O irreverente tenente-coronel Jack Doido Churchill

Jack Churchill com arco e flecha
Jack Churchill no Campeonato Mundial de Tiro e Arco, em Oslo, na Noruega, 1939. Créditos: autoria desconhecida.

Portando arco e flecha, uma tremenda espada e a tradicional gaita de fole escocesa, o romântico e irreverente “Jack Doido” combateu durante a Segunda Guerra Mundial, sendo conhecido como um dos mais bizarros e durões soldados dos fronts de batalha deste conflito. De espírito aventureiro, Jack possuía um senso de humor tão incrível quanto sua bravura: condecorado e reconhecido líder Commando, Churchill construiu uma das mais singulares biografias de guerreiros do século XX.

Você sabe, se não fosse por esses malditos ianques (norte-americanos) poderia ter mantido a guerra acontecendo por mais 10 anos” — lamentou Jack Churchill quando a Segunda Guerra Mundial encontrou seu termo final.

1. Tenente-Coronel Churchill, ou melhor, Jack “Doido” Churchill

Ao longo de sua carreira militar, o Tenente-Coronel John Malcolm Thorpe Fleming Churchill, abarcou os apelidos de “Jack Doido” e “Combatente Jack Churchill”. Nasceu em 16 de setembro de 1906, em Surrey, no sul da Inglaterra, e faleceu na mesma cidade aos 89 anos em 8 de março de 1996. Casou-se com Rosamund Denny em 1941 e teve dois filhos. Recebeu condecorações, incluindo medalhas por serviços distintos.

Amante da história e da poesia, dizia que “qualquer oficial que entra em ação sem sua espada está vestido impropriamente.” Ao contrário do indestrutível e beligerante Sir Adrian Carton de Wiart ou do furtivo e implacável Simo Häyhä (Morte Branca), Jack Churchill não apreciava a tanto guerra nem a vida militar, mas seu coração de aventureiro clamava por emoções e perigos — Jack encarava a vida como algo repleto de desafios a serem batidos.

Churchill olhando fixamente para câmera
“Qualquer oficial que entra em ação sem sua espada está vestido impropriamente”. Churchill era conhecido por suas célebres frases. Créditos: autoria desconhecida.

2. As décadas de 1920 e 1930

Na década de 1920, entrou no exército britânico, aprendeu a tocar a tradicional gaita de fole escocesa, a praticar arco e flecha e foi um dos primeiros homens a tentar atravessar a desafiante Índia sobre motocicleta (aventura que terminou ao se chocar contra um búfalo em 1927).

Em 1936, em meio ao marasmo da paz, saiu do exército por falta de emoção e passou a se apresentar com sua gaita escocesa e a fazer pequenos filmes e peças teatrais na Europa. Em 1939 representou a Inglaterra com seu arco e flecha no Campeonato Mundial de Tiro e Arco na Noruega. Ao que se sabe, não venceu a competição.

Jack Churchill em sua motocicleta
Jack fazendo cara feia e voando baixo em sua motoca, sempre em busca de emoção.
Créditos: autoria desconhecida.

3. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu em 1º de setembro de 1939, Jack Churchill se reintegrou ao Regimento de Manchester (sua antiga unidade militar). Em 1940, durante a catastrófica derrota franco-britânica na França e o consequente colapso francês, enquanto os soldados Aliados fugiam para o porto de Dunquerque, no evento que ficaria conhecido como a maior evacuação militar da história, Jack Churchill continuou suas “patrulhas”. Como arma, utilizou seu arco e flecha abatendo soldados alemães com disparos silenciosos de até 200 metros. Terminou ferido e retornou à Grã-Bretanha.

Posteriormente, Churchill veio a tomar conhecimento da criação dos Commandos e, mesmo sem saber o que era ser um Commando, voluntariou-se para servir quando soube que teria ações maiores e mais perigosas.

3.1 Churchill na Noruega

No ano seguinte, em 27 de dezembro de 1941, já atuando como oficial (capitão) Commando, aportou na Noruega com a missão de explodir fábricas de óleo e coletar informações.

Jack Doido com espada
Durante exercício, “Jack Doido” (à direita) lidera unidade militar com espada na mão.
Créditos: Museu Imperial da Guerra, Londres, Inglaterra.

Desejando elevar o moral dos Commandos que liderava e demonstrar bravura frente aos alemães, Jack Doido aguardou o desembarque tocando sua gaita de fole em meio às rajadas de metralhadoras inimigas. O desembarque na praia não poderia deixar de ter sua marca: Churchull foi de encontro aos germânicos com sua gigante espada Claymore em mãos e gritando “Commandos! Commandos! Commandos!”.

Duas horas mais tarde, havia feito quase 100 prisioneiros alemães e destruído as fábricas de óleo. Foi novamente ferido e recebeu uma medalha por serviços distintos (Ordem de Serviços Distintos).

3.2 Churchill na Itália

Doravante, quando recuperado, recebeu nova promoção (tenente-coronel) e foi enviado em missão à Sicília e à Salerno, na Itália. Pelo destemor e conquista de objetivo praticamente impossível, recebeu outra condecoração por serviços distintos: “Jack Doido” e seus comandos haviam assegurado a cabeça de praia de Salerno quando todas a probabilidades indicavam a missão como suicida. Também capturaram 42 soldados e um ninho de morteiros.

Jack Churchill com gaita de fole em desembarque
Fotografia registra a gaita de fole do oficial commando Jack Churchill. Créditos: Getty Images.
Jack instruindo soldados em pé
Jack instruindo soldados em treino de tiro. Créditos: autoria desconhecida.
Jack pulando em penhasco com dois soldados
Jack em instrução de tropas. Créditos: autoria desconhecida.

3.3 Churchill nos Balcãs

No decorrer de 1944, em uma missão fracassada na ilha de Brac, na costa da então Iugoslávia, foi ferido após a explosão de bombas e preso pelos alemães. Diz-se que, mesmo ferido pelos estilhaços das bombas, Jack Churchill tocou sua gaita até ser capturado pelos soldados inimigos.

Pelo seu sobrenome, Churchill, os germânicos pensaram que poderia ter algum parentesco com o premier britânico Winston Churchill e o enviaram ao campo de Sachsenhausen, na Alemanha, onde se encontravam prisioneiros importantes de diversas nacionalidades.

3.4 A fuga — ou não —  do campo de Sachsenhause

Escapou de Sachsenhausen após cavar um túnel, mas foi recapturado e transferido para outro campo de prisioneiros, na Áustria. Neste campo, empreendeu uma fuga intrigante: após uma queda de energia à noite, que acarretou na falha dos holofotes, “Jack Doido” simplesmente saiu caminhando pelo portão.

Alimentando-se de vegetais e de toda sorte de mantimentos que conseguiu encontrar, atravessou os Alpes e fez contato com uma unidade norte-americana.

Há referências que indicam que Jack Churchill teria sido solto pelos próprios alemães: a falha de energia e o descompromisso dos guardas, talvez, tenham sido propositais. Todavia, considerando seu histórico de feitos, não seria de se estranhar se o líder Commando tivesse ousado e “simplesmente” caminhado para fora do campo de prisioneiros.

Montgomery e Jack Churchill com espada
O Marechal Montgomery passando instrução e Jack Churchill (logo atrás e “isolado”) com sua espada repousada sobre o ombro direito. Créditos: autoria desconhecida.

3.5 Churchill — quase  no Japão

Reincorporado à sua unidade, a guerra terminou quando Churchill se preparava para a invasão do Japão, em meados de 1945. Atribuindo a “culpa” pelo fim do conflito aos norte-americanos, teria dito a um amigo em um tom meio descontraído: “Você sabe, se não fosse por esses malditos ianques [norte-americanos] poderia ter mantido a guerra acontecendo por mais 10 anos.”

Churchill almejava subir ainda mais de patente, conhecer mais lugares exóticos e pessoas diferentes — gostava do perigo, da excitação proporcionada por grandes desafios.

4. Pós-Segunda Guerra Mundial

Após o término da guerra, em 1948, Jack Churchill serviu no recém-criado Estado de Israel, onde continuou sua singular carreira militar no conflituoso cenário do Oriente Médio. Em meados de 1948, quando militantes árabes atacaram um comboio com israelenses que se dirigia a um hospital, “Jack Doido” honrou seu apelido:

Churchill, (…) caminhou sozinho em direção à emboscada, sorrindo e carregando uma vara de abrunheiro [ameixeira]. ‘As pessoas são menos propensas a atirar em você, se você sorrir para elas’, disse ele. Assim foi”. (Telegraph, 2013, s/p, acréscimo nosso)

Ao fim da dramática emboscada, a unidade de Jack havia evacuado e salvo quase 500 pacientes do hospital.

5. A aposentadoria e os últimos anos

“Ele finalmente se aposentou do exército, com dois prêmios da Ordem de Serviços Distintos, em 1959. Continuou a trabalhar como civil do Ministério da Defesa, onde supervisionava a formação de jovens cadetes no Distrito de Londres. Um de seus velhos amigos escreveu mais tarde que Churchill gostava do trabalho, não só por causa de sua associação com os cadetes entusiasmados, mas também porque o trabalho lhe deu um escritório na Horse Guards, em Whitehall, e uma janela de onde podia observar troopers da Cavalaria montando guarda em um pátio abaixo dele. Ele era mais velho agora, mas ainda assim o guerreiro.” (SMITH, 2013, s/p)

O bravo “Jack Doido” faleceu tranquilamente em sua cidade natal, Surrey, em 8 de março de 1996. Contava 89 anos de idade e deixou consigo um incrível legado de aventuras de guerra.

REFERÊNCIAS:
ANDREWS, John. Glorious Bastard: ‘Mad’ Jack Churchill. Acesso em: 30 nov. 2013.
BELLOWS, Jason. Any officer who goes into action without his sword is improperly dressed. Acesso em: 30 nov. 2013.
DRURY, Ian. The amazing story of Mad Jack, the hero who took on the Nazis with a bow and arrow (and later became a professional bagpipe player). Acesso em: 30 nov. 2013.
MASSON, Philippe. A Segunda Guerra Mundial: História e Estratégias. trad. Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2011.
Pensadores Brasileiros. Jack Churchill. Acesso em: 30 nov. 2013.
The Telegraph. Lieutenant-Colonel Jack Churchill. Acesso em: 30 nov. 2013.
SMITH, Robert Barr. Fighting Jack Churchill survived a wartime odyssey beyond compare. Acesso em: 30 nov. 2013.
IMAGEM(NS):
Buscou-se informações para creditar a(s) imagem(ns), contudo, nada foi encontrado. Caso saiba, por gentileza, entrar em contato: [email protected]
Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

Publicações de Eudes Bezerra
Top