Tommaso Buscetta e o Maxiprocesso

Tommaso Buscetta durante o Maxiprocesso
Tommaso Buscetta, conhecido com o “chefe dos dois mundos”, tenta permanecer incógnito durante o Maxiprocesso. Créditos: autoria desconhecida.

Tommaso Buscetta, o dedo-duro que mandou 475 mafiosos para trás das grades. Pela primeira vez na história alguém do alto escalão mafioso quebrou a Omertà – Lei do Silêncio. Ex-membro da Cosa Nostra (máfia ítalo-americana), Tommaso forneceu imprescindíveis provas para que o maxiprocesso fosse instaurado e processado. Durou quase dois anos (1986-87) e resultou em 19 prisões perpétuas com outros 2.665 anos de prisão.

Buscetta, o homem de aço da máfia, mostrou-se difícil de ser destruído sobrevivendo aos riscos inerentes da profissão. Começou aplicando pequenas fraudes, trabalhou como picciotto (soldado de patente baixa, um executor; “homem do botão”), saiu ileso da primeira grande guerra entre as famiglias mafiosas em 1962 e também passou por cadeias brasileiras, italianas e norte-americanas. “Nem a ingestão de cicuta, numa tentativa de suicídio, conseguiu acabar com ele”.

Tommaso gerenciou a chamada Conexão Ilhabela, onde foram realizados os primeiros grandes empreendimentos de tráfico de drogas no Brasil, que era feito de “corredor” do Oriente Médio para os EUA. Aqui foi preso em 1972 e extraditado para a Itália onde cumpriu oito anos de prisão. Retornou ao Brasil pelo Paraguai e foi preso novamente em 1984, sendo mandado para Sicília. Cumpriu outros dez anos de prisão e foi transferido para os Estados Unidos.

Preso no EUA, valeu-se da delação premiada fazendo um acordo com o FBI que resultou em cerca de 360 inquéritos policiais contra mafiosos italianos e norte-americanos. Com a delação feita, tornou-se o primeiro mafioso do alto escalão a colaborar com a justiça. O pentiti (“arrependido” da máfia) também se transformou no inimigo número 1 da organização que jurou defender – a Cosa Nostra.

No tribunal, Tommaso postulou proteção pessoal e de sua família no Brasil. Todos foram levados pelo serviço de proteção norte-americano aos EUA. Era justo seu receio: a máfia matou mais de uma dúzia de parentes, como seus dois filhos do primeiro casamento, o irmão e o genro. Nenhum destes pertenciam à Cosa Nostra. “A secular regra mafiosa que proibia que a vingança recaísse em parentes não mafiosos foi considerada quebrada. Isso desobrigou Buscetta de manter o juramento do silêncio (omertà).” (MAIEROVITCH, 2014, s/p)

Buscetta protegido no Tribunal de Palermo, Sicília, Itália
Buscetta protegido no Tribunal de Palermo, Sicília, Itália. Mesmo com a construção de uma verdadeira fortaleza para o processamento do Maxiprocesso, todo cuidado era pouco, pois com a Máfia não se teria segunda chance. Imagem captada pela imprensa italiana. Créditos: autoria desconhecida.

Outro fato intrigante à nebulosa trama, Buscetta fez um alerta: primeiro, que não falaria sobre as ligações da máfia com políticos para evitar que “tudo acabasse em pizza”; segundo que somente se reportaria ao juiz Giovanni Falconi, siciliano como ele, que ao tomar conhecimento do que lhe seria dito estaria condenado à morte pela Cosa Nostra. Frisou: “A sentença de morte da máfia é sempre cumprida, cedo ou tarde. A máfia não esquece nunca“.

A máfia dinamitou Falcone em 23 de maio de 1992. Buscetta, em homenagem ao mártir da justiça, revelou ligações da máfia com a política. Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro da Itália, também foi para banco dos réus. Em um caso repleto de mistério, o mais alto tribunal italiano condenou Andreotti por associação mafiosa. Entretanto, em face da incrível demora em processá-lo e da idade do ex-premier, ocorreu a prescrição pelo crime a que respondia. Andreotti foi liberto para dispor de sua cadeira na tribuna dos Senadores Vitalícios da Itália.

Conforme pensado anos antes, o caso “acabou em pizza”. Arrependido de sua confissão, Tommaso disse:

Levarei a certeza de que errei na previsão que fiz junto com o juiz Giovanni Falcone, a quem tiraram a vida. A máfia hoje desempenha um papel maior do que tinha no passado, porque a máfia se tornou um fato político”. (MAIEROVITCH, 2014, s/p)

Tommaso Buscetta, depois de “usar” muitos rostos – plásticas para escapar da máfia – e ter sido caçado em três continentes pela polícia e por seus ex-familiares de crime, deu seu último suspiro em 4 de abril de 2000. Tinha 72 anos e perdeu sua última batalha para o câncer depois de lutar por três anos.

Sua vida tão minuciosamente planejada deixou mistério, mesmo depois de sua morte: teria a Cosa Nostra, ou quem sabe o FBI, a INTERPOL, provocado sua morte? A certeza é que ele ainda sabia demais e a máfia tem memória de elefante: nunca esquece a vendetta.

REFERÊNCIAS:
AMORIM, Carlos Roberto. Assalto ao Poder. Rio de Janeiro: Record, 2010.
BBC Brasil. Tommaso Buscetta morre de câncer nos EUA. Acesso 25 fev. 2013.
CARLO, Phillip. O homem de gelo: confissões de um matador da máfia. São Paulo: Landscape, 2007.
Isto É. A morte do dedo-duro: Morre de câncer em Nova York o mafioso Tommaso Buscetta. Revista Isto É. São Paulo, n. 1593, abr., 2000.
MAIEROVITCH, Walter Fanganiello. Buscetta era melhor. (FOTO-arquivo da Procuradoria Antimáfia da Itália). Acesso 25 fev. 2013.
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Autor: Eudes Bezerra

30 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário. Gosta de ler, escrever e, às vezes, arrisca-se – tragicamente – nos desenhos. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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