Átila, o Huno — o Flagelo de Deus

medalha com o perfil do rosto de átila o huno
“Onde eu passar, a grama não crescerá novamente” – Átila. Créditos: Medalha do século XV, que traz o perfil do rosto de Átila, seu nome e apelido gravados: “Átila, o Flagelo de Deus”. Museu do Louvre, ID.: OA-2432.

Notório por sua ferocidade em conquistas, Átila, o rei dos hunos, lançou-se furiosamente sobre a Europa em uma campanha expansionista que lhe renderia a alcunha de o Flagelo de Deus. Sob a liderança de Átila, os hunos pilharam e extorquiram os impérios Romano do Oriente e Parta (“Pérsia”), aterrorizaram as planícies europeias, escravizaram outros povos bárbaros e deram sua contribuição à queda do decadente Império Romano do Ocidente.

Ainda, embora breve tenha sido seu reinado, atribui-se à figura de Átila, o Huno, o título de maior líder bárbaro da era conhecida como Invasões Bárbaras.

Há diversos registros testemunhais de Átila que nos fornecem uma ideia de seu caráter. O historiador romano Profuturus Frigeridus o descreveu como ‘de altura mediana e aspecto viril […] exímio cavaleiro e arqueiro brilhante’. O historiador godo Jordanes foi menos gentil, mas provavelmente se aproximou mais da verdade, ao retratar Átila como bastante baixo e atarracado, carcomido [estragado] e jactante [orgulhoso].

A maioria das fontes concorda que ele era um homem de gostos simples, que bebia cerveja numa tigela de madeira, e não numa taça de ouro, e tinha boa vontade ao receber pessoas de camadas inferiores que o procuravam para pedir ajuda.

Essa aparente simplicidade pode ter sido ou não mera fachada, mas Átila certamente viveu a vida em busca do poder, o qual, no mundo dos hunos, era dado ao rei que propiciasse a seus seguidores a oportunidade da pilhagem. E Átila fez isso a rodo. (CUMMINS, 2012, p. 44-45, acréscimo nosso)

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SUMÁRIO

1 Origem, infância e primeiros anos
2 O início da era Átila
⠀⠀2.1 Átila ataca o Império Romano do Oriente
⠀⠀2.2 O decadente Império Romano do Ocidente
⠀⠀⠀⠀⠀2.2.1 A Batalha dos Campos Catalúnicos
⠀⠀⠀⠀⠀2.2.2 Últimas ações contra o império romano
3 A morte de Átila
4 Os Hunos pós-Átila
Referências

1. Origem, infância e primeiros anos

Diversos fatos sobre a vida de Átila, como sua infância, simplesmente não encontram registros, sendo impossível retratá-los com alguma veracidade.

Misterioso como seu povo, Átila nasceu, viveu, guerreou e morreu sob a penumbra das tradições nômades dos Hunos, não deixando imagens ou escritos conhecidos. Costuma-se apontar o ano de 406 como o de seu nascimento e que se teria dado na porção oriental do território huno, nas estepes asiáticas.

Acredita-se que os hunos, antigamente baseados na atual Hungria, tenham origem túrquica ou mongólica, provavelmente sendo originários das extensas estepes asiáticas. Seu típico e implacável modo de guerrear com arcos sobre cavalos os caracterizam bem nos dois povos supracitados, principalmente nas hordas mongóis de Gêngis Khan que séculos depois conquistariam o maior império já forjado por um só homem da História.

Átila e seu irmão, Bleda, filhos de Mundzuk, obtiveram seus primeiros anos de ensinamentos sobre a guerra seguindo a liderança do seu tio, Ruga (ou Rugila). A este, entre outros feitos, destacam-se a unificação dos Hunos e os bem-sucedidos assaltos ao Império Romano do Oriente. Assaltos que renderam imensos tributos aos hunos e atiçaram a vontade dos jovens sobrinhos de Ruga.

mapa mostrando o território de átila o huno
Possível extensão máxima do império huno sob a batuta de Átila.
Créditos: autoria desconhecida.

2. O início da era Átila

No ano de 434, Ruga morreu deixando Átila e Bleda na liderança compartilhada dos Hunos. Até o ano de 439 se sabe pouco acerca das atividades hunas, acredita-se que se dedicaram tenazmente à subjugação de tribos bárbaras ao norte do seu território.

Aproximadamente entre os anos de 436 e 437, Átila contou com o comando estratégico-militar superior de Flávio Aécio, um romano que, além de conhecer os conceitos militares de Roma, convivera e aprendera intimamente o modo de guerrear dos hunos. Juntos, Átila e Aécio devastaram cidades da Germânia, destacando-se o Massacre da cidade de Burgúndios (atual Borgonha, na França).

A título de curiosidade: O evento supracitado — o massacre de Burgúndios —, entre outros, mais tarde daria origem à talvez mais famosa lenda do folclore alemão: Der Nibelungenlied [O Anel dos Nibelungos]. O massacre inspirou a escrituração do conto que terminou ratificado por volta de 1200 e que forneceria o entusiasmo para que o mais querido dos músicos de Adolf Hitler, o alemão Richard Wagner, compusesse a base de sua mundialmente conhecida ópera homônima: O Anel dos Nibelungos.

2.1 Átila ataca o Império Romano do Oriente

Em 441 o imperador da porção oriental do Império Romano, Teodósio II, deixou de pagar os tributos pactuados com o antigo chefe huno, Ruga. Átila e Bleda — Flávio Aécio havia retornado a Roma — lideraram incursões sobre os Balcãs e destruíram cidade como Singidunum (atual Belgrado), entre outras que foram conquistadas e pilhadas.

Constantinopla, a capital do Império Romano do Oriente, acabou forçada a fazer uma trégua. Tal trégua possibilitou que as forças latinas fossem restabelecidas na região.

Pouco depois, em 443, Átila novamente uma vez mais marchou sobre os domínios territoriais romanos imersos em uma violenta onda de conquistas, pilhagens e confrontos, o que gerou um forte sentimento de medo entre os romanos. Os hunos destruíram as cidades de Naissus (atual Nis, na Sérvia), e Serdica (atual Sófia, na Bulgária), também conquistando a de Filipópolis a caminho da própria capital do império, Constantinopla.

O ataque de Átila a Naissus (Nis, na Sérvia) em 443 foi algo tão devastador que, quando os embaixadores romanos passaram pelo lugar para encontrar Átila, oito anos depois, o cheiro de morte ainda era tão intenso que ninguém pôde entrar na cidade. Tiveram que acampar do lado de fora da cidade, perto do rio cujas margens estavam cobertas de ossos humanos. (CAWTHORNE, 2010, p. 77)

O imperador Teodósio II foi obrigado a pagar os tributos atrasados, assim como novo tributo anual: algo próximo a 2.720 quilos de ouro referentes a tributos atrasados e outros 950 quilos todo ano a partir de então.

O assédio ao império do oriente encontrou novo termo final em 445, quando novos tributos foram pagos aos bárbaros. Os hunos também não poderiam atacar Constantinopla por não disporem de material especial para sitiar e vencer as grandes muralhas que a defendiam. Ainda em 445, Bleda morreu e Átila centralizou as rédeas do poder. Não se sabe ao certo como se teria dado a morte de Bleda, mas se acostuma apontar que Átila teria assassinado seu irmão.

Liderando sozinho pela primeira vez, Átila se lançou novamente contra o Império Romano do Oriente em 447: assolou cidades balcânicas até chegar à Grécia, onde finalmente foi barrado nas eternas Termópilas dos 300 de Esparta. A ocasião, mais uma vez, terminou com um acordo realizado em 449, onde os hunos novamente levaram grande vantagem perante os romanos.

Na antiga região conhecida como Trácia (nordeste da Grécia, sul da Bulgária e noroeste da Turquia), os hunos despenderam igual brutalidade como anteriormente na cidade de Naissus:

Um cronista da campanha grega de 447 relatou: Houve tanta morte e derramamento de sangue que ninguém poderia contar o número de mortos. Os hunos pilharam as igrejas e monastérios, e chacinaram os monges e as virgens… A devastação da Trácia foi tamanha que ela jamais se erguerá de novo. (CAWTHORNE, 2010, p. 77)

pintura mostrando a corte de átila o uno
“Átila era um tremendo oportunista. E é evidente que também sabia fazer propaganda. […] Quando um de seus pastores encontrou uma espada enferrujada, ele proclamou que se tratava da espada do Deus Huno da Guerra que tinha sido perdida e cuja descoberta o tornava o dono do mundo. Em pouco tempo, ele começou a se referir a si próprio como o ‘Flagelo de Deus’”. (CUMMINS, 2012, p. 46). Créditos: A Festa de Átila, de Mór Than, Galeria Nacional Húngara.

2.2 O decadente Império Romano do Ocidente

Em 451, Átila forjou uma aliança com os Vândalos e Francos visando invadir o decadente Império Romano do Ocidente a partir da Gália (a grosso modo, atuais França, Bélgica e Suíça).

Novamente, fez-se um grande rastro de destruição e pilhagens por onde os hunos passaram: com uma força combinada que se situaria entre 300 e surpreendentes 700 mil soldados, conquistaram Metz e destruíram Reims, Mainz Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier. Diz-se que a cidade de Paris só foi poupada porque Santa Genoveva se encontrava na cidade e Átila a respeitou.

No seu encalço, partiu uma poderosa aliança godo-romana sob a liderança do antigo aliado de Átila, o general romano Flávio Aécio, que compartilhou parte de seu comando com o rei visigodo, Teodorico I.

Essa coalizão barrou o avanço dos hunos e seus aliados, fazendo-os entrar em confronto em uma das batalhas mais famosas, brutais e emocionantes da História: a Batalha dos Campos Catalúnicos (ou Châlons-sur-Marne).

Além dos principais povos envolvidos, muitos outros bárbaros se alinharam às coligações, o que criou uma gigantesca massa de soldados de variadas origens a se enfrentar.

2.2.1 A Batalha dos Campos Catalúnicos

Para o sangrento confronto, os romanos contaram com o apoio de vários povos bárbaros, como visigodos e alanos, ao passo em que os hunos também recorreram aos seus supostos aliados bárbaros, como ostrogodos e gépidas.

Os exércitos se enfrentaram no dia 20 de junho de 451, nos Campos Catalúnicos (norte da atual França), quando Átila, o rei dos Hunos, sofreu sua primeira e grande derrota militar, na qual também imaginou que seria morto.

romanos e hunos se enfrentando
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A vida de Átila foi poupada pelo comandante adversário, o romano Flávio Aécio, que tinha a difícil missão de derrotar as hordas hunas e preservar o decadente Império Romano do Ocidente. Aécio e Átila tinham sido amigos outrora.

A batalha causou basicamente dois efeitos: deu ao Império Romano a sua última grande vitória nos campos de batalha e assinalou o início da decadência do exército huno, apesar deste ainda se mostrar forte por algum tempo.

2.2.2 Últimas ações contra o império romano

Tal batalha causou basicamente dois efeitos: deu ao Império Romano sua última e grande vitória nos campos de batalha e assinalou o início da decadência do exército huno.

Os números exatos da batalha, assim como sua exata localização, ainda são desconhecidos, mas se presume que as baixas tenham sido demasiadamente pesadas de ambos os lados. Os visigodos também amargaram a morte do seu rei, Teodorico I.

Após o desastre na Batalha dos Campos Catalúnicos, Átila recompôs suas tropas e se dirigiu ao norte da Península Itálica em 452, onde iniciou novos saques.

Contudo, ao chegar diante dos portões da capital do império ocidental, Roma, estranhamente deu meia-volta após uma breve conversa com o Santo Padre Leão I, que havia se deslocado além das muralhas romanas com fins de negociação. Comenta-se que Átila teria ficado impressionado com a santidade papal de Leão I.

pintura mostrando os hunos nos portões de roma
Invasão dos bárbaros hunos próxima aos portões de Roma, de Ulpiano Checa, 1887.
pintura mostrando átila, leão i e São Pedro e São Paulo
O encontro do Santo Padre, Leão I, com o rei dos hunos, Átila, nos portões de Roma. As duas figuras que aparecem sobrevoando os pedestres representam São Pedro e São Paulo, que “apoiaram” o Papa no seu encontro com o Flagelo de Deus. Créditos: O encontro de Leão I e Átila, de Rafael Sanzio, 1514, Museu do Vaticano, Roma.

3. A morte de Átila

Em meados de 453, durante seu regresso ao norte do território huno, Átila morreu após uma longa noite de bebedeira sem-fim. Contava 47 anos de idade. Como tantos fatos acerca da história dos hunos, a morte do seu mais proeminente líder também é um mistério.

Entre outras coisas, costuma ser dito que Átila teria se afogado no próprio vômito provocado pela bebedeira em demasia ou mesmo que sua nova esposa, a bela Ildico, tê-lo-ia assassinado na noite de núpcias. Também se relata com alguma frequência que o chefe bárbaro teria sofrido um forte sangramento nasal sobre o qual teria sido encontrado morto na manhã seguinte.

4. Os Hunos pós-Átila

Sem a liderança carismática de Átila, o Huno, as aguerridas tribos da atual Alemanha romperam os grilhões postos pelos hunos e paulatinamente empurraram estes para o leste. Os filhos de Átila também não encontraram consenso entre si, o que favoreceu a vida dos vingativos vizinhos.

Passados aproximadamente 20 anos da morte de Átila, os hunos estavam reduzidos a quase nada. Perderam as extensas planícies onde criavam seus cavalos e isso os forçou a lutar a pé como os demais exércitos indo-europeus, perdendo, assim, sua grande vantagem na luta.

Atualmente os descendentes dos hunos ainda se encontram na Hungria e regiões próximas. Estima-se que 100 mil descendentes do Flagelo de Deus vivam na região.

REFERÊNCIAS:
CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História: Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. trad. Glauco Peres Dama. São Paulo: M. Books, 2010.
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. trad. Pedro Libânio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
MCLYNN, Frank. Heróis e Vilões. trad. Adriana Marcolini e Constantino Kouzmin-Korovaeff. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008.
SOMMA, Isabelle. Átila, o único. Revista Aventuras na História. São Paulo: Abril, n. 18, p. 30-37, fev., 2005.
VINCENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002.
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Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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