O Genocídio Armênio: destruir para se sentir seguro

mulheres crucificadas Genocídio Armênio
Mulheres crucificadas durante o Genocídio Armênio. Créditos: autoria desconhecida.

Durante a comemoração da Páscoa de 1915, o Império Turco-Otomano abriu as fervorosas portas do Século da Violência, quando deu início ao pouco conhecido Genocídio Armênio — onde mais de 1,5 milhão de pessoas (de uma população de apenas 2 milhões) foram mortas. O mundo, infelizmente, voltava seus olhos para a Primeira Guerra Mundial e Adolf Hitler, poucos anos depois, teria dito: “Afinal, quem ainda ouve falar sobre o extermínio dos armênios?”. Ainda hoje o governo turco nega o fato e proíbe qualquer manifestação a respeito.

Durante boa parte da sua existência, o Império Turco-Otomano (1299-1922) foi associado a uma imensa “colcha de retalhos” por sua imensidão e diversidade étnica. A convivência “pacífica” entre vários povos dominados pelos turcos durou séculos, sendo um exemplo para o Ocidente, mas, no início do século XIX, o Império não repousava sobre a glória de outrora e gritos de independência ecoavam dentro de sua vastidão — Grécia, Egito, Líbano, Síria, Palestina, Armênia etc. reivindicavam independência.

No início do século XX, ocorreu a Revolução dos Jovens Turcos (1908) e a tensão no velho império prognosticava guerras. Cientes da decadência e possível fragmentação territorial, os turcos ultranacionalistas — os Jovens Turcos — puseram em prática diversas ações que visavam restaurar a glória otomana. Buscou-se acentuar ainda mais a predominância otomana nos domínios do Império que se esfacelava.

Iniciada a Primeira Guerra Mundial, em 1914, os armênios (cristãos) foram acusados de colaborar com os russos (turcos e russos eram inimigos implacáveis e vinham se enfrentando há quase um século em disputas que mais se assemelhavam a “torneios esportivos”). Muitos armênios se recusaram a lutar na guerra e também foram acusados de traição para com o império.

Aproveitando-se da distração da guerra, os otomanos, em meio às comemorações da Páscoa de 1915, iniciaram as perseguições e agressões que desencadeariam o Genocídio Armênio, ao enforcar 600 líderes armênios em praça pública, todos acusados de alta traição. A perseguição dos turcos perdurou até 1923, mas vez ou outra se costuma frisar os anos da Grande Guerra, visto o grande número de mortos durante esse período. O genocídio, ao fim, acabaria assassinando 2 em cada 3 armênios.

a marcha da morte genocídio armênio
A marcha da morte ceifando a jovem vida. Créditos: autoria desconhecida.

Constantinopla (então capital turca — Istambul a partir de 1923) ordenou que milhares de homens armênios se dirigissem ao front de batalha para defender a duvidosa pátria. Entretanto, “enquanto cavavam trincheiras, eram executados pelos próprios soldados otomanos. A convocação para o serviço militar foi um pretexto para deixar as aldeias desprotegidas. (…) Muitos armênios foram queimados vivos nas aldeias. As jovens eram vendidas como escravas e as crianças encaixotadas vivas e atiradas no Mar Negro”. (VASCONCELOS, 2005, p.39)

O Genocídio Armênio encontrou seu fim nas mais diversas formas: expulsão para regiões inóspitas, bombardeios e execuções sumárias. Muitos morreram confinados em cavernas pelo uso de agentes tóxicos e outros foram queimados em igrejas incendiadas. O mesmo terror ocorria nas improvisadas câmaras de gás e nos insaciáveis paredões.

A Primeira Guerra Mundial levou à matança de um incontestável número de armênios pela Turquia — o número mais habitual é de 1,5 milhão —, que pode figurar como a primeira tentativa moderna de eliminar toda uma população”. (HOBSBAWM, 2012, p. 57)

Destinados à longa e perigosa caminhada até o deserto Der-El-Zor, na Síria, “no meio do caminho, os armênios sofriam abusos. As mulheres eram violentadas, seus filhos raptados e a maioria morria de fome, sede, doença ou frio. Os poucos que chegavam aos campos de concentração tinham poucas chances de viver”. (VASCONCELOS, 2005, p. 39)

Nos anos de 1915-1916, a perseguição foi sistemática e implacável: “processo de destruição-erradicação pelo governo jovem-turco contra a minoria armênia do Império Otomano. […] A finalidade não era mais a de forçar determinado povo a se dispersar por outros territórios. Tratava-se de fazê-lo desaparecer não só da ‘sua’ terra, mas ‘da’ Terra.”

a marcha da morte genocídio armênio
A marcha da morte quando a regiões inóspitas os armênios eram despachados. Créditos: autoria desconhecida.

Acredita-se que o próprio Adolf Hitler tenha se inspirado no Genocídio Armênio para criar o Holocausto dos Judeus. Hitler teria dito: “Afinal, quem ainda ouve falar sobre o extermínio dos Armênios?”.

O governo turco, atualmente, alega que houve “terrível mortalidade”, mas que a afirmação de genocídio não possui qualquer fundamento. As mortes teriam ocorrido de ambos os lados e seriam decorrentes de uma guerra civil. Contudo, há grande gama provas que consubstanciam o Genocídio Armênio — telegramas da cúpula do governo turco-otomano com mensagens claras de extermínio, dissidentes turcos, testemunhas russas.

No ano de 2005, o proeminente escritor turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura em 2006, afirmou em um jornal suíço que, na Turquia, “ninguém se atreve a falar” do Genocídio Armênio e da posterior matança de 30 mil curdos, tendo, inclusive, respondido processo por “insultar e desacreditar a identidade turca”.

Organismos internacionais, como a ONU, e diversos Estados, como Alemanha, França, Itália, Bélgica, Canadá, Suécia, Líbano, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela etc., já reconheceram o Genocídio Armênio. A União Europeia também pressiona a Turquia para que revele dados sigilosos.

Apesar da promessa de campanha presidencial de Barack Obama de reconhecer tal crime contra a humanidade, “os armênios, no entanto, não contam com o apoio oficial dos Estados Unidos, que têm na Turquia o seu mais forte aliado no mundo muçulmano. O país desempenha um relevante papel no xadrez político global e abriga bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).”

Estima-se que 40-60 mil armênios tenham desembarcado e reiniciado a vida a partir do zero no Brasil, principalmente em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. O Brasil, apesar de ter erguido monumentos em memória das vítimas, não reconhece oficialmente tal genocídio. Alguns municípios e estados da federação brasileira “reconhecem” tal crime contra humanidade, contudo, faltam-lhes o poder de Chefe de Estado (trata-se de competência privativa do Presidente da República), para efetivo reconhecimento perante organismos internacionais.

memorial das vítimas do Genocídio Armênio de 1915 em São Paulo
Fotografia do memorial das vítimas do Genocídio Armênio de 1915, em São Paulo-SP. Vários países têm construções equivalentes. O monumento encontra-se localizado na Avenida Tiradentes, próximo da Estação de metrô Armênia, São Paulo-SP. O monumento em memória das vítimas teve sua construção iniciada em 1965 e foi inaugurado, intencionalmente, em 24 de abril de 1966 – data referente ao início do inferno armênio (24 de abril). Apesar do monumento, o Brasil ainda não reconhece tal crime contra a humanidade. Créditos: autoria desconhecida.

Para saber mais: Genocídio Armênio.


Curiosidade

O nome da canção Holy Mountains, da banda de rock System Of A Down, cujos membros são descendentes de armênios, atende aos sagrados “Montes Ararat’s”. Estes se situam no entorno da fronteira entre a Turquia, a Armênia e o Irã e, no maior dos montes, teria sido o local onde a Arca de Noé encalhou após o dilúvio, de acordo com a tradição religiosa.


REFERÊNCIAS:
BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Século XX. São Paulo, SP: Fundamento, 2008.
Online Encyclopedia of Mass Violence. L’extermination des Arméniens par le régime jeune-turc (1915-1916). Acesso em: 10 maio 2013.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. Trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914-1991. trad. Marcos Santarrita. 2 ed. 46 imp. São Paulo: Companhia de Letas, 2012.
SÉMELIN, Jacques. Purificar e Destruir: Usos políticos dos massacres e genocídios. Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
VASCONCELOS, Yuri. Genocídio Armênio. Revista Aventuras na História. São Paulo: Abril, n. 23, p. 36-41, jul. 2005.
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