Roma e a República Romana: TUDO que você precisa saber!

júlio césar e a república romana
Entender a República Romana é importantíssimo para compreender o próprio Império Romano (e o mundo). Expansão territorial, escravidão e conquistas da plebe… Créditos: o poderoso César, Júlio César / Jogo Total War: Rome II / Mike Simpson / Creative Assembly, lançamento: 2013.

Após depor seu último rei e acabar com o sistema do reinado, a cidade de Roma renasceu como República Romana, ampliando suas conquistas territoriais de modo tão avassalador, que, ao se tornar o Império Romano, grande parte de suas conquistas haviam sido realizadas ainda na fase republicana.

Roma nos legou ideais de liberdade e cidadania, assim como de exploração imperial, combinadas com um vocabulário de política moderna, desde ‘senadores’ a ‘ditadores’.

Emprestou-nos expressões como ‘presente de grego’, ‘pão e circo’ e ‘tocar violino enquanto Roma arde’ – até mesmo ‘onde há vida, há esperança’. E tem propiciado riso, espanto e horror, mais ou menos em proporções iguais.

Os gladiadores são sucesso de bilheteria hoje como foram naquela época. O grande poema épico de Virgílio sobre a fundação de Roma, a Eneida, quase certamente teve mais leitores no século XX do que no primeiro século da nossa era. (BEARD, 2017, p. 17-18)

AVISO: Essa matéria possui caráter didático como de costume, no entanto, trata-se de um conteúdo completo (mas resumido) e por vezes abordará o tópico de forma a contextualizá-lo, o que para algumas pessoas possa parecer um texto que se repete em determinados pontos, mas que ajudará a outras.

Caso deseje ir a um ponto específico, utilize o nosso sumário. Mas se recomenda a leitura de toda a matéria para um aprendizado mais aprofundado sobre a República Romana.

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Boa leitura!
camiseta de roma antiga SPQR

SUMÁRIO

1. O que foi a República Romana? Resumo
2. Tarquínio, o Soberbo, sofre impeachment do senado: fim da monarquia e início da república romana
⠀⠀2.1 O caso Lucrécia e Tarquínio Sexto
⠀⠀2.2 Transição da monarquia para a república
3. República romana
4. República romana e a expansão territorial: Roma vai à guerra!
⠀⠀4.1 Guerras Púnicas
⠀⠀⠀⠀4.1.1 Primeira Guerra Púnica (264 a 241 a.c.)
⠀⠀⠀⠀4.1.2 Segunda Guerra Púnica (218 a 201 a.c.)
⠀⠀⠀⠀4.1.3 Terceira Guerra Púnica (149 a 146 a.c.)
5. Escravidão na república romana
⠀⠀5.1 Como se tornava escravo em Roma? Na guerra e captura ou por dívidas
⠀⠀5.2 Onde e como os escravos trabalhavam
⠀⠀5.3 Escravos com privilégios? Depende…
⠀⠀5.4 Como os escravos eram libertos?
⠀⠀5.5 Revoltas de escravos, Guerras Servis e Espártaco
⠀⠀5.6 Consequências da grande escravidão em Roma
6. Conquistas da plebe na república romana (conflito das ordens)
⠀⠀6.1 Tribunos da plebe e a Assembleia da Plebe
⠀⠀6.2 Lei das 12 Tábuas (igualdade jurídica)
⠀⠀6.3 Lei Canuleia (casamento entre patrícios e plebeus)
⠀⠀6.4 Lei Licínia Sextia (direitos políticos e fim parcial da escravidão por dívidas)
⠀⠀6.5 Lei Poetélia Papíria (fim total da escravidão por dívidas)
⠀⠀6.6 Lei Hortênsia, o plebiscito (legislar)
7. Política na república romana
⠀⠀7.1 Senado, a principal instituição política da república romana
⠀⠀7.2 Magistrados importantes da republicana romana
⠀⠀⠀⠀7.2.1 Cônsules
⠀⠀⠀⠀7.2.2 Pretores
⠀⠀⠀⠀7.2.3 Censores
⠀⠀⠀⠀7.2.4 Questores
⠀⠀⠀⠀7.2.5 Edis
⠀⠀⠀⠀7.2.6 Ditador
8. Economia da república romana
9. Religião da república romana
10. Decadência da república romana: breves considerações
Referências

1. O QUE FOI A REPÚBLICA ROMANA? RESUMO

A república romana durou de 509 a 27 a.C. e compõe a fase intermediária da Roma Antiga, anteriormente como reino e posteriormente como império.

A fundação da República de Roma teria nascido com o famoso SPQR, que, em latim, significa Senatus PopulusQue Romanus (O Senado e o Povo de Roma).

Os principais acontecimentos república romana são:

  • Expansão territorial;
  • Mudanças significativas na economia (com cada vez mais mão de obra escrava);
  • Revoltas e conquistas da plebe;
  • Atenção especial às instituições e cargos públicos na gerência da cidade.

Embora pouco conhecido, um fato que geralmente surpreende é que foi durante o período republicano que a Roma Antiga teve a sua maior expansão territorial.

Acerca das instituições de governo, o Senado era a principal instituição polícia do período republicano, tendo sido auxiliada por assembleias e magistraturas (“funcionários públicos”).

território romano até o início da república
Território aproximado que mostra a evolução territorial de Roma desde a monarquia até o início da república. Após a queda da monarquia e o estabelecimento da república os domínios romanos se multiplicariam múltiplas vezes de modo acelerado. Créditos: Renato de carvalho Ferreira.

2. TARQUÍNIO, O SOBERBO, SOFRE IMPEACHMENT DO SENADO: FIM DA MONARQUIA E INÍCIO DA REPÚBLICA ROMANA

A República Romana durou de 509 a 27 a.C. e nasceu da aprovação pelo Senado do impeachment do rei Tarquínio, o Soberbo, um rei romano-etrusco que buscou governar Roma de forma autoritária e que tentava acabar com a influência das instituições da Monarquia Romana, como do próprio Senado, em prol dos interesses etruscos.

O impeachment não existia à época, pois se trata de um instituto jurídico moderno, mas, didaticamente, percebe-se bem o que houve com o último rei da então pequena Roma.

Tarquínio, de origem etrusca, buscou governar acima da lei e ampliar a influência e os poderes da Etrúria sobre Roma, que à época tinha no Senado a maioria de romanos e latinos (um dos mais importantes povos que se “juntaram” para formar Roma como a conhecemos).

2.1 O caso Lucrécia e Tarquínio Sexto

A gota d’água para a destituição do rei Tarquínio, assim como a expulsão de grande parte dos etruscos de Roma, teria sido o abuso sexual de Tarquínio Sexto (filho do Soberbo) contra Lucrécia.

Lucrécia, filha de um senador e bem vista por outros influentes senadores, teria sido estuprada e se suicidado logo então.

Esse evento, na historiografia tradicional, costuma servir de motivação final para o Senado romano destituir o rei etrusco, dar fim ao governo monárquico abrindo espaço para uma nova forma de governo, a república.

Suicídio de Lucrécia República Romana
O Suicídio de Lucrécia. Pintura: Jörg Breu / Obra constante no Alte Pinakothek (Antiga Pinacoteca), Munique, Alemanha.

2.2 Transição da monarquia para a república

Não se sabe ao certo como a transição foi realizada, pois os registros são escassos e não seria indicado nem prudente afirmar que a saída dos etruscos – conhecidos pelo seu valor na guerra – aconteceu de forma pacífica ou mesmo com muitos conflitos armados.

O que é possível afirmar é que os primeiros 250 anos de república tiveram profundas mudanças, como veremos no decorrer da matéria.

Ainda assim, após os graves eventos da deposição de Tarquínio, o receio de um reino governado por um novo tirano se tornou notável e se buscou criar mecanismos para evitar novos déspotas.

A figura do consulado foi instituída, onde dois cônsules, indicados pelo Senado e com mandato de 1 ano apenas, revezavam-se na administração do Estado e no comando das legiões romanas.

A formação da república romana não foi rápida nem pacífica, tratou-se de um longo processo onde diversas instituições foram criadas e aperfeiçoadas e o poder público acabou compartilhado através de revoltas (e conquistas) populares.

3. REPÚBLICA ROMANA

Por definição de termo, república significa res publica, o equivalente a coisa pública ou coisa do povo. Isto é, o governo do povo para o povo. Esta fase, inclusive, reflete um grande grau de influência sobre a atual sociedade ocidental.

A fase republicana, devido às crises supramencionadas durante a deposição de Tarquínio e o fim da monarquia, nasceu com pretensões e preocupações importantes, sendo estas caracterizadas pela grande modificação de postura do antigo e pequeno reino de Roma.

Dentre as grandes mudanças (e mais fáceis de se enxergar), podemos desde já citar a expansão territorial, o aumento gigantesco no número de escravos, que mudaria profundamente sua economia, e as várias lutas e conquistas sociais da plebe frente aos patrícios (aristocratas).

Os próximos tópicos são importantíssimos para a compreensão global do assunto aqui abordado.

legiões romanas no egito
As versáteis e disciplinadas legiões romanas no Egito Antigo. Créditos: Nick Gindraux / https://www.artstation.com/ngindraux

4. REPÚBLICA ROMANA E A EXPANSÃO TERRITORIAL: ROMA VAI À GUERRA!

 Uma das grandes contribuições dos etruscos aos romanos foi, sem dúvida, a arte da guerra, na qual a então “vila” de Roma teria recebido as suas primeiras muralhas e o treinamento de exército de qualidade.

Os povos das Etrúria, inclusive, teriam sido os primeiros a fundir o ferro, diferentemente dos demais povos que ainda utilizavam o cobre ou bronze em suas armas (além de utensílios para casa e agricultura). Isso conferia uma qualidade muito superior ao armamento romano.

Nesta fase Roma se expande demográfica e territorialmente de forma aceleradíssima, chegando à Hispânia (Espanha) depois de conquistar uma pequena porção de terra no sul da Gália (sul da França). Posteriormente, com Júlio César, toda a Gália seria anexada após a Batalha de Alésia.

Para o lado oriental, Roma foi ainda mais longe e chegou à Ásia Menor (atual Turquia) e Jerusalém, conquistando pelo caminho a Grécia, a Macedônia de Filipe V e alguns litorais do que viríamos conhecer como a Iugoslávia (durante o fim do século XX).

Ao sul, Roma atravessou o Mediterrâneo para conquistar boa parte do norte da África, incluindo o Egito Antigo, sendo neste continente onde também encontraria um inimigo que poderia ter encerrado sua existência: Cartago, a próspera e rica colônia fenícia do norte africano.

É durante o período republicano, inclusive, que Roma mais se expandiu (e não no império como geralmente imaginado).

As guerras entre Roma e Cartago – Guerras Púnicas – merecem destaque nesse estudo e mostram a reviravolta de poder ao longo do mar Mediterrâneo.

território da república romana
Território romano em 44 a.C., após as conquistas de Júlio César. Créditos: autoria desconhecida.

4.1 Guerras Púnicas

O grande destaque e entrave na expansão territorial da república romana veio sob o nome de Guerras Púnicas, ou Guerras Romano-Cartaginesas.

Guerras onde romanos e cartagineses se enfrentaram em uma série composta por 3 grandes conflitos entre os anos de 264 e 146 a.C. na qual os romanos levaram a melhor.

Resumidamente, Roma e Cartago aspiravam se tornar a grande potência do mar Mediterrâneo, o que representava vastas oportunidades de riqueza para quem controlasse as rotas comerciais.

Cartago era conhecida por sua formidável esquadra marítima e excelentes comerciantes. Os Romanos não eram hábeis navegadores, ficando mais à vontade em terra firme, mas eram obstinados o suficiente para atacar os cartagineses no mar.

O estopim da Guerra Púnica teria sido a tentativa de cerco cartaginês da cidade de Messina, na atual Sicília, que representava um valioso entreposto para o comércio de Cartago e que seria sua colônia, mas se encontrava ocupada pelo exército romano em um claro desafio à potência africana.

A presença de colônias e entrepostos de Cartago próximos de Roma era algo preocupante e o cerco à cidade de Messina teria feito até os romanos se prepararem para um eventual desembarque cartaginês que marcharia contra Roma, o que não se concretizou, mas a guerra estourou.

4.1.1 Primeira Guerra Púnica (264 a 241 a.C.)

 Essencialmente uma guerra marítima, mas iniciada nas terras da icônica Sicília (sul da Itália). Logo os combates se deram em mar.

Os romanos não possuíam tradição naval, diferentemente dos cartagineses que eram verdadeiros mestres no assunto.

Contudo, ao aprender com o inimigo e “plagiar” as embarcações cartaginesas/fenícias com a colaboração dos gregos, os romanos conseguiram uma marinha adequada.

Os romanos teriam utilizado plataformas em seus navios que seriam encaixadas nas embarcações inimigas, favorecendo o combate corpo a corpo, que era a principal arma do seu exército, e inviabilizando os choques de embarcações da tradição cartaginesa.

Roma saiu vitoriosa e Cartago perdeu suas colônias e entrepostos comerciais não só na Sicília, como nas ilhas circundantes da Itália, como as grandes Sardenha e Córsega.

4.1.2 Segunda Guerra Púnica (218 a 201 a.C.)

Provavelmente a mais famosa das guerras púnicas. Nessa guerra lutou o icônico comandante cartaginês Aníbal Barca, que antes mesmo de enfrentar os romanos já havia garantido seu lugar na história.

Barca entendeu a força romana vinha do controle da própria Península Itálica e lançou um ousado plano de invasão por terra, onde cerca de 50 mil soldados e 40 ou 50 elefantes de guerra o acompanharam.

Aníbal transpôs os Pirineus e a sua façanha de atravessar os Alpes com tamanho exército enfrentando temperaturas negativas e ataques de povos locais, para finalmente ver os campos em que as suas tropas venceriam os romanos no seu próprio território e na sua especialidade (combate corpo a corpo).

Entre as inúmeras batalhas vitoriosas de Aníbal, a de Canãs, em 216 a.C. entrou para a história e ainda hoje é ensinada nas academias militares.

Aníbal, mesmo em desvantagem, conseguiu liquidar as legiões romanas em uma perfeita manobra de cerco, onde aproximadamente 60 mil soldados de Roma foram rapidamente trucidados.

Ainda sobre Canãs, um número tão elevado de baixas em tão pouco tempo só seria alcançado mais de 2 mil anos depois – na Primeira Guerra Mundial, durante a Batalha do Somme em 1916, quando os alemães massacraram aproximadamente 67 mil britânicos no primeiro dia da batalha.

Apesar dos esforços de Aníbal, Cartago parecia ser governada por políticos fracos e sem o devido apoio o comandante cartaginês não conseguiu marchar sobre Roma. Aníbal tentou buscar apoio na próprio Península Itálica, mas sem êxito.

Roma, por sua vez, evitou enfrentar Aníbal em campo aberto e direcionou seus esforços para a própria Cartago, sendo a última e decisiva batalha a de Zama, em 202 a.C., onde Cipião, o Africano, venceu as tropas do velho e cansado Aníbal Barca.

Cipião e Aníbal, apesar de estarem em lados opostos, teriam se tornado grandes amigos e a amizade durado pelo resto da vida (com Cipião escondendo o paradeiro de Aníbal de Roma, com o qual teria se correspondido pelo restante de sua vida).

Cartago, mais uma vez derrotada, sofreu diversas sanções, perdeu a Península Ibérica e teve que pagar pesadas indenizações de guerra que nunca mais a deixariam crescer econômica e militarmente.

batalha de zama durante a república romana
A Batalha de Zama em 202 a.C. selou o destino de Cartago, fazendo de Roma a grande potência do mar Mediterrâneo. Créditos: Giulio Romano. / Museu Pushkin, Moscou, Rússia / The Bridgeman Art Library International.

4.1.3 Terceira Guerra Púnica (149 146 a.C.)

Na última Guerra Romano-Cartaginesa, que também foi a mais curta, Roma agiu de forma determina e implacável ao cercar a incrível cidade murada de Cartago sob o comando de Cipião Emiliano (“descendente” de Cipião Africano).

Todos os residentes de Cartago teriam ajudado nos esforços de guerra, visto que a guerra levada pelos romanos dessa vez era a de aniquilação e escravização.

Ao transpor as grandes muralhas cartaginesas, a expedição romana continuou implacável, representando o triunfo de Roma e a desgraça total de Cartago.

A cidade africana foi incendiada, reduzida a escombros. Os sobreviventes sofreram abusos, torturas e foram escravizados/vendidos. Roma havia se transformado definitivamente na potência hegemônica do Mediterrâneo.

Diz-se que até os campos agrícolas de Cartago foram salgados para que nada neles florescessem.

Próxima atualização: 04 de novembro/2020 (ou antes).

Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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