceu, encerrando prematuramente a carreira das aviadoras.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, as Bruxas da Noite, igualmente como tantas outras mulheres, foram sumariamente desligadas das forças armadas, entrando a maioria no esquecimento e até desprezo.

As aviadoras também tiveram dificuldade em publicar suas memórias de guerra devido à forte censura do estado liderado por Stalin, que retirava qualquer passagem tida como inapropriada à URSS.


Comentário pessoal

Após o fim da guerra as mulheres, não apenas as aviadoras, encontraram imensas dificuldades de realocação profissional, também chegando ao ponto de esconderem o passado militar por questões pessoais, como a dificuldade para se casar. Não era raro encontrar mulheres — outrora valentes guerreiras — marcadas por cicatrizes, miséria e solidão até o fim dos seus dias.

Infelizmente, hoje, essa realidade não mudou significativamente e ainda parecemos estar em 1945.


REFERÊNCIA(S):
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
MARTIN, Douglas. Nadezhda Popova, WWII ‘Night Witch,’ Dies at 91. Acesso em: 24 jun. 2017.
MASSON, Philippe. A Segunda Guerra Mundial: História e Estratégias. trad. Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2011.
NOGUEIRA, Natania. A participação feminina na segunda guerra mundial. Acesso em: 24 jun. 2017.
RAE, Callum. Marina Raskova. Acesso em: 25 jun. 2017.
RIOS, Marcelo. As Bruxas da Noite. YouTube: Hoje na Segunda Guerra Mundial. Acesso em: 24 jun. 2017.
RIOS, Marcelo. O papel das mulheres na guerra – União Soviética. YouTube: Hoje na Segunda Guerra Mundial. Acesso em: 24 jun. 2017.
RODRIGUES, Icles. As Bruxas da Noite. YouTube: Leitura ObrigaHISTÓRIA. Acesso em: 24 jun. 2017.
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