Austerlitz, 1805: Napoleão se torna o senhor da Europa

Napoleão comemorando vitória em Austerlitz
Vitória! Napoleão luta de modo brilhante e derrota a armada austro-russa em Austerlitz. Pintura: A Batalha de Austerlitz, de François Gérard, 1810. Obra constante no Palácio de Versalles, França.

No dia 2 de dezembro de 1805, o Sol de Austerlitz brilhou como nunca e o jovem Napoleão Bonaparte impôs uma devastadora e humilhante derrota às forças combinadas da Áustria e da Rússia. Napoleão, um ano após sua autoproclamação a imperador, teve seu presente: a Europa. Napoleão se tornou imbatível em campo aberto.

1. A importância da vitória de Austerlitz para Napoleão

Apesar da recente derrota naval na Batalha de Trafalgar, a vitória francesa na Batalha de Austerlitz (ou Batalha dos Três Imperadores) deu mais ânimo ao exército francês, que ainda permanecia invicto, e pôs fim ao decadente Sacro Império Romano-Germânico, tirando a Áustria da guerra. O imperador austríaco foi obrigado a entregar diversas províncias, incluindo Veneza.

O exército imperial russo do czar Alexandre I foi humilhado em campo de batalha e teve milhares de soldados mortos em uma tentativa desesperada de fuga. O czar, melancolicamente, eternizou ao lamentar: “Somos crianças nas mãos de um gigante”.

Posteriormente, “com Veneza incorporada às posses italianas de Napoleão, ele enviou uma força francesa, sob o comando do Marechal André Masséna, para expulsar os Bourbons de Nápoles. Quando o papa se opôs, Napoleão anunciou que ela era o Imperador de Roma e líder leigo da Igreja.” (CAWTHORNE, 2010, p. 132)

2. Os números do tabuleiro de guerra

Antes do embate, Napoleão Bonaparte estava preocupado: dispunha de cerca de 70 mil soldados ao passo que a armada austro-russa beirava os 100 mil (75% russos; 25% austríacos) e continha aproximadamente o dobro da artilharia francesa. Os russos possuíam uma artilharia famosa e os austríacos eram reputados como os donos da melhor cavalaria da época.

Além das desvantagens nos números, o comandante francês também estava longe de casa e em pleno inverno, o que complicava o trabalho da sua extensa linha de suprimento. Contudo, os franceses também tinham seu trunfo: a genialidade e a destreza militar do próprio Napoleão Bonaparte.

Napoleão sobre cavalo nos Alpes
Napoleão Bonaparte: gênio militar. Pintura: Jacques Louis David.

3. A estratégia vitoriosa de Napoleão

Napoleão, ciente de sua situação e buscando alternativas para alcançar a vitória, mostrou o porquê de estar no pódio dos maiores generais da história: estudou a região e decidiu que a luta deveria ocorrer em um planalto 20 km a leste de uma vila chamada Austerlitz, marchando com seu exército para lá.

Na noite anterior ao confronto, o general imperador instruiu pessoalmente seus soldados sobre a linha de defesa, como manobrar durante o combate e quando e onde atirar. Dividiu-as em norte (flanco esquerdo), centro (vanguarda) e sul (flanco direito). O moral das tropas estava alto e, enquanto fazia a instrução, alguns de seus homens incendiaram os colchões para iluminar o caminho do grande general.

Na manhã seguinte, na iminência da escaramuça, Napoleão acabara de enviar um emissário portando suas exigências aos inimigos, quando deu as últimas ordens aos seus comandantes, o que incluía uma encenação de recuo desordenado à sua vanguarda.

Secretamente, manteve tropas ocultas do tabuleiro de guerra atrás da neblina a sudoeste e também aguardava a chegada de outros 7 mil soldados vindos de Viena.

Diante de falsos movimentos do exército francês, os comandantes da Áustria e da Rússia entenderam os sinais da forma mais trágica possível, como prognosticara Napoleão: interpretaram como demonstração de fraqueza do imperador francês quando este “recuou” para Austerlitz; que os colchões queimados indicavam desordem e um possível retorno dos franceses para casa, o que foi consubstanciado pela — falsa — retirada desordenada da vanguarda napoleônica; — aparentemente — desguarnecido flanco direito (sul); o envio do emissário. Acreditaram que Napoleão estava desorganizado, prestes a voltar à França e tentando um blefe. E atacaram os franceses.

4. O confronto

Com quatro colunas (“quatro partes independentes”) a armada austro-russa priorizou o ataque no flanco direito (sul) — caindo na armadilha de Napoleão. A unidade mantida na neblina a sudoeste surgiu — quase misticamente — conforme o Sol se erguia sobre o planalto de Austerlitz e logo improvisou uma poderosa “barragem de fogo” surpreendendo os aliados. Neste momento, a Guarda Imperial Francesa mostrou serviço flanqueando os atacantes russos pela direita neste ponto.

Simultaneamente, os franceses barraram e equilibraram o avanço adversário ao norte e a vanguarda francesa irrompeu com fúria ao desferir tremendo golpe no centro, o que despedaçou a armada austro-russa em duas partes e pôs aqueles em vantagem deveras privilegiada.

O caos se instaurou entre os aliados, seus comandantes não foram mais ouvidos e os soldados tentaram se salvar quase que individualmente deixando até a artilharia para trás.

Quando os soldados fugiram pelo lago congelado de Satschen, Napoleão deu uma de suas ordens mais cruéis: “atirem no gelo…” — e os canhões franceses, previamente preparados, destroçaram a superfície do lago congelado com artilharia em brasa, para que mais quatro mil soldados (essencialmente russos) fossem mortos. Napoleão venceu.

5. O saldo do combate

A vitória em Austerlitz agraciou o comandante francês com um posto no pódio dos maiores comandantes militares da história. Em termos táticos, Napoleão foi definitivamente imortalizado como gênio militar. Perdeu apenas 6.800 soldados (mortos e feridos) e infligiu baixas de 12.200 (mortos e feridos), fez 15 mil prisioneiros e capturou 180 peças de artilharia.

O estandarte que cada batalhão levava era tido como troféu em campo de batalha. Perdê-lo significava desonra e indicava uma tremenda surra. Em Austerlitz, o exército francês tomou 50 estandartes dos russos e austríacos, perdendo apenas um.

REFERÊNCIAS:
CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História: Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. trad. Glauco Dama. São Paulo: M. Books, 2010.
MESTRE, Vitor Manuel. A Batalha de Austerlitz, Parte II. Acesso em: 4 out. 2013.
MONDAINI, Marco. Guerras Napoleônicas. In. MAGNOLI, Demétrio (org.). História das Guerras. 5 ed. São Paulo: Contexto, 2011.
ONÇA, Fabiano. O Gigante de Austerlitz.  Acesso em: 4 out. 2013.
XIMENES, Ivair. O Último Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.  Acesso em: 4 out. 2013.
Autor: Eudes Bezerra

30 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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