Alésia, 52 a.c.: Júlio César conquista a Gália

Vercingétorix se tendendo a Júlio César
Vercingétorix, o líder gaulês, rende-se perante Júlio César após dois meses de cerco à cidade de Alésia. Pintura de Lionel Noël Royer, 1899. Obra constante no Museu Crozatier, em Le Puy-en-Velay, França.

A Batalha de Alésia, travada em 52 a.c., representou o último capítulo das Guerras Gálicas (58 a.c. – 52 a.c.), tendo como resultado a submissão definitiva da Gália ao império romano após a execução de uma das mais extraordinárias operações militares da História, o Grande Cerco de Júlio César.

Esse memorável cerco chegou ao fim pela derrota simultânea de dois exércitos por um único exército, não maior que um e incomparavelmente menor que o outro. Um exército que não era apenas o que sitiava, mas era ele mesmo sitiado, e tivera que manter em ordem quarenta quilômetros de trincheira, ao mesmo tempo, para atingir seu objetivo e se proteger da derrota. Apesar da escassez e da frequente imprecisão de detalhes fornecidos por César, e da consequente dificuldade em reconstruir alguns dos incidentes, o cerco de Alésia permanece como uma das mais extraordinárias operações registradas na história militar.” (FULLER, apud: CAWTHORNE, 2010, p. 34-35)

Antes de se encontrar miseravelmente encurralado na cidadela de Alésia, na atual França, o líder gaulês da tribo dos Arvenos, Vercingetórix, além de formidável guerreiro, mostrou-se um hábil político e por pouco não arrebatou a vitória para os gauleses.

Fomentando a expulsão dos romanos por toda a Gália (atuais França, Bélgica e Suíça), o líder arveno conseguiu a adesão de várias tribos celtas (estimam-se quarenta e cinco), que lhe elegeram comandante supremo dos exércitos da Gália.

A iniciativa gaulesa

Vercingetórix, que significa “o chefe dos grandes guerreiros”, deu início aos seus planos se rebelando implacavelmente contra sua antiga aliada (Roma), quando massacrou as legiões romanas ali estacionadas e se preparou para a resposta da Península Itálica.

Por ter sido treinado por centuriões (“oficiais romanos”), o comandante celta percebia a notável superioridade técnica e logística das legiões em campo aberto e empregou duas táticas, que acabaram por lograr grande êxito: a terra seca (ou arrasada) para negar víveres/suprimentos aos invasores; e ataques de guerrilha para fustigar, desmotivar e desmoralizar os mesmos.

Assim, os gauleses queimaram e destruíram cidades e vilas inteiras, incluindo depósitos de suprimentos e lavouras, que poderiam cair nas mãos dos romanos. Simultaneamente ao emprego da terra seca, Vercingetórix iniciou eficientes ataques de guerrilha com tropas de cavalaria leve, acabando por impor duríssimas perdas às legiões romanas ao ponto de fazê-las marchar de volta a Roma. Desta forma, Júlio César amargou sua primeira derrota.

Vercingetórix, entretanto, não deu prosseguimento à campanha, o que muitas vezes é apontado como o seu grande erro. A omissão – às vezes chamada de “apatia” – do líder gaulês costuma ser bastante criticada por pesquisadores, pois, em vez de desferir o golpe final contra o cônsul enfraquecido e desmoralizado, recuou aparentemente sem motivos relevantes à cidade murada de Alésia, não garantindo, assim, a vitória completa.

O Grande Cerco de César em Alésia

Júlio César, mesmo depois de sucessivos desgastes sofridos pela guerrilha gaulesa, inverteu o tabuleiro de guerra a seu favor e encurralou o exército celta, quando engenhosamente criou um formidável cerco com duas linhas de defesa na base da montanha onde se localizava a cidadela, sendo uma linha contra Alésia e outra protegendo sua retaguarda.

Em uma das mais bem sucedidas e impecáveis operações militares da história, Júlio César, no comando de 50 mil legionários e seus auxiliares germanos, aproveitou-se da madeira da região e rapidamente cercou todo o platô da cidade murada com uma linha de muros e torres estendida por 16 km. Percebendo que possíveis reforços das demais tribos gaulesas pudessem aparecer em socorro dos encurralados, a construção de uma segunda linha de defesa foi ordenada. Esta com aproximadamente 24 km atrás da primeira linha e voltada para o lado oposto ao das muralhas da cidade sitiada, permanecendo o exército romano entre as duas linhas.

A essa altura, a tática de Vercingetórix de aplicar a técnica da terra seca já havia se virado contra os próprios gauleses, que tinham queimado suas reservas. Assim, supôs o líder romano, bastaria resistir às pesadas investidas bárbaras que a fome eliminaria toda resistência dentro dos muros de Alésia.

Grande Cerco de César
Esquema que visa retratar o Grande Cerco de César. In.: A Batalha de Alésia (vide referências).

Acredita-se que o objetivo de César era realmente o de obter a rendição das tropas gaulesas pela imposição da fome, pois o cônsul romano acreditava que não dispunha de recursos, assim como condições e pessoal, para invadir e conquistar a cidade murada à força, já que concomitantemente também teria que realizar grandes esforços para resistir aos numerosos gauleses que pudessem aparecer em socorro de Alésia.

Em socorro da cidade desafortunada, ao menos outros 60 mil gauleses (algumas fontes citam incríveis 250 mil) marcharam para a escaramuça com os romanos, mas o cerco resistiu e determinou a derrota bárbara nas duas frentes.

De acordo com o próprio Júlio César:

Quando os gauleses estavam a certa distância das trincheiras, a chuva de dardos que eles descarregaram lhes rendeu alguma vantagem. Mas, quando se aproximaram, de repente, se viram perfurados pelos aguilhões ou caindo nos buracos, sendo então empalados, enquanto outros foram mortos por pesadas lanças do cerco, arremessadas a partir da bateria e das torres. Suas perdas eram intensas em todos os lugares, e, quando chegou o amanhecer, haviam falhado em penetrar nas defesas em todos os pontos”. (CÉSAR, apud: CAWTHORNE, 2010, p. 33-34)

Após dois meses de cerco, Vercingétorix se rendeu ao triunfo romano, sendo finalmente agrilhoado, um troféu que simboliza toda a Gália entregue a César. Ele teria sido levado à República Romana e lá supostamente decapitado na prisão de Mamertina, em 46 a.c..

Vercingetórix se rendendo César
Vercingetórix se rendendo a Júlio César, de Henri Paul Motte, 1886.
Estátua de Vercingetórix
Estátua de Vercingetórix criada por Viollet-le-Duc, em 1865. A construção, que visa orgulho ao buscar a retratação da resignação do líder gaulês diante da derrota, é repleta de anacronismos. Créditos: autoria desconhecida.

A derrota do exército gaulês para as legiões romanas gerou dois principais efeitos: o primeiro se refere ao triunfo Júlio César que ascendeu como um dos principais líderes romanos, sendo o mais famoso e emblemático de todos; o segundo é que à Gália foi imposto o domínio romano por quase quatrocentos anos consecutivos.

Curiosidades sobre o episódio

– Vercingétorix teria inspirado o conhecido personagem francês Astérix (de Astérix e Obelix Contra César). O certo é que séculos depois foi imortalizado como o primeiro herói francês.

– Pela escassez de comida, a antropofagia (canibalismo) se tornou prática comum nas últimas semanas do sítio.

montanha de Alésia, França
A montanha onde se localizava Alésia. Créditos: autoria desconhecida.
REFERÊNCIAS:
CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História: Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. trad. Glauco Dama. São Paulo: M. Books, 2010.
GELATI, Fernando; GUSMÃO JÚNIOR, Amiraldo Martiniano de. A Batalha de Alésia. Acesso em: 8 jan. 2015.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M.Books, 2005.
NEWARK, Tim. História Ilustrada da Guerra. trad. Carlos Matos. São Paulo: Publifolha, 2011.
LOPES, Reinaldo José. Júlio César. Revista Aventuras na História. São Paulo: Abril, n. 14, out., 2004.
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Autor: Eudes Bezerra

30 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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