O Poderoso Chefão: 4 histórias reais

Francis ford coppola marlon brando e al pacino bastidores de o poderoso chefão
O Poderoso Chefão imortalizado no cinema arrebatou muito mais do que fãs, escancarou histórias sangrentas do submundo da Máfia. Créditos: O Poderoso Chefão, Parte II / Montagem: Eudes Bezerra.

O Poderoso Chefão imortalizado no cinema arrebatou muito mais do que fãs, escancarou histórias sangrentas do submundo da Máfia.

Baseada no livro O Poderoso Chefão (originariamente só O Chefão), de Mario Puzo, serviu de base para a trilogia que faria um tremendo sucesso nos cinemas.

A obra-prima cinematográfica de Francis Ford Coppola conseguiu dezenas de milhões de fãs no mundo inteiro, sendo os seus dois primeiros filmes considerados por muitos como os melhores da história.

A trilogia se encontra disponível em diversos streamings:

  1. O Poderoso Chefão, Parte I (EUA; Coppola; 1972);
  2. O Poderoso Chefão, Parte II (EUA; Coppola; 1974);
  3. O Poderoso Chefão, Parte III (EUA; Coppola; 1990).
Bonassera e don corleone em O Poderoso Chefão
O agente funerário Bonasera pedindo a Don Corleone (Marlon Brando) que vingasse a sua filha. Créditos: Cena inicial de O Poderoso Chefão, Parte I (EUA; Coppola; 1972).

Nota: Durante a criação deste artigo, notou-se, apesar da boa vontade, a complexidade do tema e restou decidido que o mesmo será confeccionado em partes devido à imensa quantidade de personagens e histórias.

Assim, este artigo traz as considerações iniciais do todo e as primeiras inspirações para alguns poucos personagens marcantes da trilogia O Poderoso Chefão.

Ainda, sem desmerecer o trabalho dos atores, procurarei também não tratar seus nomes neste momento, visto a já declarada quantidade de prenomes e patronímicos.

Ainda, necessário se faz saber que todos mostrados aqui, sem exceção, coexistiram na mesma época — mais ou menos na primeira metade do século XX — sendo, inclusive, cúmplices, aliados e rivais mortais.

PERSONAGENS DE O PODEROSO CHEFÃO

1. Don Vito Corleone
⠀⠀1.1 Joseph Bonanno
⠀⠀1.2 Charles “Lucky” Luciano (Salvatore Lucania)
⠀⠀1.3 Carlo Gambino
2. Johnny Fontane inspirado em Frank Sinatra
3. Hyman Roth inspirado em Meyer Lansky
4. Moe Greene inspirado em Benjamin “Bugsy” Siegel
Referências

1. DON VITO CORLEONE

robert de niro interpretando don vito corleone em o poderoso chefão
Robert De Niro interpretando Don Vito Corleone em sua juventude e ascensão. Créditos: Cena de O Poderoso Chefão, Parte II (EUA; Coppola; 1974).

Abrindo a persiana, temos Don Vito “Corleone” Andolini.

Certamente o mais famoso e carismático personagem da trilogia, tendo a si, inclusive, conferenciado o título da trilogia (título depois cedido ao seu filho, Michael Corleone, interpretado por Al Pacino).

Apresentado nas partes I e II, foi o principal ator e grande responsável por uma imensa quantidade de frases marcantes e atitudes enigmáticas.

Apesar de parecer santo na maioria das situações, Don Corleone não tinha nada. Não se torna um Don sem extorquir, contrabandear, assassinar… O crime organizado é assim.

A posição de Don ou subchefe não é herdada de acordo com o berço, embora algumas vezes aconteça. Estas devem ser conquistadas e somente os mais astutos e bravos homens-feitos sobem na hierarquia da Máfia.

Os demais que sentam no trono sem merecer são mortos pelos seus pares antes que cheguem a esquentar o assento…

Na vida real, embora alguns autores e escritores ingênuos ou maliciosos tendam a concentrar categoricamente a vida de Don Vito Corleone em apenas uma ou outra pessoa, parece claro que sua inspiração é múltipla.

A sua inspiração decorre de uma gama de mafiosos mundialmente conhecidos, o que seria até injusto declarar apenas um como iluminação definitiva.

Entre as lendas da Máfia, destacam-se três imigrantes italianos que nunca podem ser deixados de lados, quais sejam: Joseph Bonanno, Charles “Lucky” Luciano e Carlo Gambino. 

Joseph Bonanno Charles Lucky Luciano e Carlo Gambino
Joseph Bonanno, Charles “Lucky” Luciano e Carlo Gambino, respectivamente. Créditos: Bonanno e Luciano: autores desconhecidos; Gambino: Hulton Archive – Getty Images.

1.1 Joseph Bonanno

Joseph Bonanno, nascido na Sicília, na Itália, emprestou sua política, polidez e carisma ao Padrinho de Coppola.

Era temido e respeitado no submundo, era definitivamente o que a Maffia chama de “homem de honra”.

Dentre todos os indicados, é geralmente o mais aceito como a grande inspiração inicial para o Don das telonas.

“Contrabandista de bebidas alcoólicas, assassino profissional, agiota, extorsionário e Don da Máfia, sempre se considerou, antes de tudo, um homem de honra, um homem para quem a tradição era absolutamente importante, para quem o bom nome e a boa reputação vinham antes de qualquer coisa.

Considerado por muitos como o modelo para o Don Corleone de Mario Puzo, do best-seller O Poderoso Chefão, Joseph Bonanno incorpora tudo o que é inesquecível sobre o saber da Máfia, e talvez mais do que qualquer outro gângster na história resume bem o que era pertencer a La Cosa Nostra”. (CARTER, 2007, p. 13, grifo autoral)

1.2 Charles “Lucky” Luciano

Charles “Lucky” Luciano, nascido na Sicília com o nome de Salvatore Lucania, sistematizou a Cosa Nostra (Máfia Ítalo-Americana) ao criar a Comissão Nacional no início da década de 1930 e se tornou seu grande chefão, ainda que dissesse não existir mais a figura do chefe dos chefes.

Foi o primeiro a se infiltrar verdadeiramente na política e a perceber que esse era o caminho natural para o fortalecimento do crime organizado transacional.

“Controlava apostas, casas clandestinas de jogos, prostituição e roubo de mercadorias. Com a Lei Seca, entrou para o ramo de contrabando de bebidas e criou uma rede de distribuição nacional e bares ilegais.

Já em 1927 estava milionário.

Quatro anos depois fundou o Sindicato do Crime [a Comissão], organização que agia em dez estados americanos e no Canadá.” (AMORIM 2010, p. 356, acréscimo nosso)

Cumprindo pena durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), fez um acordo com os Aliados em troca de sua liberdade: Favoreceria a invasão dos Aliados na Sicília, na Itália, ocupada pelas tropas nazistas.

Esse auxílio da Máfia na Itália salvou a vida de milhares de soldados dos Aliados, além de denunciar espiões e sabotadores nazistas nos Estados Unidos.

Em troca recebeu sua liberdade de volta sob a condição de nunca retornar à América, embora tenha participado da Conferência de Havana, como bem demonstrado naquelas reuniões na parte II de O Poderoso Chefão.

livro sobre a história da máfia - mafia files
Livro que aborda 20 pessoas/casos que possibilitam uma imersão no mundo do crime organizado. Com uma leitura simples e rápida, dá para se ter uma boa noção da História da Máfia. Montagem: Eudes Bezerra.

1.3 Carlo Gambino

Carlo Gambino, também nascido na Sicília, o mais poderoso chefão das décadas de 1960 e 1970, abarcou para si o título de verdadeiro chefe mafioso e foi um dos mais pérfidos assassinos em sua sangrenta ascensão na hierarquia da Cosa Nostra.

“Carlo Gambino foi uma força incrivelmente poderosa, tanto como um homem de negócios legais, com interesse em firmas de construção e fábricas, quanto como criminoso, incluindo a influência opressiva que exercia sobre os sindicatos.” (CARTER, 2007, p. 98-99)

Carlo Gambino e Frank Sinatra eram grandes amigos e abordaremos melhor isso no tópico seguinte.

Por fim, todos os três dons acima forneceram subsídios para a construção do mítico Don Corleone, ora com sagacidade e política ora com sangue e um falso glamour.

Ainda, todos os três mafiosos são amplamente reconhecidos como os responsáveis pela condução do crime organizado moderno.

2. JOHNNY FONTANE INSPIRADO EM FRANK SINATRA

frank sinatra Johnny Fontane e vito corleone em o poderoso chefão
Johnny Fontane, um grande apadrinhado de Carlo Gambino. Créditos: [1] autoria desconhecida; [2] Cena de O Poderoso Chefão, Parte I (EUA; Coppola; 1972).
Frank Sinatra, ator e cantor norte-americano de ascendência italiana e eterno ídolo de diversas gerações.

Astro de filmes e inesquecíveis canções que embalaram casais apaixonados.

Dono de diversos prêmios internacionais e com o nome cravado na Calçada da Fama de Hollywood, Frank, como muitos outros astros — como Louis Armstrong com Al Capone —, também possuía suas ligações com a Máfia Ítalo-Americana – Cosa Nostra.

Embora a sequência não dedique tanta importância a Johnny Fontane por supostas questões de saúde “ameaçada”, o livro destina boa soma de páginas ao personagem que, entre uma ou outra discórdia, teria sido inspirado em Frank Sinatra.

As semelhanças, de fato, são imensas e a obra literária de Mario Puzo traz diversas histórias semelhantes aos fatos reais da vida de Sinatra.

Puzo, inclusive, teria sido ameaçado por Sinatra e gangsteres algumas vezes. O mesmo ocorrendo com Coppola (por isso Fontane simplesmente some nas partes II e III da trilogia).

Em 1998, Tina Sinatra, a filha de Frank Sinatra, revelou o envolvimento do pai com a máfia com detalhes, o que também incluiu esquemas de mútua ajuda na campanha presidencial de John F. Kennedy contra Nixon.

O Federal Bureau of Investigation (FBI) possui mais de duas mil páginas acerca do passado “duvidoso” de Sinatra.

Frank Sinatra, sem dúvida, viveu em uma época extraordinária e foi cercado por homens igualmente extraordinários (no pior dos sentidos).

Bastante do glamour norte-americano decorre do cotidiano dos mafiosos e, embalados pelas músicas de Frank, muitos mataram e morreram impondo seu jeito, fazendo tudo do seu jeito, como na emocionante canção My Way, de Sinatra.

frank sinatra o poderoso chefão
Frank Sinatra. Créditos: autor desconhecido.

3. HYMAN ROTH INSPIRADO EM MEYER LANSKY

hyman roth e meyer lansky
Hyman Roth e Meyer Lansky. Créditos: [1] Cena de O Poderoso Chefão, Parte II (EUA; Coppola; 1974); [2] autoria desconhecida, respectivamente.
Na parte II de O Poderoso Chefão aparece com destaque Hyman Roth, um gângster judeu que teria sido inspirado em Meyer Lansky.

O filme, onde grande da ambientação se passa em Cuba, revela os investimentos da Máfia na então ilha do ditador Fulgêncio Batista.

Se Cuba era um protetorado dos Estados Unidos de acordo com a sua própria constituição, Fulgêncio Batista era uma marionete dos gangsteres que acaba sendo deposto com o sucesso da Revolução Cubana (1959).

O filme mostra o judeu como traidor, mas, na vida real, Lansky foi muito mais que um aliado dos ítalos-americanos: foi uma inesgotável fonte de lucro para seus amigos — fato relatado no filme, quando se diz: “ele sempre traz lucro para seus amigos”.

Meyer Lansky, nascido como Maier Suchowljansky na Polônia ou Rússia (nascimento incerto), era um sujeito pacato e sempre procurou distância dos holofotes da imprensa, sendo um grande aliado de Salvatore Lucania e Benjamin Siegel.

Acabou a vida conhecido na história como “o Cérebro”, ou “o Homenzinho”, do crime organizado moderno e foi um dos alvos mais proeminentes do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Tornou-se conhecido por sua inteligência, cordialidade e capacidade de se manter um passo à frente dos demais, trabalhando com tudo dentro e fora dos Estados Unidos.

Além disso, também pelo fato de sempre ter a cara enterrada dentro de um livro, aprendendo sobre algo. Era um gênio.

Mesmo com diversos órgãos do governo no seu encalço por décadas, o gangster judeu passou pouquíssimo tempo preso ou detido e encerrou sua carreira de delitos ao morrer tranquilamente aos 80 anos de idade.

Tão bem-sucedida foi a sua carreira que nos últimos anos de vida as agências do governo acabaram “desistindo” de prendê-lo.

Lansky atuou com figuras lendárias da Cosa Nostra, como Charles “Lucky” Luciano (amigo desde a juventude), Carlo Gambino, Joe Bonanno e tantos outros dons que mostraram ao mundo como crime organizado funciona.

Meyer Lansky na juventude
Meyer Lansky na juventude. Créditos: autor desconhecido.

4. MOE GREENE INSPIRADO EM BENJAMIN “BUGSY” SIEGEL

Moe Greene e Benjamin bugsy siegel
Moe Greene. Créditos: [1] autoria desconhecida; [2] Cena de O Poderoso Chefão, Parte I (EUA; Coppola; 1972).
Embora pouco tenha aparecido na parte I da trilogia e seja difícil fazer um paralelo, o personagem Moe Greene foi diretamente inspirado no gangster judeu Benjamin “Bugsy” Siegel.

Um fato que se comprova na parte II da sequência de Coppola, quando Hyman Roth acusa, diretamente, Michael Corleone do assassinato de Siegel.

O nome Moe Greene, inclusive, é uma junção dos nomes dos dois mafiosos que sucederam Siegel na administração do Cassino Flamingo.

Acompanhado por uma sinistra aura de glamour e sangue, Siegel contribuiu generosamente na parte mais violenta do moderno crime organizado.

Atraente, elegante e de hábitos refinados, Benjamin “Bugsy” Siegel carregou consigo durante décadas a fama de galã do submundo e amante de estrelas de Hollywood — perigosamente popular entre senhoras e senhoritas.

Assassino, sádico, estuprador e reputado como sociopata — indiferente aos crimes mais repugnantes. Ben, como era chamado por seus íntimos, foi um dos gângsteres mais implacáveis da história, ainda que sua violência igualmente convivesse com sua notória beleza e seus hábitos galanteadores.

Ao nome de Siegel também se associa outro feito: transformar uma pequena cidade no meio do deserto na Cidade do Pecado — Las Vegas! (BEZERRA, 2022, s/p)

Benjamin Bugsy Siegel
Benjamin “Bugsy” Siegel, o galã do submundo. Créditos: autor desconhecido.
benjamin bugsy Siegel e George Raft
Amigos de infância: o gangster Siegel e a estrela de Hollywood, George Raft. Na ocasião, Raft se encontrava no tribunal para testemunhar em favor de Siegel. Créditos: © Bettmann / Corbis. ID BE028709.

REFERÊNCIAS:

AMORIM, Carlos Roberto. Assalto ao Poder. Rio de Janeiro: Record, 2010.

CAWTHORNE, Nigel. A História da Máfia. trad. Guilherme Miranda. São Paulo: Madras, 2012.

CARTER, Lauren. Os gangsteres mais perversos da História. trad. Magda Lopes. São Paulo: Planeta do Brasil, 2007.

MENDRONI, Marcelo Batlouni. Crime Organizado: aspectos gerais e mecanismos legais. 3. ed. São Paulo: Atlas. 2009.

PUZO, Mario. O Poderoso Chefão

SMITH, Jo Durden. A História da Máfia. trad. Beatriz Medina. São Paulo: M. Books do Brasil, 2015.

BEZERRA, Eudes de Oliveira. Benjamin Bugsy Siegel – o rei de Las Vegas. Acesso em: 07 jul., 2022.

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Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário. Gosta de ler, escrever, planejar e principalmente executar o que planeja. Na Internet, atua de despachante a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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