Adolf Eichmann sequestrado pelo Mossad

Adolf Eichmann e trem nazista
A incrível missão do Mossad que capturou em solo argentino um dos principais criadores da Solução Final da Alemanha Nazista, Adolf Eichmann. Créditos: [1] Trem em Bergen-Belsen: Museu Imperial da Guerra, Londres; [2] Adolf Eichmann com uniforme da SS: autoria desconhecida / Fotomontagem: Eudes Bezerra.
A incrível missão do serviço de inteligência de Israel (Mossad) capturou em solo argentino um dos principais criadores da Solução Final (Holocausto) da Alemanha Nazista, Adolf Eichmann. Eichmann comandou a logística da indústria da morte e embarcou milhões e milhões nos trens de Adolf Hitler para os campos de extermínio.

Findada a Segunda Guerra Mundial, Eichmann desapareceu. Depois de um tempo escondido, fugiu da Europa com ajuda do Vaticano. Viveu em liberdade por 15 anos, mas os Vingadores de Israel receberam pistas do paradeiro do antigo SS-Obersturmbannführer (tenente-coronel) da SS e não deixariam a chance de prendê-lo passar.

…E não deixaram.
camiseta de história

SUMÁRIO

1 Adolf Eichmann, o Holocausto e o Mossad
⠀⠀1.1 Adolf Eichmann
⠀⠀1.2 Holocausto
⠀⠀1.3 Mossad, o serviço de inteligência de Israel
2 Paradeiro e descoberta de Adolf Eichmann
⠀⠀2.1 O Vaticano ajudou Eichmann a fugir
⠀⠀⠀⠀2.1.1 Condessa Marguerite d’Andurain e o Djeilan
⠀⠀2.2 Eichmann localizado na Argentina
3 Confirmando o alvo
⠀⠀3.1 O governo argentino acolhia nazistas
⠀⠀3.2 Necessidade de confirmação da identidade
⠀⠀3.3 Confirmado: Ricardo Klement é Adolf Eichmann!
⠀⠀⠀⠀3.3.1 Lothar Hermann: mesmo cego não esqueceu o rosto do homem que destruiu a sua vida
⠀⠀⠀⠀3.1.2 O ramalhete de flores
⠀⠀⠀⠀3.1.3 A ex-amante de Eichmann
4 Operação Garibaldi: prender Adolf Eichmann
⠀⠀4.1 Metsada, o grupo de sequestro
⠀⠀4.2 O sequestro e os riscos da Operação Garibaldi
⠀⠀4.3 O plano do Mossad para tirar Adolf Eichmann da Argentina
⠀⠀4.4 Captura de Adolf Eichmann
⠀⠀4.5 O nazista no cativeiro
5 Julgamento de Adolf Eichmann em Israel
6 Indicação de filmes
Condolências
Referências

1 ADOLF EICHMANN, O HOLOCAUSTO E O MOSSAD

Para entendermos bem o assunto, faz-se necessário explicar o seu ator principal, Adolf Eichmann, e no que se encontrava envolvido durante o regime da Alemanha Nazi.

Também seria interessante entender um pouco sobre o obstinado serviço de inteligência de Israel, o Mossad, para entender a tenacidade de suas ações.

Caso já conheça a história de Eichmann, do Holocausto e do Mossad, só pular para o ponto 2 deste artigo!

1.1 Adolf Eichmann

Otto Adolf Eichmann, nascido em 19 de março de 1906 na cidade alemã de Solingen, entrou para as fileiras do Partido Nazista, o NSDAP, logo em 1932, aos 26 anos de idade, juntando-se rapidamente à Schutzstaffel (“Tropas de Proteção”, a temida SS).

Passou por uma grande quantidade de cargos e funções, subindo na hierarquia do Regime Nazi e se especializando nos chamados “assuntos judaicos”.

No início de 1942, após a Conferência de Wannsee, quando foram acertados os detalhes para o início da infame Solução Final (para a questão judaica), Adolf Eichmann tratou da logística para que milhões de prisioneiros e prisioneiras, incluindo crianças, embarcassem nos trens do Nazismo.

Noutras palavras, Eichmann, que à época cuidava da logística para concentrar os judeus em grandes guetos dentro de cidades estrangeiras ocupadas pela Alemanha Nazi, agora os prepararia para a morte certa e em escala industrial durante o chamado Holocausto (Shoah, para os judeus).

judeus húngaros em plataforma de trem
Judeus da Hungria sendo selecionados (para trabalho forçado ou para morte imediata) após o desembarque dos trens do Holocausto, maio ou junho de 1944, Auschwitz-Birkenau, Polônia. Créditos: autoria desconhecida.

1.2 Holocausto

Holocausto é como ficou conhecida a política de extermínio sistemático executada pelo III Reich (“Terceiro Império”) contra os judeus da Europa durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), onde cerca de 6 milhões, de uma população de 9 milhões, foi assassinada das mais diversas formas, destacando-se os brutais campos de concentração e as suas câmaras de gás.

Dos aproximadamente 6 milhões de judeus assassinados pelo Nazismo, 1 milhão teria sido de crianças, 2 milhões de mulheres e 3 milhões de homens, configurando o Holocausto como um dos mais perversos genocídios da história, onde Hitler cortava suprimentos de suas tropas em guerra, mas não o Zyklon-B (pesticida) das câmaras de gás.

Ainda que de forma não usual (e para fins didáticos), o Holocausto, por ser parte da chamada Solução Final, também poderia ser encarado como política geral contra diversos outros alvos, como homossexuais, prisioneiros políticos, eslavos (poloneses, ucranianos, soviéticos…), etc., destacando-se os ciganos (estes teriam sido sistematicamente mortos nas câmaras de gás como os judeus).

Fritz Klein dentro de vala com prisioneiros mortos em Bergen-Belsen
Vala comum de um dos últimos campos de concentração nazista a ser libertado, o de Bergen-Belsen, 1º de abril de 1945, Alemanha. Repare que em destaque dentro da vala se encontra Fritz Klein, um dos médicos responsáveis pelo campo nazista e que foi obrigado (com outros guardas) a enterrar as suas vítimas. Posteriormente Fritz Klein foi enforcado por crimes contra humanidade. Créditos: Museu Imperial da Guerra / Londres.

1.3 Mossad, o serviço de inteligência de Israel

Um dia após a criação do Estado de Israel (14 de maio de 1948), ocorreu a Primeira Guerra Árabe-Israelense (Guerra de Independência, para Israel), onde uma grande coalizão de países do Oriente Médio e da África liderada pelo Egito atacou Israel jurando exterminar o estado recém-criado.

Embora em gigantesca desvantagem, a nação judaica venceu a guerra de modo surpreendente e uma preocupação logo se evidenciou: completamente cercada por nações inimigas que declararam abertamente a sua destruição, Israel necessitava se precaver de forma inteligente e avançada.

Dentre as ações para proteção da nação, o Mossad foi criado. Fundado em dezembro de 1949 (data sem consenso historiográfico), o Mossad (“O Instituto”) nasceu basicamente da necessidade de Israel de se prevenir de seus inimigos árabes contemporâneos que sustentam abertamente a sua destruição.

Outra missão do Mossad e que ainda hoje desempenha é a caça aos carrascos nazistas, sendo o sequestro de Adolf Eichmann o caso responsável por tornar o Mossad conhecido (e temido) no mundo inteiro.

emblema do Mossad
Um dos lemas do Instituto: “Onde não há sábio conselho, a nação cai; mas na multidão de conselhos há segurança”. Escudo do Mossad, cuja sede fica na cidade de Tel Aviv. Créditos: Ronaldinho King.

2 PARADEIRO E DESCOBERTA DE ADOLF EICHMANN

Quando algumas pistas sobre um certo nazista influente surgiram no departamento de inteligência de Israel, olhos se arregalaram em meio a um silêncio absoluto…

Espantados, mal podiam acreditar que se tratava de Adolf Eichmann.

2.1 O Vaticano ajudou Eichmann a fugir

A primeira pista sobre o paradeiro de Eichmann surgiu quando o Mossad descobriu que a Santa Aliança, a inteligência do Vaticano, havia participado de uma rede internacional de colaboracionistas que deu fuga a diversos nazistas em uma das chamadas ratlines (planos de fuga de criminosos nazi-fascistas da Europa após o fim da guerra).

A Operação Convento (ou Corredor Vaticano), do Vaticano, consistia no transporte seguro de nazistas importantes da Europa para a América Latina, sobretudo Argentina e Brasil, e, talvez, fizesse parte de uma operação bem maior, a Odessa.

A Operação Odessa (“Organização de antigos membros da SS”) teria sido criada para dar vida nova a membros da Schutzstaffel (SS) que poderiam ser enforcados por seus crimes de guerra e contra a humanidade. Contudo, essa operação carece de comprovação de sua existência (e parece ser folclore para vender livro).

2.1.1 Condessa Marguerite d’Andurain e o Djeilan

Mais ou menos em 1950, a Santa Aliança conseguiu tirar Eichmann da Europa através de uma colaboracionista francesa que havia trabalhado para a inteligência do III Reich durante a guerra, a Condessa Marguerite d’Andurain.

Marguerite fazia viagens frequentes pelo Mediterrâneo em seu luxuoso iate, o Djeilan, e atravessou Eichmann da Europa até o Marrocos (até onde se sabe), de onde o ex-dirigente nazista teria partido rumo à América Latina.

Tudo só foi descoberto quando Jules Lemoine, um antigo tripulante do iate, relatou sobre um “nazista importante” com o nome falso de Ricardo Klement para inteligência norte-americana.

Na época as palavras de Jules foram registradas, mas ignoradas devido ao fato de envolver o sagrado Estado do Vaticano. Não se imaginava que o Vaticano pudesse estar emitindo documentos falsos e acobertando criminosos de crimes contra a humanidade avidamente procurados no mundo inteiro.

Mas anos depois, quando descoberta a Operação Convento pelo Mossad, as peças começaram a se encaixar e vários nomes importantes da hierarquia nazista começaram a surgir. Nomes que se encontravam ocultos debaixo das batinas do Vaticano.

2.2 Eichmann localizado na Argentina

Somente em 1957 o paradeiro de Eichmann seria finalmente revelado por um funcionário do próprio governo alemão. O funcionário era Fritz Bauer, um juiz judeu que a muito custo conseguiu escapar da Solução Final, mudando-se de país várias vezes.

Bauer foi um grande ativista na luta pela recompensação de vítimas no pós-guerra contra a Alemanha e uma figura chave na captura de Eichmann. Quando recebeu a informação do chefe da logística nazista, repassou-a imediatamente à inteligência israelita: Adolf Eichmann estava morando na Argentina!

Passaporte da Cruz Vermelha de Adolf Eichmann
Passaporte da Cruz Vermelha com o nome fictício de “Ricardo Klement” utilizado por Adolf Eichmann para entrar na Argentina em 14 de julho de 1950. Créditos: Museo Del Holocausto / Argentina.

3 CONFIRMANDO O ALVO

A informação passada por Fritz Bauer era quente, mas a decisão necessitava de certeza sobre o alvo. O governo argentino parecia saber da presença do seu tão “ilustre morador”, mas não desejava ser incomodado.

3.1 O governo argentino acolhia nazistas

Não se tem certeza do grau de envolvimento do governo da Argentina, mas é bem sabido que diversos membros do alto escalão nazista buscaram refúgio no país pela receptividade que o governo de Juan Domingo Perón já havia criado anos antes.

Um pedido formal de extradição à Argentina para Adolf Eichmann também estava fora de cogitação, porque demoraria bastante e muito provavelmente Eichmann iria se esconder (possivelmente fugindo para outro país). A única opção era sequestrá-lo e levá-lo à Israel.

3.2 Necessidade de confirmação da identidade

Com tamanha dificuldade em vista, o governo de Israel planejou com o máximo de cuidado o que seria feito. Um simples detalhe ou falta de evidência e a operação seria abortada imediatamente, evitando o fiasco da missão e uma grave crise diplomática entre Israel e a Argentina.

O Mossad, já na época, era vinculado diretamente ao primeiro-ministro de Israel e somente o ocupante deste cargo poderia autorizar a missão de entrar de modo secreto e totalmente ilegal em um país soberano (Argentina) para cometer o crime de sequestro contra Eichmann, um cidadão supostamente legal do país.

Duas equipes foram especialmente criadas para a questão: uma para trazer a confirmação do alvo de modo incontestável por meio de provas; e a segunda como a responsável pelo sequestro em si e que só seria acionada e enviada à América do Sul quando houvesse a confirmação da identidade pela primeira.

3.3 Confirmado: Ricardo Klement é Adolf Eichmann!

Não foi fácil. Adolf Eichmann era um homem atento e esperto, optando pela vida pacata e afastada dos grandes centros. Poucas pessoas faziam parte do seu fechado círculo de amizade e estrangeiros não eram bem-vindos.

Sua casa extremamente simples confundiu o Mossad. Sem energia e talvez sem água encanada (e até sem reboco de parede), a casa não parecia definitivamente a residência de um tenente-coronel das SS que estava acostumado ao luxo.

Entretanto, já na Argentina, a primeira equipe do Mossad saiu em busca de um homem sob a identidade Ricardo Klement que morava na rua Garibaldi, em San Fernando, a cerca de 30 km do centro de Buenos Aires e que trabalhava em uma fábrica de carros da empresa alemã Mercedes-Benz.
Próxima atualização: dia 10 de agosto de 2019.

Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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