Aníbal Barca, o pesadelo da república romana

busto de aníbal barca
“Ele jamais pediu aos outros que fizessem o que ele mesmo não poderia fazer e não faria”. Cronista romano. Créditos: autoria desconhecida.

Sábio, respeitado e ousado, Aníbal Barca retumbou fama por transpor as perigosas cordilheiras dos Pirineus e dos Alpes com dezenas de milhares de soldados, cavalos e elefantes, impondo algumas das mais fragorosas derrotas militares da história de Roma. Aníbal Barca, chamado de “o Pai da Estratégia Militar”, foi considerado o maior inimigo da república romana e ainda hoje tem suas lições estudadas em academias militares.

Entre os admiráveis feitos de Aníbal conta o de que, possuindo ele um exército extraordinariamente grande no qual se amalgamavam homens de inúmeras procedências, exército que comandara em batalhas travadas em terras estrangeiras, jamais surgiu no seio deste qualquer dissensão, nem entre os soldados, nem contra o seu comando, nem na adversidade e tampouco na fortuna”. (MAQUIAVEL, 2012, p. 82).

Origem, infância e primeiros anos

Aníbal Barca nasceu em 247 a.c., em Cartago, no norte da África. Filho do habilidoso general cartaginês, Amílcar Barca, Aníbal aprendeu suas primeiras lições sobre a vida e a morte ainda no colo do pai, enquanto este comandava o exército cartaginês na Península Ibérica.

Pouco se encontrou referência acerca de fatos sobre a infância do comandante cartaginês. Entretanto, sabe-se que Aníbal assumiu o comando do exército cartaginês na Espanha em 221 a.c., aos 26 anos de idade, e logo consolidou o poderio de Cartago na região.

A Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.)

Quando a guerra contra Roma teve início, o jovem comandante reassumiu a responsabilidade de defender sua pátria, Cartago, e guerreou contra os romanos. “Aníbal era um homem de resoluta bravura, de habilidades técnicas e de visão estratégica, e inspirava grande lealdade em seu exército — um dos grandes capitães da história. Ele reconheceu que a maior força de Roma estava em seu controle da Itália, e urdiu um ousado plano para invasão, prevendo a condução de um exército por terra desde a Espanha, passando pelo sul da França e cruzando os Alpes”. (GILBERT, 2005, p. 28-29)

Em 218 a.c., Aníbal Barca executou seu ousado plano de ataque contra Roma: à frente de 50 mil soldados e 40 ou 50 elefantes de guerra, marchou sobre a Europa cruzando as gigantescas e perigosas cordilheiras dos Pirineus e dos Alpes — feitos que o imortalizaram. Além de neve, baixas temperaturas e deslizamentos no decorrer da travessia, tribos locais fustigaram com ataques relâmpagos e avalanche de rochas o exército de Cartago.

exército de aníbal barca cruzando alpes
“Ou nós encontramos um caminho, ou abrimos um” — respondeu Aníbal aos seus generais quando estes declararam ser impossível tal travessia dos Alpes. Créditos: Andrew Howat.

Aníbal arrebata vitória após vitória

Após as árduas travessias, aproximadamente 25 mil soldados, 6 mil cavaleiros e poucos elefantes sobreviveram, restando-lhe um efetivo abaixo do ideal para a conquista de Roma. Ainda assim, Aníbal prosseguiu e derrotou os romanos logo que desceu dos Alpes, na Batalha de Trébia.

A vitória de Cartago arrebatou apoio de cidades gaulesas para a marcha de Aníbal, mas o rigoroso inverno que se impunha refreou seu avanço. Neste inverno Barca perdeu um olho devido a uma infecção.

Em 217 a.c., enfrentou, derrotou e humilhou o exército romano de Caio Flamingo na Batalha do lago Trasimeno — derrota que deixou o caminho de Roma livre para Aníbal —. Entretanto, Aníbal não marchou para esta, preferindo se dirigir ao sul na tentativa de desfazer as alianças entre as cidades locais e a república romana — tal ação, por vezes, é criticada como um erro do comandante cartaginês.

No ano seguinte, em 216 a.c, utilizando elefantes de guerra com maestria, Aníbal Barca estabeleceu a maior vitória da história sobre Roma, ao rapidamente trucidar entre 60 e 70 mil soldados na Batalha de Canas, no sul da Itália. A vitória foi tão avassaladora que entrou para os livros de história e ainda hoje é estudada: uma ação de cerco clássico onde poucos venceram muitos e que o ímpeto vitorioso encontrou inspiração nas motivantes palavras do líder cartaginês.

elefantes de guerra em ação
“Com dimensões extraordinárias, peso contado em toneladas e pele grossa (ainda revestida por placas de metal), os elefantes de guerra fizeram a terra e os inimigos tremerem. Normalmente empregados para romper as linhas inimigas, os maiores seres terrestres da atualidade empreenderam avanço implacável.” (BEZERRA, 2013, s/p). Créditos: autoria desconhecida.

Antes da batalha, enquanto Barca fazia seus planos, percebeu que o exército romano possuía mais que o dobro do cartaginês. Diante de tamanho número, surgiu uma cena de diálogo interessante entre Aníbal e seus comandados:

Um de seus seguidores, Gisgo, (…) disse-lhe que os números do inimigo eram assustadores; Aníbal respondeu com semblante sério: ‘Há uma coisa, Gisgo, ainda mais assustadora, e que você não observou’. E, quando Gisgo perguntou o que era, ele respondeu que ‘em todos aqueles grandiosos números diante de nós, não há um homem chamado Gisgo’. Esse inesperado gracejo do general deles fez toda a companhia rir, e eles contaram isso a quem encontraram no caminho, o que causou uma risada geral entre todos”. (CAWTHORNE, 2010, p. 23-24)

Roma muda a postura

Após a tremenda derrota em Canas, Roma buscou evitar confrontos diretos, passando a monitorar os movimentos do inimigo e a fortalecer suas alianças, ao passo que sua marinha bloqueara o Mar Mediterrâneo. Tais ações lentamente deixaram o exército de Cartago isolado e enfraquecido no sul da Itália, fortalecendo as possibilidades de sucesso de um contra-ataque romano.

Para evitar a formação de tal cenário, em 207 a.c., Asdrúbal, irmão de Aníbal, tentou unificar forças cartaginesas fazendo o mesmo percurso feito por seu irmão, mas acabou derrotado e morto no rio Metauro.

O fim da guerra romano-cartaginesa: a Batalha de Zama

Em 204 a.c., o bloqueio de Roma no Mediterrâneo se converteu em um ataque à cidade de Cartago, obrigando o retorno de Barca à sua terra natal. Em Cartago, Aníbal foi traído pelos númidas massaesílios que se bandearam para o lado dos romanos. Em 202 a.c., Aníbal foi finalmente derrotado por Cipião, o Africano, na Batalha de Zama.

mapa da rota de aníbal barca
Rota feita por Barca durante a Segunda Guerra Púnica. Créditos: autoria desconhecida

Refúgio e suicídio

A partir de então, o velho comandante cartaginês passou a buscar refúgio em cidades diferentes — sempre fomentando a guerra contra Roma —. Fugiu de Éfeso em 190 a.c., mas acabou por ser encurralado em 183 a.c., na Libyssa.

Aos 64 anos de idade, Aníbal Barca, velho e cansado da perseguição romana, decidiu encerrar a vida se envenenando. Teria dito: “Libertemos os romanos dessa longa ansiedade, pois pensam que demora muito esperar pela morte de um homem velho”.

“Nenhum registro cartaginês das façanhas de Aníbal sobreviveu. Os únicos registros vêm dos romanos, que o admiravam tanto quanto o temiam, por suas habilidades táticas e disposição de partilhar as provações de seus homens. Como um cronista romano escreveu: ‘Ele jamais pediu aos outros que fizessem o que ele mesmo não poderia fazer e não faria.’” (CAWTHORNE, 2010, p. 23)


Curiosidade

Há referências que indicam que Cipião, o Africano, e Aníbal, mesmo estando em lados opostos, criaram um forte vínculo de respeito pouco antes da Batalha de Zama (202 a.c.), de modo que a fuga do cartaginês só teria sido possível graças à ajuda do romano. Quando Aníbal foi finalmente encurralado, encontrava-se sem o precioso auxílio de Cipião, que havia morrido pouco antes.

Segundo o historiador romano Políbio, em um dos encontros dos amigos-rivais, Cipião perguntou a Aníbal quem teriam sido os melhores generais de todos os tempos. Aníbal respondeu: ‘Em primeiro lugar, Alexandre. Em segundo, Pirro. Em terceiro, eu’. Cipião riu e perguntou: ‘E se eu não o tivesse derrotado?’ Aníbal então virou-se para ele e disse: ‘Eu não me colocaria em terceiro, mas sim em primeiro’.” (ONÇA, 2005, p. 45)


REFERÊNCIAS:
BEZERRA, Eudes. As temidas cargas de elefantes. Acesso em: 30 nov. 2013.
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. trad. Pedro Libânio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História: Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. trad. Glauco Dama. São Paulo: M. Books, 2010.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. trad. Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L&PM, 2012.
ONÇA, Fábio. Romanos X Cartagineses: Três guerras e um vencedor. Revista Aventuras na História: Coleção Grandes Guerras: Guerras da Antiguidade. São Paulo: Abril, n. 3, p. 40-45, jan., 2005.
TURCI, Érica. Segunda Guerra Púnica – Batalha de Cannae: Romanos sofrem sua maior derrota. Acesso em: 25 nov. 2013.
VILAR, Leandro. Aníbal Barca. Acesso em: 25 nov. 2013.
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Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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