Stamford Bridge, 1066: o fim da Era Viking

pintura da batalha de stamford bridge
A Batalha de Stamford Bridge, 1870, de Peter Nocolai Arbo. Obra constante no Museu de Arte do Norte da Noruega. Os anglo-saxões combateram com armadura completa e os vikings apenas com suas armas de primeira utilidade.

Encerrando 300 anos de saques, pilhagens e incríveis histórias de bravura, o ânimo exaltado dos vikings finalmente arrefeceu quando o último grande chefe nórdico, Harald Hardrada, tombou nos campos da cidade de Stamford Bridge, mas, claro, não sem antes empunhar seu machado com grande fúria pela última vez.

Sucessões ao trono sempre foram momentos em que antigos e disfarçados ressentimentos eram reavivados e na transmissão do trono inglês do ano de 1066 não foi diferente. E mais: certamente foi uma das sucessões de maior respaldo da história e é neste cenário caótico que se prega o fim da era viking.

Em 5 de janeiro de 1066, quando o rei inglês, Eduardo III, o Confessor, morreu sem deixar herdeiros, desencadeou-se uma rápida disputa pela sucessão do trono inglês, que também atrairia grandes nomes estrangeiros à contenda.

Inicialmente, Eduardo teria prometido que, caso morresse sem filhos, o trono inglês seria entregue ao seu primo, Guilherme, o Bastardo, da Normandia, com o qual passou muitos anos de sua vida durante o exílio. Todavia, em seu leito de morte, Eduardo teria passado a coroa ao anglo-saxão Haroldo Godwinson, o que enfureceu o normando.

Haroldo, filho do conde de Wessex, era membro da mais poderosa família da época e já havia demonstrado sua destacada habilidade militar. Dois anos antes da morte do Confessor, em 1064, havia viajado à Normandia e lá jurado a Guilherme que o apoiaria na sucessão ao trono inglês. Com o não cumprimento da sua palavra (traição), Guilherme despontou a invadir a Inglaterra para reclamar sua coroa há muito prometida.

Em meio à conturbada cena, ainda existia outro e não menos entusiasmado reclamante ao trono inglês: o viking Harald Hardrada, o rei norueguês. Para este, um acordo entre os antigos reis da Inglaterra e da Noruega indicava-o ao trono e não poderia ser desfeito mesmo com a coroação do anglo-saxônico Haroldo.

Dessa forma, tão logo Haroldo Godwinson se tornou rei, autonomeando-se Haroldo II, teve seu trono reivindicado por dois grandes nomes da História: Guilherme, o duque da Normandia, e Harald Hardrada, o rei norueguês. O normando ficaria conhecido como “o Conquistador” e o nórdico como o último grande chefe viking. Com ambos contestando a coroação de Haroldo, um ao sul e outro ao norte da Inglaterra, respectivamente, era questão de tempo para que sangrentas e definitivas batalhas se sucedessem.

Depois de muito refletir, o rei inglês decidiu reunir seu exército na costa sul, para aguardar o desembarque das tropas normandas. Haroldo acreditava que os nobres do norte conseguiriam barrar o avanço viking por algum tempo, ao passo ele próprio conseguiria vencer o poderoso exército de Guilherme no litoral austral.

Os desembarques nórdico e normando

Em setembro de 1066, o rei escandinavo desembarcou com 5 mil compatriotas e consigo trouxe Tostig, o irmão exilado de Haroldo. Hardrada era conhecido por sua incrível ferocidade em combate e história na Guarda Varegue do Império Bizantino. Dos três grandes nomes que disputavam o trono da Inglaterra, Harold Hardrada, endurecido por tantas guerras, era o guerreiro mais calejado e provavelmente o mais forte. Uma verdadeira lenda viva.

Do outro lado do Canal da Mancha, na costa da atual França, encontrava-se Guilherme prestes a embarcar seus 12 mil soldados ainda no mês de setembro. Porém, por causa de problemas climáticos, o esperado desembarque na Inglaterra só veio a ocorrer no dia 28. Os normandos (“homens do norte”) descendiam dos vikings e Guilherme era um hábil e ambicioso comandante militar, também dispondo de um bem equipado exército para assegurar sua pretensão régia.

A força nórdica, apesar do seu reduzido número, rapidamente varreu o norte da ilha em uma fúria que teria imposto a Haroldo que se pusesse em marchar forçada ao encontro. Harald conquistou a importante cidade de York e se dirigiu aos campos da cidade de Stamford Bridge, ainda ao norte, onde dividiu sua força de invasão, tendo dois terços dos 5 mil homens permanecido e um terço enviado de volta aos drakars, os navios-dragão vikings.

Stamford Bridge, a derradeira batalha

Nem Hardrada nem Tostig, nem qualquer outro escandinavo, esperava que os anglo-saxões tão cedo ali aparecessem. Contudo, no dia 25 de setembro, com uma marcha forçada que ainda hoje impressiona estudiosos, o exército inglês completamente equipado conseguiu cobrir aproximadamente 320 quilômetros em apenas quatro dias, de forma a surpreender a principal força viking que se encontrava próxima à cidade de Stamford Bridge.

Pegos de surpresa, os escandinavos se encontravam despidos de suas vestes de guerra e espalhados pelo campo. Diz-se que o calor feito durante o fatídico 25 de setembro de 1066 foi grande e insuportável, motivo pelo qual muitos nórdicos se banhavam no rio ou dormiam à sombra.

O ataque inesperado trouxe grande confusão às fileiras improvisadas dos noruegueses. Hardrada, mesmo aconselhado por Tostig a não combater de forma a se retirar, decidiu enfrentar o anglo-saxão como demandava o espírito e a religião vikings.

Os soldados de Hardrada, além de já reduzidos a dois terços da força original, ainda se encontravam divididos pelo rio Derwent, onde a primeira parte da sua força foi arrasada pelos cavaleiros de Haroldo II. Em dado momento do avanço, todo o exército da Inglaterra foi barrado por um só viking que dominava a parte central da ponte de Stamford Bridge.

Os relatos que logo percorreram o mundo aludem a mais famosa, temida e respeitada classe de guerreiro viking, o berserker:

Os noruegueses estavam separados pelo rio Derwent. Aqueles que estavam na margem norte tiveram que lutar de costas para o rio. Muitos foram empurrados para dentro dele e se afogaram. Um viquingue [berserker] empunhando um machado conseguiu proteger a ponte por algum tempo, mas foi morto por um inglês em um barco pequeno que o acertou com uma lança por baixo”. (CAWTHORNE, 2010, p. 97, acréscimo nosso)

Com a morte certa no campo de batalha, Tostig teria perguntado ao seu irmão em que condições o rei anglo-saxão ofereceria a paz definitiva a Hardrada, no que prontamente foi respondido:

Ofereço-lhe sete palmos da terra inglesa, ou mais, se ele for mais alto do que a maioria dos homens”.

Os vikings se defenderam com bravura, mas o fato de não se encontrar com armaduras e em reduzido número pesou implacavelmente. Todavia, o combate se portou equilibrado por bastante tempo até Harald Hardrada tombar depois de ser atingido no pescoço por uma flecha. Era a primeira vez que Hardrada perdia uma batalha.

Tostig morreu logo depois, mas os nórdicos, mesmo sem seu idolatrado comandante, continuaram a lutar corajosamente em pequenos grupos. Reforços chegaram, mas era tarde demais e, por terem feito uma marcha forçada de 19 quilômetros, pouco puderam fazer para auxiliar seus irmãos em armas e a vitória do rei Haroldo II foi concluída.

O desfecho da Batalha de Stamford Bridge, em 25 de setembro de 1066, costuma ser apontado como o fim da era viking, apesar de existir divergência de pensamento. Os vikings ainda continuaram praticando seus habituais saques por ao menos duas décadas, mas sem forjar nenhum grande líder. Acabaram se convertendo ao Cristianismo e se integrando à Europa Continental. Nunca foram conquistados nem sofreram invasão em seus desafiadores fiordes.

A queda de Harald Hardrada foi sucedida pelo enfrentamento entre anglo-saxões e normandos (“homens do norte”) na Batalha de Hastings, em 14 de outubro, onde Guilherme conquistou o trono inglês e deixou de ser “o Bastardo” para se apresentar à História como Guilherme, o Conquistador. Haroldo II foi morto na batalha, acredita-se que com uma flecha no olho (castigo dado a traidores).

Agradecimento especial ao Hednir Clan pelo valioso auxílio e disposição prestados.

REFERÊNCIAS:
BOXELL, Geoff. The Battle of Stamford Bridge. Acesso em: 11 set. 2014.
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. trad. Pedro Libânio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.
JESTICE, Phyllis G. História das Guerras e Batalhas Medievais. O Desenvolvimento de Técnicas, Armas, Exército e Invenções de Guerra na Idade Média. trad. Milton Mira de Assumpção Filho. São Paulo: M. Books, 2012.
PORTARI, Douglas. Haroldo II x Harald Hardrada. Acesso em: 11 set. 2014.
SHORT, William R.. Hurstwic. Acesso em: 11 set. 2014.
UK Battlefields Resource Centre. Battle of Stamford Bridge. Acesso em: 11 set. 2014.
VINCENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002.
Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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