Benjamin Bugsy Siegel – o rei de Las Vegas

Benjamin “Bugsy” Siegel
O elegante e mortal Benjamin “Bugsy” Siegel. Créditos: autoria desconhecida.

Atraente, elegante e de hábitos refinados, Benjamin “Bugsy” Siegel carregou consigo durante décadas a fama de galã do submundo e amante de estrelas de Hollywood — perigosamente popular entre senhoras e senhoritas —. Assassino, sádico, estuprador e reputado como sociopata — indiferente aos crimes mais repugnantes —. Ben, como era chamado por seus íntimos, foi um dos gângsteres mais implacáveis da história, ainda que sua violência igualmente convivesse com sua notória beleza e seus hábitos galanteadores. Ao nome de Siegel também se associa outro feito: transformar uma pequena cidade no meio do deserto na Cidade do Pecado  Las Vegas!

Acompanhado por uma sinistra aura de glamour e sangue, Siegel contribuiu generosamente na parte mais violenta do crime organizado moderno. No filme O Poderoso Chefão, Parte I (EUA; Coppola; 1972), o personagem Moe Greene foi inspirado em Benjamin, ainda que camuflado por patronímicos de outros dois mafiosos contemporâneos.

1. Origem, infância e primeiros anos

Benjamin “Bugsy” Siegel nasceu em 28 de fevereiro de 1906, no Brooklyn, em Nova Iorque, no seio de uma família de imigrantes judeus da Ucrânia. Seus entes eram pobres e logo cedo o jovem garoto perdeu expectativas de trabalhar honestamente, diante do contato com a realidade de trabalho duro e parcos rendimentos de seu pai.

Ainda na adolescência, o pequeno Ben iniciou sua carreira por meio de extorsões contra pequenos comerciantes do bairro. Nesta época, veio a conhecer outros dois jovens que viriam a adquirir o estrelato no crime organizado: o judeu Meyer Lansky e o siciliano Charles “Lucky” Luciano.

Conta-se que os três delinquentes teriam se conhecido em uma situação mortal: Siegel teria se negado a pagar uma prostituta a serviço de Luciano, que então teria partido para briga. Lansky interferiu e professou suas sábias palavras aos dois. Depois deste episódio, os três vieram a se tornar amigos íntimos.

À época, Siegel, por ter olhos atentos e uma agressividade que definia conflitos, construiu sua reputação como a de um verdadeiro predador que encantou Lansky, que teria dito:

Quando estávamos em luta, Benny nunca hesitava. Ele era ainda mais rápido para agir que os sicilianos de sangue quente, sempre o primeiro a iniciar os socos e tiros. Ninguém reagia mais rápido do que Benny”. (GRIBBEN, 2013, s/p)

A aparência e o charme também faziam dele uma ligação útil às negociatas do crime organizado com seus associados (políticos, autoridades, empreendedores, etc.). Era o início de uma devastadora amizade entre a força (Ben) e o intelecto (Lanksy).

benjamin siegel sorrindo em vídeo
Atraente, elegante e refinado, Ben é apontado como um dos principais responsáveis pela romantização da figura gângster/mafiosa, sendo muitas vezes reputado como “o galã do submundo”. Créditos: autoria desconhecida.

2. A década de 1920 e a Lei Seca (Act Volstead)

Na fervilhante década de 1920, a Volstead — Lei Seca — favoreceu diversas práticas criminosas ligadas, direta ou indiretamente, ao contrabando de bebidas alcoólicas, destacando-se os gângsteres e principalmente mafiosos. Foram nestes anos que Siegel começou a construir os aspectos mais sombrios de sua carreira criminosa

Seus amigos e conhecidos contam que com o seu primeiro assassinato, Siegel foi seduzido por uma poderosa sensação de poder que não o deixaria até sua morte. Dentre seus inúmeros feitos criminosos, um dos mais marcantes veio a ocorrer quase uma década depois após seu primeiro assassinato: uma moradora local tentou extorquir dinheiro para que não contasse à polícia o que sabia. Siegel lhe visitou e a espancou, mas foi interrompido pela chegada de policiais. Contudo, no dia de se apresentar ao tribunal, a senhora não compareceu – nunca mais foi vista – e Ben estava livre por falta de provas.

No decorrer do ano de 1926, Ben, aos 20 anos de idade, “foi preso por estupro, mas os capangas de Lansky disseram à vítima que, a menos que ela desenvolvesse uma amnésia súbita, jogariam ácido na cara, marcando-a para sempre” (CAWTHORNE, 2012, p. 186).

Em 1927, Siegel casou-se com sua namorada de infância, Estelle Krakower, em união com a qual gerou duas filhas com esta em alguns anos. A união não viria a prosperar: Ben não era dos homens mais fiéis e seus inúmeros relacionamentos extraconjugais lhe custariam o casamento anos depois.

Charles “Lucky” Luciano e Meyer Lanky
Charles “Lucky” Luciano e Meyer Lanky: predestinados ao estrelato do crime organizado moderno. Lucania sistematizou a Cosa Nostra e se tornou seu grande chefão; o judeu Lansky é considerado o maior cérebro do crime organizado norte-americano, um gênio.
Créditos: autorias desconhecidas.

3. O apelido Bugsy

Administrando extorsões, jogos ilegais, contrabandos, drogas, assaltos a bancos, torturas e mortes, sua violência só poderia ser comparada ao seu apetite sexual. Ben já havia recebido o apelido Bugsy (doido) – que detestava – pela voluntariedade enérgica de entrar em situações difíceis. Diz-se que espancou, torturou e matou colegas e desconhecidos apenas por chamá-lo de Bugsy.

4. A Guerra Castellammarese

Em 1931, Siegel puxou o gatilho para encerrar a sangrenta Guerra Castellammarese — disputa entre as famílias mafiosas de Nova Iorque — e solidificar a união de poder com Meyer Lansky, Charles “Lucky” Luciano e tantos outros.

Benjamin Bugsy Siegel, juntamente com Vito Genovese, Joe Adonis e o sinistro Albert Anastasia, descarregou suas pistolas no Chefe dos Chefes, Giuseppe Masseria (“Joe the Boss”). A Guerra Castellammarese estava terminada.

Giuseppe Masseria morto
O corpo do mafioso Giuseppe Masseria — Joe the Boss — com o ás de espadas em sua mão (diz-se que a carta pode ter sido plantada, sendo uma ironia por parte dos seus algozes).
Créditos Bettmann / CORBIS.

5. A Murder, Inc.: a Assassinato S/A

Nas décadas de 1930-40, apesar de ser um dos chefes da Murder, Inc., uma “empresa” que fornecia assassinatos à Cosa Nostra (Máfia ítalo-americana sob a liderança de “Lucky” Luciano) —, Ben ganhou ainda mais notoriedade devido ao prazer que sentia em participar das longas incursões de torturas e assassinatos. Certa vez, um detetive afirmou:

Bugsy preferia fazer o serviço ele mesmo. Não se contentava em dar as ordens e aproveitar-se do resultado. Gostava de resolver os assuntos pessoalmente. Isso lhe dava uma sensação de poder. Adorava ver as vítimas sofrendo, gemendo e morrendo”. (CARPOZI Jr, apud: CARTER, 2005, p. 244)

murder inc. Joseph Rosen, Benjamin “Bugsy” Siegel, Harry Fietelbaum, Harry Greenberg, Louis “Lepke” Buchalter
Membros da maior máquina de matar da Máfia, Murder, Incorporated. Joseph Rosen, Benjamin “Bugsy” Siegel, Harry Fietelbaum, Harry Greenberg, Louis “Lepke” Buchalter.
Créditos: autoria desconhecida.

6. Siegel, matando por prazer e despertando ódio alheio

Siegel havia se tornado então uma implacável máquina de matar. Em certa ocasião, a fim de prestar um favor a outro chefe, Dutch Schultz, não hesitou em assassinar seu amigo de infância, Abe “Bo” Weinberg. O corpo de Weinberg nunca foi encontrado.

Bugsy havia torturado e executado grande parte da concorrência e com isso angariado ódio e medo quase geral no submundo. Em 1934, Siegel sobreviveu a um atentado a bomba, impetrado por um concorrente do contrabando de bebida. Lansky e Ben estavam em seu quartel general, quando uma bomba foi arremessada/plantada.

Não se sabe exatamente como conseguiu, mas Ben rastreou o explosivo e a jogou na rua sofrendo apenas ferimentos leves. Como vingança, Benjamin, ainda com as escoriações vivas pelo corpo, assassinou pessoalmente os atacantes, incluindo três filhos da mesma família, sendo o último morto em casa e na frente dos pais.
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7. Siegel se muda para Hollywood

Na segunda parte da década de 1930, Siegel mudou-se para a costa oeste dos Estados Unidos com a família depois de descartar propostas de trabalho, inclusive no território de Al Capone: Chicago. Capone era amigo de Ben desde a adolescência e durante a juventude foi protegido diversas vezes por Ben quando marcado para morrer. Entretanto, com Capone na prisão e doente (sífilis), Benjamin preferiu a Califórnia.

Teoricamente, a área era reduto do chefão mafioso Dragna, mas somente com uma mensagem de Lucky Luciano tudo foi acertado: “Da cela da prisão, Luciano entrou em contato com Dragna para lhe contar que o seu amigo no crime estava a mudar-se para o oeste e que ele poderia escolher entre alinhar com os grandes ou ser esmagado por eles. Sensatamente, Dragna decidiu cooperar, embora tenha ficado um tanto ressentido por um judeu entrar assim no seu território” (CARTER, 2005, p. 246).

Bem afeiçoado e deveras temido, Siegel logo se tornou íntimo de atores, cantores, diretores e roteiristas de Hollywood. Detinha contatos com estrelas e o controle sobre sindicatos que extorquiam milhões dos projetistas. Nestes anos, Siegel também carregava consigo ideias que moldariam indireta e radicalmente a costa oeste norte-americana nas décadas seguintes.

Benjamin e George Raft
Ben e seu amigo em infância e estrela de Hollywood, George Raft. Na ocasião, Raft se encontrava no tribunal para testemunhar em favor de Siegel, 18 de julho de 1944, Hollywood.
Créditos: Bettmann / Corbis. ID BE028709.

8. Las Vegas, a Cidade dos Pecados

Há tempos Lansky e Luciano haviam vislumbrado a mina de ouro que a costa oeste representava, mas foi Bugsy quem, em meados de 1940, encontrou o ideal: a criação de luxuosos casinos em Las Vegas, uma pequena cidade no meio do deserto do Estado de Nevada (Estado vizinho ao da Califórnia), aproveitando-se da legalização dos jogos ocorrida neste Estado como medida de recuperação financeira durante a Grande Depressão.

À época, Las Vegas era um pacato e remoto posto rodoviário, distante em 320 km de Hollywood. Além da legalização dos jogos em Nevada, contribuía em favor da região a própria inexperiência das autoridades policiais da costa oeste, despreparadas para investigar e combater os qualificados e experientes criminosos da costa leste.

Outro ponto em favor da cidade se encontrava no próprio desenvolvimento dos meios de transporte ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), reduzindo distâncias e aperfeiçoando técnicas aéreas das mais variadas.

8.1 Flamingo Hotel para o seu Flamingo, Virginia

Para concretizar suas ideias, Benjamin investiu sozinho na construção de um luxuoso casino, que se chamaria Flamingo em homenagem à sua namorada, Virginia Hill (Estelle Krakower se divorciou de Siegel no mesmo ano, em 1946).

Nessa época, Benjamin, por seu estilo esbanjador (havia gasto milhões durante a vida), necessitava de volumosos investimentos para concluir o casino e recorreu aos seus antigos sócios, que prontamente investiram milhões de dólares.

a bela Virginia Hill
A bela Virginia Hill, a última paixão de Siegel. Virginia dizia nunca ter amado alguém como amou Siegel. Durante interrogatório no Congresso em que era grosseiramente inquirida pelo senador Charles W. Tobey, Virginia respondeu ao ser indagada sobre seu envolvimento com o gângster: “Eu sou a melhor transa do mundo, porra”. Créditos: autoria desconhecida.

Pela falta de perícia (ou paciência) de Benjamin, diversos problemas ocorreram durante a construção do Flamingo, gerando aumentos dos gastos — Ben se encontrava cada vez mais endividado, cobrado e explosivo, tornando-se uma ameaça para os seus próprios amigos e sócios. Ademais, sua fúria cega ao longo da vida lhe gerou poderosos inimigos e seus próprios amigos andavam descontentes com os resultados dos investimentos.

Em 26 de dezembro de 1946, o Flamingo, ainda inacabado, foi inaugurado e diversas celebridades de Hollywood estiveram presentes. Entretanto, os desejados lucros prometidos por Ben não foram auferidos: as dívidas apenas aumentavam e os sócios desconfiavam de que Siegel estivesse lhes roubando. O casino foi fechado para conclusão, sendo reinaugurado em 1º de março de 1947.

No mês de maio o Flamingo finalmente começou a gerar lucros, ainda que Siegel novamente voltasse a criar problemas. À época, Ben rompeu relações com Charles “Lucky” Luciano, mesmo sabendo que este era um dos principais sócios e investidores do cassino.

Lansky, sempre sensato, tentou apaziguar as partes, mas Siegel continuava a cavar sua própria cova com a Comissão (a cúpula do poder criminoso, a reunião dos chefes de família que determinavam os rumos crime organizado).
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8.2 Morre a máquina de matar

Em 20 de junho de 1947, Siegel se encontrava na casa de sua namorada, Virginia, em Los Angeles. Este se encontrava lendo o jornal no sofá e acompanhado do seu amigo, Allen Smiley, quando foi alvejado por cinco tiros (um no olho esquerdo e quatro no tronco) de uma suposta carabina calibre 30-30 posicionada na janela.

Terminava igualmente de maneira violenta a carreira de Benjamin “Bugsy” Siegel.

o cadáver de Siegel
Assistente do médico-legista cobrindo o cadáver de Siegel. A eficiente máquina de matar da Máfia havia sido neutralizada com cinco tiros. Créditos: Getty Images.

Não restou dúvida de que foi um ataque profissional: Siegel fora atingido cinco vezes e em pontos vitais antes de cair no chão. Smiley não foi tocado. Interessante ressaltar que Siegel, sempre rápido na reação, ainda conseguiu resistir e se movimentar após receber os primeiros disparos de carabina, caindo a cinco metros do local do primeiro acerto.

O assassino profissional nunca foi pego nem os possíveis mandantes apontados pela polícia. A Máfia não deseja investigações policiais.

10. O sucesso do Flamingo

Ironicamente, com a sua morte estampada nos jornais de todo o país, o Flamingo atraiu imensa publicidade. Seus antigos sócios assumiram a “direção” de Las Vegas. Novos casinos foram construídos, assim como uma gigantesca infraestrutura.

O Flamingo ainda hoje existe e mantém, na sua entrada, uma homenagem ao seu idealizador, assim como à sua inspiração, Benjamin Bugsy Siegel e Virginia Hill, respectivamente.

Ao que parece, Siegel não pretendia criar um centro de jogos, mas, ao desejar que Las Vegas se tornasse sua cidade, deu início à revolução da chamada “meca dos jogos”: Las Vegas, a Cidade do Pecado.
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REFERÊNCIAS:
CARTER, Lauren. Os Maiores Gângsters da História. trad. Isabel Teresa Santos. Lisboa: Editorial Estampa, 2005.
CAWTHORNE, Nigel. A História da Máfia. trad. Guilherme Miranda. São Paulo: Madras, 2012.
DICKSON, Michael M.. Benjamin “Bugsy” Siegel – Flamingo Hotel and Casino. Acesso em: 7 nov. 2013.
GRIBBEN, Markey. Bugsy Siegel. Acesso em: 7 nov. 2013.
GWERCMAN, Sérgio. Assassinos S.A.. Revista Aventuras na História. São Paulo: Abril, n. 4, p. 60-63, dez., 2003.
SMITH, Jo Durden. A História da Máfia. trad. Beatriz Medina. São Paulo: M. Books do Brasil, 2015.
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Autor: Eudes Bezerra

30 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário. Gosta de ler, escrever e, às vezes, arrisca-se – tragicamente – nos desenhos. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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