O poder das palavras: os discursos de Hitler e Goebbels

Hitler e Goebbels discursando
Fotomontagem de Hitler e Goebbels durante seus discursos carregados de emoção. Créditos: autorias desconhecidas.

Romanticamente arrebatada pelos incendiários discursos de Adolf Hitler e Joseph Goebbels, reputados muitas vezes como os responsáveis pelos discursos mais inflamados e eloquentes da História, a Alemanha emerge do caos e surpreende se tornando a mais poderosa máquina de guerra do planeta. Direta e indiretamente, todo sentimento de angústia, revolta e revanchismo alemão foi canalizado através dos holofotes do Partido Nazista — e Hitler acontece. Muitas das suas lições teóricas e práticas foram adaptadas e são aplicadas pelas mídias contemporâneas.

Ao término da Primeira Guerra Mundial (1918), a Europa encontrava-se arrasada e suas antigas potências dependentes de Estados estrangeiros. No mais significativo, brutal e desastroso capítulo da trama, encontrava-se o Tratado de Versalhes (1919).

Sob o crivo deste, a Alemanha foi submetida às mais duras sanções por ter sido considerada a única responsável pela Grande Guerra — Adolf Hitler e Joseph Goebbels, astutamente, canalizariam o ressentimento alemão.

adolf hitler discursando em pulpito
“Hitler reage à vibração do coração humano com a delicadeza de um sismógrafo. (…) E com isso consegue, com uma certeza que nenhum dom consciente poderia dotá-lo, transformar-se num alto-falante proclamando os mais secretos desejos, os menos permissíveis instintos, os sofrimentos e revoltas pessoais de toda uma nação. Adolf Hitler entra numa sala. Ele fareja o ar. Por um minuto ele apalpa, sente o seu caminho, percebe a atmosfera. De repente, ele explode.”
— Otto Strasser, ex-membro do partido nazista e inimigo pessoal e político de Hitler, 1940.
Créditos: autoria desconhecida.

1. A munição: o caótico cenário da Alemanha pós-guerra

À Alemanha foram impostas sanções de toda ordem mediante o demasiado Tratado de Versalhes: redução do efetivo militar (limitado a 100 mil homens) com entrega de material bélico médio e pesado (proibição da fabricação deste); sérias privações à Marinha de Guerra e entrega de significativa parte da Mercante; proibição da Força Aérea; cessão dos territórios ultramarinos; perda de partes do território pátrio; e o pagamento de indenizações exorbitantes aos vencedores.

As consequências do Tratado de Versalhes levaram mais caos e revolta ao já conturbado pós-guerra alemão: além das imensas implicações ao fim da Grande Guerra (1918) e da dissolução Império Alemão (1918), a pandêmica gripe espanhola (1918-1919) assolava o planeta e a instabilidade política alemã era gritante.

A década de 1920, para Alemanha, foi incerta e muitas vezes trágica (com acirradas disputas políticas e assassinatos). Ao seu final, um novo baque: a República de Weimar (1919-33) foi terrivelmente abalada pela chegada da “Quinta-Feira Negra” — o Crash de Wall Street (quebra da bolsa de 1929).

A Alemanha, mais do que talvez qualquer outra nação da Europa, havia sido abalada pela depressão mundial. O país estava completamente aberto a novas soluções políticas. Poderiam o comunismo, o socialismo ou o capitalismo oferecer uma resposta, ou havia uma solução caseira?“. (BLAINEY, 2008, p. 127, grifo nosso)

2. A oportunidade: Adolf Hitler e Joseph Goebbels seguram firme o poder

Em tempo de fortes crises, soluções românticas costumam seduzir os homens. Os alemães, por sua singular história aguerrida, desejavam um forte líder, alguém capaz de restaurar a ordem sociopolítica, de salvar a economia e pôr a nação novamente nos trilhos como há poucas décadas se encontrava.

Em meio ao caótico cenário alemão, as explosivas palavras de Adolf Hitler e Joseph Goebbels ecoaram incendiando o coração das massas de modo mítico — arregimentaram centenas, milhares, milhões de adeptos Alemanha a fora.

Hitler e Goebbels, trabalhando juntos em extrema sintonia, irradiaram suas mensagens de modo uníssono e, em 30 de janeiro de 1933, Hitler ascendeu ao poder — fato ocorrido pelos degraus da democracia.

Hitler com punho levantado
O carismático Adolf Hitler com o punho fechado e erguido em desafio durante um discurso, 1939. Hitler era definitivamente um homem decidido. Créditos: Bettmann/CORBIS, ID: BE001124.

3. O maestro: Goebbels conjura leis, armas secretas e um único “deus”: Adolf Hitler

Com as rédeas do poder, o Ministério Nacional para Esclarecimento Público e Propaganda foi criado sob a chefia de Goebbels, que também alçou a Presidência da Câmara de Cultura do III Reich. “No Ministério, controlava a imprensa, o rádio, o teatro, os filmes, a literatura, a música e as belas artes. O objetivo de sua propaganda na mídia era criar esperanças, citando paralelos históricos e fazendo outras comparações, conjurando leis de história pretensamente imutáveis ou, como último recurso, referindo-se a algumas armas secretas”.

Diante do ainda hoje destaque dedicado à figura de Hitler, ocorre o “esquecimento” ou redução do papel desempenhado por Joseph Goebbels. Este, além de amigo íntimo e fiel escudeiro do Führer, foi o responsável pela idealização do fenômeno hitlerista.

O Ministro da Propaganda Nazista fomentou as massas com sonhos e ambições direcionados à adoração de um homem (Hitler), que prometia forjar um novo império milenar a partir de Berlim (futura Germânia).

Joseph Goebbels discursando
“Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade” — Joseph Goebbels. O maestro da propaganda nazista, o grande trunfo do Führer: leal, dedicado e gênio da propaganda… Certamente o mais poderoso alto-falante de Hitler e da ideologia nazista, só ficando abaixo do próprio Führer. Créditos: George Pahl, 5 de agosto de 1934. Arquivo Federal Alemão, ID: 102-17049.

“Goebbels, em seus discursos, normalmente falava sobre Hitler, enaltecendo suas virtudes e o glorificando. Outro item fundamental eram os livros e revistas, mostrando Hitler sendo adorado pelo público, especialmente pela juventude alemã e os impressos que mostravam a humilde nobreza do Führer, ao passear com seu cachorro ou cumprimentar a multidão em paradas e desfiles.” (Grandes Guerras, 2013, s/p)

4. A propaganda de ontem e a de hoje

Hitler e o brilhante Goebbels, juntos, revolucionaram o modo de propagar ideias — embora estas já existissem na teoria, nunca haviam sido executadas com tamanha competência e abrangência.

4.1 A particularidade alemã

A difusão alemã foi ampla e profunda, sempre endeusando Hitler e a ideologia nazista, sempre fortalecendo a unidade nacional ao exacerbar o moral germânico e demonizando todo aquele julgado inimigo da mãe alemã.

Como em todo regime que pretenda ser, no mínimo, autoritário, são determinados inimigos públicos e a eles são atribuídos todo mal possível. Destarte, a tormenta “ariana” irrompeu com tremenda fúria em detrimento daqueles reputados como responsáveis por todo e qualquer infortúnio que pôde ser suscitado — foi terrível.

comício do partido nacional socialista
O uso extensivo dos símbolos era um fato corriqueiro durante os dias da Alemanha Nazista. Créditos: autoria desconhecida.
Adolf Hitler discursando para milhares de pessoas
As massas: os discursos de Hitler e Goebbels eram verdadeiros espetáculos, onde as massas vibravam com costumeiro fervor fanático. Créditos: autoria desconhecida.

4.2 O que se aprendeu com a experiência nazista

“A propaganda de Hitler alcançou uma escala sem precedentes, sendo a ela atribuída grande relevância no que tange à formação de toda a imagem do Führer bem como em todo apoio do povo alemão à campanha nazista. (…) Tal propaganda nazista foi, embora maligna, de fundamental importância para a ciência, visto que através dela torna-se possível observar o poder e a influência que tal técnica pode exercer sobre seu interlocutor.” (SPERANZA, 2013, s/p, grifo nosso)

A propaganda de Hitler, acima de tudo, foi popular e sempre apelou para o lado emocional. Embora utilizada para o mal, suas lições foram absorvidas e aperfeiçoadas pelas mídias. “Após Hitler, a propaganda vem sendo amplamente utilizada, como se observa em diversos episódios posteriores, como a Guerra Fria, em que Estados Unidos e a extinta URSS procuravam promover suas ideologias (capitalismo e socialismo) aos demais países do mundo.”

4.3 O sombrio aviso sobre o resultado da propaganda maligna

Pouco mais de seis anos após o ingresso no poder, Hitler se lançaria à guerra invadindo a Polônia em 1939. Nesta, a humanidade, sem dúvida alguma, imergiu em seu mais profundo período de terror.

Ainda hoje, historiadores e pesquisadores correlacionados se perguntam como a Alemanha, um país julgado civilizado (até para a época), pôde incorrer em algo tão dramático e inesquecível como fora o Nazismo.

4. Alguns fragmentos pinçados a respeito da retórica de Hitler

Ele era um homem transformado e possesso. Estávamos na presença de um milagre”.
— Francis Yeats Brown, oficial do exército indo-britânico.

Havia ocasiões em que ele dava uma impressão de infelicidade, de solidão, de uma busca íntima… Mas, de repente, voltava frenético para o que estava fazendo com a autoridade desembaraçada de um homem que nasceu para a ação”.
— Kurt Ludecke, ex-playboy e membro do partido nazista.

“Era realmente um terreno fértil para se plantar uma lenda ou um mito”;
— Walter C. Langer.*

“Todas as suas palavras saem carregadas de uma poderosa corrente de energia. Há ocasiões em que parece que elas são arrancadas de suas entranhas e com isso causando-lhe indescritível angústia”; e
— Walter C. Langer.**

“Inclinando-se na tribuna como se estivesse tentando se projetar na consciência daqueles milhares de pessoas, ele mantinha a multidão e a mim debaixo de um poder hipnótico… Era claro que Hitler já estava sentindo a reação… Suas palavras eram como um látego. Quando parou de falar, seu peito ainda arfava de emoção”.
– Walter C. Langer.***

* ** ***Walter C. Langer, psicanalista estadunidense e autor da análise oficial de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial – Escritório de Serviços Estratégicos (OSS). Previu o suicídio de Hitler.


Nota

Este artigo foi criado de modo repetitivo, embora disfarçado como demandava a propaganda da Alemanha Nazi. Visou-se impor um pouco de prática sobre algo tão teórico para que se pudesse, ao menos minimamente, ter uma noção do que seria acordar, viver e respirar aos cânticos da ideologia nazista. Das duas, uma: ou se abraçaria a ideia ou a repudiaria (coisa que costumava ensejar fuga, quando não a morte).


REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, André Luiz. Biografia de Adolf Hitler. Acesso em 24 maio 2013.
ALMEIDA, André Luiz. Biografias da Segunda Guerra – Joseph Goebbels. Acesso em 24 maio 2013.
BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Século XX. São Paulo, SP: Fundamento, 2008.
Grandes Guerras. A propaganda na Segunda Guerra Mundial. Acesso em: 24 maio 2013.
HÉLIO. Hitler – a biografia por Alan BullockAcesso em: 23 maio 2013.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914-1991. trad. Marcos Santarrita. 2 ed. 46 imp. São Paulo: Companhia de Letas, 2012.
LANGER, Walter Charles. Relatório Secreto da II Guerra Mundial, a Mente de Adolf Hitler. trad. Luiz Corção. Rio de Janeiro: Artenova, 1973.
MASSON, Philippe. A Segunda Guerra Mundial: História e Estratégias. trad. Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2011.
SÉMELIN, Jacques. Purificar e Destruir: Usos políticos dos massacres e genocídios. trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
SPERANZA, Henrique de Campos Gurgel. Publicidade enganosa e abusiva.  Acesso em: 24 maio 2013.
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Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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