Adolf Eichmann sequestrado pelo Mossad

Adolf Eichmann e trem nazista
A incrível missão do Mossad que capturou em solo argentino um dos principais criadores da Solução Final da Alemanha Nazista, Adolf Eichmann. Créditos: [1] Trem em Bergen-Belsen: Museu Imperial da Guerra, Londres; [2] Adolf Eichmann com uniforme da SS: autoria desconhecida / Fotomontagem: Eudes Bezerra.
A incrível missão do serviço de inteligência de Israel (Mossad) capturou em solo argentino um dos principais criadores da Solução Final (Holocausto) da Alemanha Nazista, Adolf Eichmann. Eichmann comandou a logística da indústria da morte e embarcou milhões e milhões nos trens de Adolf Hitler para os campos de extermínio.

Findada a Segunda Guerra Mundial, Eichmann desapareceu. Depois de um tempo escondido, fugiu da Europa com ajuda do Vaticano. Viveu em liberdade por 15 anos, mas os Vingadores de Israel receberam pistas do paradeiro do antigo SS-Obersturmbannführer (tenente-coronel) da SS e não deixariam a chance de prendê-lo passar.

…E não deixaram.
camiseta de história

SUMÁRIO

1 Adolf Eichmann, o Holocausto e o Mossad
⠀⠀1.1 Adolf Eichmann
⠀⠀1.2 Holocausto
⠀⠀1.3 Mossad, o serviço de inteligência de Israel
2 Paradeiro e descoberta de Adolf Eichmann
⠀⠀2.1 O Vaticano ajudou Eichmann a fugir
⠀⠀⠀⠀2.1.1 Condessa Marguerite d’Andurain e o Djeilan
⠀⠀2.2 Eichmann localizado na Argentina
3 Confirmando o alvo
⠀⠀3.1 O governo argentino acolhia nazistas
⠀⠀3.2 Necessidade de confirmação da identidade
⠀⠀3.3 Confirmado: Ricardo Klement é Adolf Eichmann!
⠀⠀⠀⠀3.3.1 Lothar Hermann: mesmo cego não esqueceu o rosto do homem que destruiu a sua vida
⠀⠀⠀⠀3.3.2 O ramalhete de flores
⠀⠀⠀⠀3.3.3 A ex-amante de Eichmann
4 Operação Garibaldi: prender Adolf Eichmann
⠀⠀4.1 Metsada, o grupo de sequestro
⠀⠀4.2 O sequestro e os riscos da Operação Garibaldi
⠀⠀4.3 O plano do Mossad para tirar Adolf Eichmann da Argentina
⠀⠀4.4 Captura de Adolf Eichmann
⠀⠀4.5 O nazista no cativeiro
5 Julgamento de Adolf Eichmann em Israel
6 Indicação de filmes
Condolências a Rafi Eitan
Referências

1 ADOLF EICHMANN, O HOLOCAUSTO E O MOSSAD

Para entendermos bem o assunto, faz-se necessário explicar o seu ator principal, Adolf Eichmann, e no que se encontrava envolvido durante o regime da Alemanha Nazi.

Também seria interessante entender um pouco sobre o obstinado serviço de inteligência de Israel, o Mossad, para entender a tenacidade de suas ações.

Caso já conheça a história de Eichmann, do Holocausto e do Mossad, só pular para o ponto 2 deste artigo!

1.1 Adolf Eichmann

Otto Adolf Eichmann, nascido em 19 de março de 1906 na cidade alemã de Solingen, entrou para as fileiras do Partido Nazista, o NSDAP, logo em 1932, aos 26 anos de idade, juntando-se rapidamente à Schutzstaffel (“Tropas de Proteção”, a temida SS).

Passou por uma grande quantidade de cargos e funções, subindo na hierarquia do Regime Nazi e se especializando nos chamados “assuntos judaicos”.

No início de 1942, após a Conferência de Wannsee, quando foram acertados os detalhes para o início da infame Solução Final (para a questão judaica), Adolf Eichmann tratou da logística para que milhões de prisioneiros e prisioneiras, incluindo crianças, embarcassem nos trens do Nazismo.

Noutras palavras, Eichmann, que à época cuidava da logística para concentrar os judeus em grandes guetos dentro de cidades estrangeiras ocupadas pela Alemanha Nazi, agora os prepararia para a morte certa e em escala industrial durante o chamado Holocausto (Shoah, para os judeus).

judeus húngaros em plataforma de trem
Judeus da Hungria sendo selecionados (para trabalho forçado ou para morte imediata) após o desembarque dos trens do Holocausto, maio ou junho de 1944, Auschwitz-Birkenau, Polônia. Créditos: autoria desconhecida.

1.2 Holocausto

Holocausto é como ficou conhecida a política de extermínio sistemático executada pelo III Reich (“Terceiro Império”) contra os judeus da Europa durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), onde cerca de 6 milhões, de uma população de 9 milhões, foi assassinada das mais diversas formas, destacando-se os brutais campos de concentração e as suas câmaras de gás.

Dos aproximadamente 6 milhões de judeus assassinados pelo Nazismo, 1 milhão teria sido de crianças, 2 milhões de mulheres e 3 milhões de homens, configurando o Holocausto como um dos mais perversos genocídios da história, onde Hitler cortava suprimentos de suas tropas em guerra, mas não o Zyklon-B (pesticida) das câmaras de gás.

Ainda que de forma não usual (e para fins didáticos), o Holocausto, por ser parte da chamada Solução Final, também poderia ser encarado como política geral contra diversos outros alvos, como homossexuais, prisioneiros políticos, eslavos (poloneses, ucranianos, soviéticos…), etc., destacando-se os ciganos (estes teriam sido sistematicamente mortos nas câmaras de gás como os judeus).

Fritz Klein dentro de vala com prisioneiros mortos em Bergen-Belsen
Vala comum de um dos últimos campos de concentração nazista a ser libertado, o de Bergen-Belsen, 1º de abril de 1945, Alemanha. Repare que em destaque dentro da vala se encontra Fritz Klein, um dos médicos responsáveis pelo campo nazista e que foi obrigado (com outros guardas) a enterrar as suas vítimas. Posteriormente Fritz Klein foi enforcado por crimes contra humanidade. Créditos: Museu Imperial da Guerra / Londres.

1.3 Mossad, o serviço de inteligência de Israel

Um dia após a criação do Estado de Israel (14 de maio de 1948), ocorreu a Primeira Guerra Árabe-Israelense (Guerra de Independência, para Israel), onde uma grande coalizão de países do Oriente Médio e da África liderada pelo Egito atacou Israel jurando exterminar o estado recém-criado.

Embora em gigantesca desvantagem, a nação judaica venceu a guerra de modo surpreendente e uma preocupação logo se evidenciou: completamente cercada por nações inimigas que declararam abertamente a sua destruição, Israel necessitava se precaver de forma inteligente e avançada.

Dentre as ações para proteção da nação, o Mossad foi criado. Fundado em dezembro de 1949 (data sem consenso historiográfico), o Mossad (“O Instituto”) nasceu basicamente da necessidade de Israel de se prevenir de seus inimigos árabes contemporâneos que sustentam abertamente a sua destruição.

Outra missão do Mossad e que ainda hoje desempenha é a caça aos carrascos nazistas, sendo o sequestro de Adolf Eichmann o caso responsável por tornar o Mossad conhecido (e temido) no mundo inteiro.

emblema do Mossad
Um dos lemas do Instituto: “Onde não há sábio conselho, a nação cai; mas na multidão de conselhos há segurança”. Escudo do Mossad, cuja sede fica na cidade de Tel Aviv. Créditos: Ronaldinho King.

2 PARADEIRO E DESCOBERTA DE ADOLF EICHMANN

Quando algumas pistas sobre um certo nazista influente surgiram no departamento de inteligência de Israel, olhos se arregalaram em meio a um silêncio absoluto…

Espantados, mal podiam acreditar que se tratava de Adolf Eichmann.

2.1 O Vaticano ajudou Eichmann a fugir

A primeira pista sobre o paradeiro de Eichmann surgiu quando o Mossad descobriu que a Santa Aliança, a inteligência do Vaticano, havia participado de uma rede internacional de colaboracionistas que deu fuga a diversos nazistas em uma das chamadas ratlines (planos de fuga de criminosos nazi-fascistas da Europa após o fim da guerra).

A Operação Convento (ou Corredor Vaticano), do Vaticano, consistia no transporte seguro de nazistas importantes da Europa para a América Latina, sobretudo Argentina e Brasil, e, talvez, fizesse parte de uma operação bem maior, a Odessa.

A Operação Odessa (“Organização de antigos membros da SS”) teria sido criada para dar vida nova a membros da Schutzstaffel (SS) que poderiam ser enforcados por seus crimes de guerra e contra a humanidade. Contudo, essa operação carece de comprovação de sua existência (e parece ser folclore para vender livro).

2.1.1 Condessa Marguerite d’Andurain e o Djeilan

Mais ou menos em 1950, a Santa Aliança conseguiu tirar Eichmann da Europa através de uma colaboracionista francesa que havia trabalhado para a inteligência do III Reich durante a guerra, a Condessa Marguerite d’Andurain.

Marguerite fazia viagens frequentes pelo Mediterrâneo em seu luxuoso iate, o Djeilan, e atravessou Eichmann da Europa até o Marrocos (até onde se sabe), de onde o ex-dirigente nazista teria partido rumo à América Latina.

Tudo só foi descoberto quando Jules Lemoine, um antigo tripulante do iate, relatou sobre um “nazista importante” com o nome falso de Ricardo Klement para inteligência norte-americana.

Na época as palavras de Jules foram registradas, mas ignoradas devido ao fato de envolver o sagrado Estado do Vaticano. Não se imaginava que o Vaticano pudesse estar emitindo documentos falsos e acobertando criminosos de crimes contra a humanidade avidamente procurados no mundo inteiro.

Mas anos depois, quando descoberta a Operação Convento pelo Mossad, as peças começaram a se encaixar e vários nomes importantes da hierarquia nazista começaram a surgir. Nomes que se encontravam ocultos debaixo das batinas do Vaticano.

2.2 Eichmann localizado na Argentina

Somente em 1957 o paradeiro de Eichmann seria finalmente revelado por um funcionário do próprio governo alemão. O funcionário era Fritz Bauer, um juiz judeu que a muito custo conseguiu escapar da Solução Final, mudando-se de país várias vezes.

Bauer foi um grande ativista na luta pela recompensação de vítimas no pós-guerra contra a Alemanha e uma figura chave na captura de Eichmann. Quando recebeu a informação do chefe da logística nazista, repassou-a imediatamente à inteligência israelita: Adolf Eichmann estava morando na Argentina!

Passaporte da Cruz Vermelha de Adolf Eichmann
Passaporte da Cruz Vermelha com o nome fictício de “Ricardo Klement” utilizado por Adolf Eichmann para entrar na Argentina em 14 de julho de 1950. Créditos: Museo Del Holocausto / Argentina.

3 CONFIRMANDO O ALVO

A informação passada por Fritz Bauer era quente, mas a decisão necessitava de certeza sobre o alvo. O governo argentino parecia saber da presença do seu tão “ilustre morador”, mas não desejava ser incomodado.

3.1 O governo argentino acolhia nazistas

Não se tem certeza do grau de envolvimento do governo da Argentina, mas é bem sabido que diversos membros do alto escalão nazista buscaram refúgio no país pela receptividade que o governo de Juan Domingo Perón já havia criado anos antes.

Um pedido formal de extradição à Argentina para Adolf Eichmann também estava fora de cogitação, porque demoraria bastante e muito provavelmente Eichmann iria se esconder (possivelmente fugindo para outro país). A única opção era sequestrá-lo e levá-lo à Israel.

3.2 Necessidade de confirmação da identidade

Com tamanha dificuldade em vista, o governo de Israel planejou com o máximo de cuidado o que seria feito. Um simples detalhe ou falta de evidência e a operação seria abortada imediatamente, evitando o fiasco da missão e uma grave crise diplomática entre Israel e a Argentina.

O Mossad, já na época, era vinculado diretamente ao primeiro-ministro de Israel e somente o ocupante deste cargo poderia autorizar a missão de entrar de modo secreto e totalmente ilegal em um país soberano (Argentina) para cometer o crime de sequestro contra Eichmann, um cidadão supostamente legal do país.

Duas equipes foram especialmente criadas para a questão: uma para trazer a confirmação do alvo de modo incontestável por meio de provas; e a segunda como a responsável pelo sequestro em si e que só seria acionada e enviada à América do Sul quando houvesse a confirmação da identidade pela primeira.

3.3 Confirmado: Ricardo Klement é Adolf Eichmann!

Não foi fácil. Adolf Eichmann era um homem atento e esperto, optando pela vida pacata e afastada dos grandes centros. Poucas pessoas faziam parte do seu fechado círculo de amizade e estrangeiros não eram bem-vindos.

Sua casa extremamente simples confundiu o Mossad. Sem energia e talvez sem água encanada (e até sem reboco de parede), a casa não parecia definitivamente a residência de um tenente-coronel das SS que estava acostumado ao luxo.

Entretanto, já na Argentina, a primeira equipe do Mossad saiu em busca de um homem sob a identidade Ricardo Klement que morava na rua Garibaldi, em San Fernando, a cerca de 30 km do centro de Buenos Aires e que trabalhava em uma fábrica de carros da empresa alemã Mercedes-Benz.

Vista frontal de Auschwitz-Bikernau
O “Portão da Morte” de Auschwitz II (Birkenau), onde mais de um milhão de pessoas foi assassinada. Créditos: Michel Zacharz AKA Grippenn.

3.3.1 Lothar Hermann: mesmo cego não esqueceu o rosto do homem que destruiu a sua vida

Lothar Hermann foi um judeu que ficou cego no campo de concentração de Dachau, na Alemanha, onde conheceu Adolf Eichmann. Foi Hermann que, mesmo cego, conseguiu reconhecer e desmascarar a falsa identidade de dirigente, alertando o juiz Fritz Bauer que procurava criminosos nazistas incansavelmente.

Lothar Hermann era alemão e morava na Argentina como Adolf Eichmann e o destino quis que os dois mais uma vez estivessem próximos: a filha de Hermann, Sílvia, conheceu um jovem alemão de 25 anos que das duas, uma: ou teve um breve namoro ou algo próximo de uma amizade sincera.

Contudo, o jovem era Nicolas Eichmann, um dos filhos de Otto Adolf Eichmann. Em um dos passeios do jovem casal alemão, a jovem ficou horrorizada quando levada à reunião de simpatizantes do Nazismo (Nicolas desconhecia a origem judaica de Sílvia que procurava se reservar quanto a isso).

Sílvia contou o que viu ao seu pai, incluindo a descrição do pai de Nicolas, que imediatamente reconheceu a face do homem que era responsável pelos assuntos judaicos na época do Terceiro Reich.

Através de Lothar e Sílvia Hermann, o Mossad conseguiu muitas informações, como a localização exata de onde o criminoso de guerra sob o disfarce de Ricardo Klement vivia livremente e a sua rotina de trabalho.

Curiosamente, muitas vítimas do Nazismo que conheceram Adolf Eichmann pessoalmente não foram capazes de reconhecê-lo quando mostradas as suas fotos de vida na Argentina. Mas, para isso, a sensibilidade de um velho cego que viveu os horrores do Nazismo bastou.

3.3.2 O Ramalhete de flores

Outro fato importante que chamou atenção do Mossad foi um simples ramalhete de flores comprado pelos filhos de Ricardo Klement. As flores foram compradas no dia 21 de março para o aniversário de casamento dos pais, Ricardo e Vera.

Entretanto, segundo os documentos da família Klement, a data de casamento era 11 de agosto de 1958 e não 11 de março. Quem havia se casado dia 11 de março de 1935 era Adolf Eichmann.

Essa pista só realçou ainda mais a certeza que os agentes do Mossad tinham sobre a verdadeira identidade de Ricardo Klement. Mas só com a autorização do primeiro-ministro — David Ben-Gurion — a operação de captura poderia ser iniciada.

Como político, Ben-Gurion sabia muito bem que um fracasso poderia abalar drasticamente a imagem de Israel não só na Argentina, mas diante do mundo todo visto que o Estado de Israel havia sido fundado há poucos anos e não poderia iniciar sua diplomacia já com crimes contra soberania alheia.

3.3.3 A ex-amante de Eichmann

A terceira comprovação veio da antiga amante de Adolf Eichmann que seguiu o amado até a Argentina, onde não mais teria sido correspondida.

Não encontramos o nome dela, mas é sabido que teria ido trabalhar na mesma fábrica que Eichmann, a da Mercedes-Benz.

Quando essa terceira grande prova da identidade foi juntada aos arquivos do Mossad em Israel, não havia mais dúvida: Ricardo Klement era Otto Adolf Eichmann! David Ben-Gurion então deu o sinal verdade para que a segunda equipe entrasse em ação.

Carta de perdão de Eichmann
Adolf Eichmann escreveu uma carta ao Presidente de Israel, onde pediu que a sua vida fosse perdoada. De acordo com o documento, Eichmann se julgava inocente e que não tinha poder suficiente para ordenar a morte em massa dos judeus, seguindo apenas ordens. Créditos: Impressa Nacional de Israel.

4 OPERAÇÃO GARIBALDI: PRENDER ADOLF EICHMANN

A partir do dia 1º de maio de 1960 vários agentes do grupo de captura (Metsada) começaram a chegar em voos separados à capital argentina, Buenos Aires. Eles se uniram aos já em solo portenho e aos informantes.

4.1 Metsada, o grupo de sequestro

O grupo de captura era liderado por Eitan Rafi, um veterano da Guerra de Independência de Israel famoso por sua experiência em combate. A operação era dirigida e supervisionada por Isser Harel, o próprio diretor do Mossad.

O primeiro passo dos agentes do Mossad foi confirmar que Eichmann ainda se encontrava no mesmo endereço. O segundo passo foi mapear a sua rotina, procurando o momento mais adequado para a captura do nazista.

A estrutura do Metsada (braço operacional do Mossad) montada em Buenos Aires contava com sete casas e 12 carros (carros do mesmo modelo e com a mesma cor), tudo alugado.

Placas de carros foram clonadas e a principal construção, chamada de Tira (palácio), foi o local onde Eichmann ficou mantido enquanto aguardava transporte para Israel.

4.2 O sequestro e os riscos da Operação Garibaldi

O plano de sequestro era bem simples, embora extremamente arriscado e inédito para o serviço de inteligência de Israel: o plano consistia no sequestro e na manutenção de Adolf Eichmann em cativeiro até a sua remoção direta para Israel.

A operação era extremamente arriscada. Os agentes do Mossad não necessitavam de armas e a chance de serem presos era grande. Tudo deveria ocorrer de acordo com o planejamento para evitar danos colaterais.

Se pegos, Israel negaria conhecimento da operação e os agentes secretos muito provavelmente apodreceriam na prisão, amargando a possível liberdade de Adolf Eichmann.

4.3 O plano do Mossad para tirar Adolf Eichmann da Argentina

A remoção teria de ser feita por um avião que voasse diretamente para Israel, sendo a companhia nacional israelense El Al escolhida para isso. A companhia aérea não operava voos para a Argentina, mas o destino favoreceu mais uma vez o Mossad.

Ocorre que o Estado de Israel foi um dos tantos países convidados a participar da comemoração de 150 anos da independência da Argentina, durante a chamada Revolução de Maio.

Com isso, o voo direto da Al El era justificado pela presença do Ministro das Relações Exteriores de Israel, Abba Eban, que participou das comemorações argentinas.

O avião foi modificado e no seu compartimento de carga foi criada uma cela especialmente para o ex-dirigente nazista.

4.4 Captura de Adolf Eichmann

No dia 11 de maio de 1960, precisamente às 20h10, Adolf Eichmann foi finalmente capturado pelo Metsada. O alemão foi capturado e jogado dentro de um carro próximo da própria residência.

O local escolhido para o sequestro foi a rua Garibaldi, a rua que Eichmann morava. Os agentes do Mossad esperaram o nazista retornar do trabalho como habitualmente fazia todos os dias.

Adolf Eichmann foi o único a descer do ônibus da linha 202. Capturado, logo foi levado ao cativeiro onde permaneceu por vários dias, praticamente em silêncio, e onde a sua identidade foi confirmada definitivamente.

4.5 O nazista no cativeiro

Um fato que teria deixado os agentes do Mossad intrigados e até ofendidos era o aparentemente não arrependimento do sequestrado. Pelo contrário, Otto Adolf Eichmann parecia sentir orgulho do que havia feito e o seu racismo era latente.

Interessante transcrever o relato de um dos agentes do Mossad, Peter Malkin, que não se aguentou e quebrou o silêncio conversando com Eichmann. O nazista deveria permanecer isolado, exceto pelo contato direto com o interrogador do grupo.

Peter Malkin disse sobre Adolf Eichmann:

Para ele, Hitler era um deus. Disse-me que Hitler havia mudado a vida dos alemães, que lhes tinha devolvido a honra. Mas não gostava de Himmler nem de outros superiores hierárquicos. Contou que esses tinham escapado sem terminar seu trabalho.

Pelo contrário, ele [Eichmann] se vangloriava de ter ficado até o último momento da guerra. Para ele, sua tarefa era o mais importante. (…)”. (FRATTINI, 2014, p. 32, grifo e acréscimo nossos)

Adolf Eichmann no pátio da prisão israelense
Criminoso de guerra nazista Adolf Eichman andando no pátio de sua cela na prisão de Ayalon , Ramallah, 21 de abril de 1961. Créditos: Impressa Nacional de Israel.

5 JULGAMENTO DE ADOLF EICHMANN EM ISRAEL

Otto Adolf Eichmann foi julgado e condenado em Israel entre os dias 2 de abril e 14 de agosto de 1961, sendo condenado à pena de morte.

Durante o seu julgamento alegou diversas vezes que era apenas um funcionário burocrático cumprindo seu dever, mas todos sabiam que se tratava de mais um destacado e perverso líder da criminosa SS.

Em nenhum momento teria ao menos demostrado arrependimento, apesar de ter transmitido uma imagem de mero burocrata, o que para alguns comprovou a grande frieza do réu que havia sido condenado à pena capital.

Na noite do dia 31 de maio de 1962, Otto Adolf Eichmann foi levado para onde seria enforcado, acabando por ser executado nas primeiras horas do dia 1º de junho de 1962 na prisão de Ramallah.

O cadáver foi cremado em um forno crematório construído especialmente para Eichmann. Dois guardas fizeram todo o procedimento, juntando as cinzas.

Por ordem expressa de David Ben-Gurion, o forno foi destruído e as cinzas de Adolf Eichmann foram jogadas ao mar em uma ampla área para que não se tornasse um local de adoração nazista e que não restasse vestígio do criminoso nazista que embarcou milhões de inocentes para a morte durante o regime de terror de Adolf Hitler.

Eichman no tribunal
Adolf Eichmann no tribunal de Israel. Créditos: Getty Images.

6 INDICAÇÃO DE FILMES

Operação Final, de Chris Weitz (2018). Disponível na Netflix, o filme aborda a descoberta e captura de Eichmann.

Hannah Arendt – Ideias Que Chocaram o Mundo, de Margarethe Von Trotta (2013). O filme aborda a filósofa alemã e judia que acompanhou o julgamento de Adolf Eichmann e chocou o mundo com as suas palavras.

CONDOLÊNCIAS A RAFI EITAN

Nossas condolências aos familiares e amigos de Rafi Eitan que, coincidentemente, faleceu durante a criação dessa matéria sendo uma triste surpresa. Eitan faleceu em 23 de março de 2019.

REFERÊNCIA(S):

ALTARES. Guillermo. Por que falamos de seis milhões de mortos no Holocausto?. Acesso em: 23 de mar. 2019.
DIOGO, José-Manuel. As grandes agências secretas: os segredos, os êxitos e os fracassos dos serviços secretos que marcaram a história. São Paulo: Via Leitura, 2013.
FRATTINI, Eric. Mossad – os carrascos do Kidon: a história do temível grupo de operações especiais de Israel. adp. Alessandra Miranda de Sá. São Paulo: Seoman, 2014.
GESSAT, Rachel. 1961: Julgamento de Adolf Eichmann. Acesso em: 28 mar. 2019.
LEUZINGER, Bruno. A fulminante prisão de Adolf Eichmann. Acesso em: 22 mar. 2019.
MASSON, Philippe. A Segunda Guerra Mundial: História e Estratégias. trad. Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2011.
SACKS, Sheila. O alemão que localizou Eichmann. Acesso em: 25 mar. 2019.
SNYDER, Timothy. Terras de Sangue – A Europa entre Hitler e Stalin. trad. Mauro de Abreu Pinheiro. Rio de Janeiro: Record, 2012.
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Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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