Cleópatra, a última rainha do Egito Antigo

modelo interpretando Cleópatra
A rainha Cleópatra interpretada por uma bela modelo no seu patrão clássico. A insistência em mostrar Cleópatra como uma mulher de beleza quase mística apagou seu verdadeiro e irresistível encanto: a inteligência. Ainda, por sempre ser representada como uma mulher branca num país africano, acaba por gerar críticas uma vez que se desconhece a sua origem materna. Créditos: autoria desconhecida.

Enigmática, sensual, inteligente e possivelmente não bela, essa é Cleópatra, a última rainha do Egito Antigo. Faraó de origem grega, amou ardentemente o místico Egito, conquistou os dois homens mais poderosos de sua época, Júlio César e Marco Antônio, tornou o Egito rico, celebrou a paz e fez a guerra. Cleópatra, sem dúvida, é uma das personalidades mais cativantes e misteriosas da História.

Cleópatra reúne todos os ingredientes de uma personagem de ficção, mas é real. Foi rainha de um país exótico e místico, mulher sensual, mãe, deusa e guerreira, tudo ao mesmo tempo. Derrotada na guerra, protagonizou o gran finale — deixou-se matar por uma cobra venenosa. Tudo isso explica por que a última rainha do Egito provoca tanto interesse dois mil anos depois de sua morte e faz dela uma personagem maior do que um pontinho na linha de tempo da humanidade. (SALVADOR, 2011, p. 13)

ÍNDICE

1 Plutarco, Cássio Dio e Shakespeare sobre Cleópatra
2 Origem, infância e primeiros anos
⠀⠀2.1 Alexandre, o Grande, e a dinastia dos Ptolomeus
⠀⠀2.2 A desconhecida origem materna
⠀⠀2.3 Cleópatra e a sua educação refinada
⠀⠀⠀⠀⠀2.3.1 Alexandria e tutores
⠀⠀⠀⠀⠀2.3.2 A corte Ptolomaica
3 Beleza de Cleópatra
4 Cleópatra chega ao poder em grande dificuldade
⠀⠀4.1 Difícil reconhecimento e incesto real
⠀⠀4.2 O Egito endividado com Roma e as conspirações
⠀⠀4.3 Cleópatra deposta do poder
5 Cleópatra e Júlio César
⠀⠀5.1 A chegada de Júlio César ao Egito
⠀⠀5.2 O assassinato: César recebe a cabeça de Pompeu
⠀⠀5.3 Cleópatra surpreende César
⠀⠀5.4 Interesses conciliados e a paz temporária
⠀⠀5.5 A Guerra Alexandrina
⠀⠀5.6 Paz à Cleópatra, paz ao Egito
6 Assassinato de Júlio César e a vingança pela espada
⠀⠀6.1 A vingança na Batalha de Filipos
⠀⠀6.2 A crise romana
7 Cleópatra e Marco Antônio: política, amor e luxo
⠀⠀7.1 Cleópatra e Marco Antônio se conhecem
⠀⠀7.2 As intrigas se iniciam em Roma
⠀⠀7.3 Agora a gente não se separa mais
⠀⠀7.4 As Doações de Alexandria
8 Roma declara guerra ao Egito
⠀⠀8.1 O fiasco na decisiva Batalha do Áccio
⠀⠀8.2 Ruína e vergonha
9 Desolação e desconfiança mútua
10 O destino de Marco Antônio e dos filhos de Cleópatra
⠀⠀10.1 O suicídio de Marco Antônio
⠀⠀10.2 Os filhos e a filha de Cleópatra
11 Cleópatra vencida
12 O suicídio de Cleópatra
⠀⠀12.1 Plutarco, Cássio Dio e Shakespeare
⠀⠀12.2 Evidências científicas e o túmulo desconhecido
⠀⠀12.3 Cleópatra se deixa picar pela naja
Referências

1 PLUTARCO, CÁSSIO DIO E SHAKESPEARE SOBRE CLEÓPATRA

Muito do que costumeiramente se diz acerca da mais famosa rainha do Egito é mito ou meia verdade. Muito do que se diz é fruto de invenções de poetas e dramaturgos, como William Shakespeare, que, desejando ou não, acabaram por criar uma imagem bem diferente da desconhecida realidade.

No mais, sobre Cleópatra, em grande parte, faz-se necessário tomar bastante cuidado com as alegações, visto que diversos fatos de sua vida são meras especulações. Mas não se pode negar, de modo algum, a sua grande importância histórica.

A última representante dos faraós viveu em um mundo dominado por Roma e muito do que se sabe a respeito de sua vida e morte decorre de historiadores romanos, onde se destacam Plutarco e Cássio Dio (e que não viveram durante o mesmo período da rainha egípcia).

Também se faz importante frisar que em alguns momentos esta biografia pode parecer ter esquecido seu objeto principal: Cleópatra. Existem lacunas temporais em que simplesmente não se tem registro conhecido sobre a vida no Egito Antigo, ocasião em que muito se falará sobre Roma e seus principais atores.

2 ORIGEM, INFÂNCIA E PRIMEIROS ANOS

Pouquíssimo se sabe sobre a origem, infância e até juventude da última e eterna rainha do Egito Antigo. Cleópatra era filha do rei Ptolomeu XII e teria nascido em 12 de agosto de 69 a.C., adquirindo uma educação notável e refinada (até mesmo para o padrão dos regentes do Egito).

Sua data de nascimento decorre da indicação do filósofo e historiador grego, Plutarco, e não é certa; costuma-se apontá-la contando a suposta idade que a monarca tinha quando morreu (sua morte é um dos grandes mistérios ainda por ser desvendado).

[…] a Cleópatra histórica não só ofuscou e desorientou seus amantes, mas também ofuscou e desorientou arqueólogos, egiptólogos, historiadores, artistas, escritores e cineastas. Cada época e cada cultura parecem projetar sua própria Cleópatra, visualizando-a de uma maneira nova. […] Cada “tomada” de Cleópatra revela não só uma faceta da mesma, mas também uma faceta de quem a representa e, mais importante, revela a natureza dos prismas através dos quais Cleópatra foi vista e imaginada. (SHOHAT, apud: SALVADOR, 2011, p. 37)

2.1 Alexandre, o Grande, e a dinastia dos Ptolomeus

A origem da família de Cleópatra no Egito Antigo remonta a época de Alexandre, o Grande, quando o segundo maior conquistador de terras da história executou a sua extraordinária campanha militar. Alexandre conquistou o Egito, fundando a opulenta Alexandria.

mosaico de alexandre em issus
No século I a.C., as Duas Terras [Baixo e Alto Egito] subsistem num mundo mediterrâneo dominado por Roma. O Egito foi ocupado pelos persas de 343 a 322 a.C., data em que é libertado deste jugo por Alexandre da Macedônia após a vitória em Issos sobre Dario III. Chamado em socorro pelos egípcios, Alexandre, o Grande, é coroado faraó, segundo o ritual tradicional, no oásis de Siwa. Organiza a administração do território e funda Alexandria, nova capital do Egito, porém capital grega. (JACQ, 2017, p. 379, acréscimo nosso). Créditos: Mosaico da Batalha de Issos entre Alexandre, o Grande, e Dario III da Pérsia / Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Itália.
Após a morte de Alexandre, em 323 a.C., na Babilônia, seu imenso império foi fragmentado entre seus generais, tendo Ptolomeu XII ficado com o Egito. Ptolomeu deu início a um período de expansão territorial que séculos depois seduziria Cleópatra, que, ainda criança, teria ficado encantada com a origem de seus antepassados que ampliaram significativamente o Egito ao longo do mar Mediterrâneo.

Cleópatra também parecia nutrir orgulho e desejo sobre os feitos realizados por Alexandre, o Grande, e teria sonhado unir o Ocidente e o Oriente novamente como fez o famoso conquistador no comando de suas mortíferas falanges macedônicas três séculos antes.

2.2 A desconhecida origem materna

Outra lacuna histórica, possivelmente ainda de maior importância que as anteriores, reside sobre a origem materna de Cleópatra, recaindo sobre quem seria sua mãe, pois não existe consenso científico ora sendo apontada como de origem europeia (grega) ora como de origem africana (egípcia).

A questão materna se mostra inquietante e impacta diretamente todo o imaginário que se criou em torno das feições da soberana do Egito, que ainda hoje — mais de 2 mil anos após sua morte — é apontada como um exemplo quase místico de beleza e sedução.

De acordo com a vertente majoritária, a mãe de Cleópatra seria de origem greco-macedônica, como costumeiramente acontecia. Mas isso não encontra comprovação científica, visto que era um costume, não uma regra (e que ainda sim poderia ser quebrada, como habitualmente ocorria).

2.3 Cleópatra e a sua educação refinada

Igualmente controversa e repleta de hipóteses é a educação que Cleópatra recebeu. Contudo, neste ponto, é possível apontá-la como elevadíssima para os padrões da época e por inúmeros motivos, tamanho era o grau de instrução que a monarca impunha.

Cleópatra no Templo de Ísis
“Era inteligente, culta e charmosa: falava pelo menos oito línguas, inclusive algumas bárbaras. Entre os ptolomeus, foi a única a falar egípcio – a língua falada na corte, assim como a dos documentos oficiais, era o grego. Cleópatra também era versada em filosofia, alquimia e matemática. Conhecia música e poesia.” (SALVADOR, 2011, p. 37). Créditos: A rainha egípcia no Templo de Ísis, na ilha de Philas, de Frederick Arthur Brigdman.

Na época em que a monarca viveu, as mulheres egípcias gozavam de liberdades bem maiores que as suas contemporâneas gregas e romanas, podendo adquirir e administrar bens, fazendo uso direto de propriedades e dinheiro. Também decidiam sobre casamento e divórcio, mantendo os filhos unicamente sob sua guarda, caso assim quisessem. (SALVADOR, 2011).

Porém, esses fatos por si próprios não justificariam a instrução da rainha. Segundo as referências, ao menos duas hipóteses — que até podem ser uma só — são completamente plausíveis para se jogar alguma luz sobre o conhecimento adquirido por Cleópatra.

2.3.1 Alexandria e tutores

Primeiramente, a jovem que viria a se tornar rainha com apenas 20 anos de idade teria recebido sua educação através de tutores ilustres (fato corriqueiro à época). Ptolomeu XII, pai de Cleópatra, parecia ter planos brilhantes para a filha e fomentado seus estudos e vontades.

Também é plenamente possível que tenha sido fortemente influenciada pelo clima intelectual da cidade de Alexandria, um centro cultural que atraía estudiosos, como filósofos, historiadores e astrônomos, de todas as direções do mundo então conhecido.

2.3.2 A corte Ptolomaica

Uma constatação que pode ter aguçado o espírito sedutor e dominador de Cleópatra é a vivência na corte ptolomaica. Entre conspirações, intrigas, incestos e assassinatos, teria vivido — e sobrevivido — para reger o Egito com sabedoria e astúcia.

Um dos grandes “instrutores” de Cleópatra teria sido, de modo indireto, seu próprio pai. Ptolomeu XII era filho bastardo e teria feito de tudo para manter-se no poder. Essa convivência, recheada de disputas até fatais, seria observada atentamente pela jovem Cleópatra e composto parte do seu íntimo pelo restante da sua vida. Cleópatra agora sabia como era a política de seu tempo.

3. BELEZA DE CLEÓPATRA

Possivelmente o assunto mais abordado quando se trata de Cleópatra era a sua suposta beleza fatal. Fruto de testemunhos indiretos e munida pelo fato de ter deixado dois dos mais poderosos homens da terra apaixonados por si, Cleópatra quase sempre foi apontada como a mais bela das mulheres.

Esta alegação não encontra qualquer respaldo científico e, mesmo sendo um susto para alguns, provavelmente era uma mulher de aparência comum às de sua época, como indica Arlete Salvador (2011, p. 30, acréscimo nosso):

Cleópatra era uma mulher feia, se comparada à beleza da atriz [Elizabeth Taylor]. Dito de outra forma: o mais provável é que tenha sido uma mulher normal, sem nenhum atributo físico de destaque.

Elizabeth Taylor interpretando Cleópatra
Elizabeth Taylor interpretando a rainha egípcia: sua beleza reforçou o senso comum de que a rainha ptolomaica era detentora de grandes atributos físicos. Créditos: Cleópatra, de 1963 (UK, SWI, EUA; Mankiewicz; 1963).

Padrões de beleza divergem no espaço e tempo. Cada cultura com suas preferências e a beleza como algo subjetivo e, ainda que dentro da mesma sociedade (mesmo espaço), extremamente particular no decorrer do tempo.

Há uma a impossibilidade de se chegar a um consenso se baseando em moedas, bustos e estátuas, pois, a depender dos interesses, podiam enaltecer ou difamar a pessoa representada. Muitos governantes egípcios também sobrescreviam monumentos de seus antepassados atribuindo seu nome.

Muito do poder de sedução da última rainha egípcia provavelmente decorre da sua peculiar inteligência, um fato que, inclusive, fez o mais poderoso dos romanos, Júlio César, admirá-la, protegê-la e amá-la.

4 CLEÓPATRA CHEGA AO PODER, MAS EM GRANDE DIFICULDADE

Cleópatra subiu ao trono em 51 a.C., aos 20 anos de idade. Na época, a República Romana passava por uma acirrada disputa envolvendo os comandantes Júlio César e Pompeu, o Grande.

A disputa era tão grave que mostrava o declínio da república romana e transbordava diretamente sobre povos conquistados e alianças com seus vizinhos, o que incluía o rico Egito.

rainha egípcia sendo carregada
“Não se sabe de onde tirou os recursos intelectuais e conhecimento político para governar, administrar o país e guerrear. O que se sabe é que, ao estrear como rainha, já entrou em cena pronta, como uma mulher feita, sedutora e convicta de suas posições”. (SALVADOR, 2011, p. 44). Créditos:

Administrativamente, não se sabe muito sobre os primeiros anos de governo da rainha. Ao que parece, ela teria se preocupado para governar bem e construir sua imagem como soberana. Contudo, se no plano administrativo pouco parece ter acontecido, no político a vida da rainha não começou nada fácil.

4.1 Difícil reconhecimento e incesto real

De modo parecido ao do seu pai, Cleópatra também não dispunha de legitimidade para permanecer no trono, sendo a motivação o massacrante fato de a mulher não ser tratada como capaz de governar sozinha.

Necessitava de respaldo masculino para manter-se como rainha, mas nunca como governante, ainda que em certas ocasiões mulheres, como Hatsheptut e Nefertiti, tenham permanecido no trono egípcio.

Desta forma, por ordem do seu pai (e com homologação romana), Cleópatra dividiu o trono com o seu irmão, Ptolomeu XIII, com quem se casou e que à época ainda contava apenas os 10 anos de idade (futuramente também se casaria com outro irmão, Ptolomeu XIV). Assim, Cleópatra estava destinada a permanecer no trono temporariamente até que seu irmão e marido tivesse condições de assumi-lo.

No Egito Antigo, o incesto entre os membros da família real era comum e incentivado, justificando-se na figura do faraó como um deus vivo na Terra. Basicamente, dois motivos justificavam o incesto: o primeiro, que os próprios deuses do panteão egípcio assim o faziam; o segundo decorrente de questões políticas para assegurar que o poder não escapasse da família, evitando disputas internas pelo poder.

A ligação dos antigos egípcios com elementos divinos e místicos era tão intensa que os reis se enciumaram dos deuses. Assim, aos poucos, para conquistarem a devoção e o amor dos súditos, foram assumindo características divinas. Então os deuses se casavam com irmãos, pais ou mães? Pois os mortais também o fariam. Vem daí a tolerância no Egito com o incesto nas famílias reais. (SALVADOR, 2011, p. 52)

4.2 O Egito endividado com Roma e as conspirações

O pai da rainha, Ptolomeu XII, tinha sido ajudado por Pompeu na difícil manutenção do trono egípcio anos antes. Com isso, além de Cleópatra ter herdado o trono compartilhado com seu irmão, também se encontrava endividada com o general romano, acabando por pagar a dívida despachando grandes somas de suprimentos, soldados e barcos às forças de Pompeu.

Ptolomeu XII havia tido um reinado difícil por ser um herdeiro de segunda grandeza, que apenas subiu ao poder em 76 a.C. pela falta de sucessores na linha legítima. Essa ausência de realeza (de sangue real) trouxe inúmeras dificuldades, incluindo inimigos internos e externos que visavam tomar seu trono.

Em 55 a.C., a própria irmã de Cleópatra, Berenice IV, conspirou e quase tomou a coroa do pai, ocasião em que Ptolomeu XII, com o precioso apoio de Pompeu, impôs-se definitivamente ocasionando uma série de assassinatos em família.

Nesta época, a mãe de Cleópatra, que não era a mesma que a de Berenice IV, teria morrido (especula-se que assassinada).

Cleópatra usando veneno
Um dos interesses da monarca egípcia era o veneno, o que manipulava com maestria. Créditos: Cleópatra testando veneno em prisioneiros condenados, de Alexandre Cabanel.

4.3 Cleópatra deposta do poder

Cleópatra passou por um breve período de turbulência no governo, onde teria sido inclusive deposta do poder, ocasião em que seu irmão, Ptolomeu XIII, mesmo jovem, tornou-se o novo e único regente do Egito sendo auxiliado por pessoas influentes da “nação” africana.

Muito da sua deposição temporária decorre do apoio dado a Pompeu. A insatisfação popular tomava conta dos egípcios que viam a aproximação com Roma uma possível relação de submissão, como costumeiramente ocorria com os povos da região.

A insatisfação teria sido tanta que Cleópatra, temendo a própria vida, buscou refúgio na casa de familiares na Síria, ocasião em que logo deu início ao planejamento de retorno ao seu país. Mas precisava de uma força militar forte, leal e competente para isso.

A situação só mudaria em favor de Cleópatra com a chegada de Júlio César ao Egito, dando início à parte mais explorada de sua vida por parte de escritores e dramaturgos.

5 CLEÓPATRA E JÚLIO CÉSAR

O relacionamento entre Cleópatra e Júlio César, embora extremamente tido como avassalador, não parecer conter o amor tão ardentemente mostrado e explorado na ficção e literatura. Por vezes, acredita-se que a rainha tenha sido política para assegurar seu governo.

Ocorre que há poucos registros relatando essa fase de sua vida. Normalmente se obtém informações a partir de terceiros e nunca da própria Cleópatra. As fontes que mais abordam a época praticamente se silenciam sobre a questão. Isto é, Plutarco e Cássio Dio, praticamente não retratam os sentimentos da enigmática rainha.

Fontes famosas como William Shakespeare, embora se trate de um extraordinário poeta e dramaturgo, mais simulam e criam ornamentos em torno de sua vida, trazendo histórias fabulosas e assim possivelmente se distanciando da história real, mesmo quando sabida.

5.1 A chegada de Júlio César ao Egito

Cleópatra e Júlio César se encontraram pela primeira vez em 48 a.C., quando César viajou ao Egito em busca de Pompeu que havia sido derrotado neste mesmo ano e buscado refúgio na terra aliada. Júlio César, à época, era incontestavelmente o líder absoluto de Roma e a sua presença representou oportunidade única para que Cleópatra retornasse ao trono.

Júlio César gozava de grande fama, pois havia conquistado a imensa Gália, feito consumado na Batalha de Alésia, em 52 a.C., acabado de derrotar Pompeu e com Marco Crasso morto na guerra contra os persas em 53 a.C., era o único remanescente do Primeiro Triunvirato (César, Pompeu e Crasso dividiam o poder romano) em condições de desafiar a própria Roma e o Senado.

Júlio César em triunfo
Júlio César desfilando em Triunfo após a guerra civil contra Pompeu, de Jacopo Palma il Vecchio.

5.2 O assassinato: César recebe a cabeça de Pompeu

Os egípcios, temendo Júlio César, bandearam-se para o seu lado, deixando Pompeu sem apoio e mais: a guarda real de Ptolomeu XIII assassinou seu antigo aliado, oferecendo sua cabeça a Júlio César, que teria ficado furioso com o acontecido.

De acordo com Cássio Dio, César desejava perdoar Pompeu para demonstrar sua grandeza perante Roma. Confira o relato completo:

Ao ver a cabeça de Pompeu, César chorou e lamentou amargamente chamando-o de amigo da pátria (…) e enumerando toda a atenção que já haviam demonstrado um com o outro. Com relação aos assassinos de Pompeu, longe de admitir que mereciam ser recompensados, encheu-os de críticas e ordenou que a cabeça fosse adornada e preparada para ser enterrada.

Júlio César foi elogiado por isso, mas sua hipocrisia era ridícula. Certamente, ele estava ansioso por dominação; ele odiava Pompeu como seu antagonista e rival. Apesar de todas as suas outras atitudes com relação a Pompeu, Júlio César havia ido para guerra com o único propósito de arruinar o rival e garantir a própria supremacia; havia corrido para o Egito com a única finalidade de derrotá-lo completamente se estivesse vivo; mas ainda assim lamentou sua perda demonstrando consternação com seu assassinato. (DIO, apud: SALVADOR, 2011, p. 80)

César recebendo cabeça de Pompeu o Grande
César presenteado com a cabeça de Pompeu, de Giovanni Battista Tiepolo.

5.3 Cleópatra surpreende César

Nesse conturbado contexto que Júlio César e Cleópatra se conheceram. A rainha deposta havia reunido um exército improvisado e maltrapilho com ajuda de aliados de províncias vizinhas e sabia que era fundamental conseguir o apoio de César (leia-se Roma). O encontro dos dois é outro fato controverso, sendo recheado de suposições de como teria acontecido.

Na mais conhecida versão, diz-se que Cleópatra teria surpreendido o líder romano em seu quarto, ocasião em que teria saído de um tapete ricamente ornamentado (ou mesmo de um saco).

Cleópatra teria sido levada ao aposento de César por Apolodoro, um mercador sírio, que passou sem ser parado pelos guardas do palácio então governado por Ptolomeu XIII. Se Cleópatra fosse descoberta, provavelmente seria morta.

Júlio César teria ficado impressionado com a ousadia daquela sedutora mulher que acabara de se relevar. Os atributos intelectuais e a determinação da rainha logo teriam despertado o interesse do general romano. Também teriam tido a primeira noite como amantes nesta ocasião.

Júlio César e Cleópatra
“‘Um presente para César’, anuncia ele [Apolodoro] ao guarda. Espantado, César vê aparecer diante dele uma magnífica jovem de vinte e um anos. Não é tanto pela sua beleza ou pelo seu requinte que ela fará o romano apaixonar-se. Cleópatra é inteligente, culta, admiravelmente vestida e maquiada. Símbolo vivo dos encantos do Oriente, tinha uma conversa cativante e falava uma dúzia de línguas. ‘Ouvir a sua voz era uma delicia’, dizia-se; ‘sua língua era como uma lira de numerosas cordas’”. (JACQ, 2007, p. 283, acréscimo nosso). Créditos: Cleópatra se revelando para César, de Jéan-Léon Gérôme, 1867.

A partir dessa noite, por razões do coração ou de Estado, o comandante insistiu em restaurar a antiga ordem real, dividindo o trono egípcio entre Cleópatra e Ptolomeu XIII. Cleópatra estava de volta à cena política e ao palácio real. Não exatamente no papel de protagonista, como sonhara – porque Ptolomeu XIII continuava na jogada –, mas era muita coisa. (SALVADOR, 2011, p. 83)

5.4 Interesses conciliados e a paz temporária

A decisão de César em restaurar o desejo do antigo rei, Ptolomeu XII, o pai de Cleópatra e Ptolomeu XIII, causou revolta entre os que estavam ao lado do jovem monarca.

Júlio César teria acalmado a corte egípcia ao garantir que nenhum dos governantes se sobressairia sobre o outro, também devolvendo a antiga possessão egípcia do Chipre aos seus irmãos mais novos, Ptolomeu XIV e Aisonoe, para que administrassem.

Com os egos alimentados da família real, um breve período de calmaria se fez e Cleópatra e César teriam iniciado a vida de amantes, assim como o próprio Egito encontrado paz após tantas reviravoltas. Mas era apenas impressão…

Júlio César e Cleópatra
César guiando Cleópatra ao trono egípcio, de Pietro de Cortona / Museu de Belas Artes de Lyon, França.

5.5 A Guerra Alexandrina

A paz não teria durado muito. Tropas fieis a Pompeu, apoiadas por Ptolomeu XIII, cercaram Júlio César e Cleópatra na cidade de Alexandria, dando início a uma guerra em que os dois se encontravam em grande desvantagem. Estavam cercados por forças superiores em terra e mar.

A Guerra Alexandrina, também conhecido como Cerco de Alexandria, teria sido iniciada em 48 e encerrada em 47 a.C. quando o comandante romano, apoiado por províncias da região, conseguiu derrotar os revoltosos, acabando de vez com Ptolomeu XIII e seus seguidores.

Cleópatra, durante a guerra, teria sumido. De acordo com as referências, ela estaria grávida do primeiro filho, momento em que teria se dedicado à gravidez. Ptolomeu XIII e Ptolomeu IV morreram: o primeiro afogado ao tentar atravessar o rio Nilo e o segundo não se sabe como (referências apontam que tenha sido envenenado).

5.6 Paz à Cleópatra, paz ao Egito

Encerrada a guerra, Cleópatra despontou como governante absoluta do Egito e do Chipre, governando e fazendo o Egito crescer durante um período de paz plena. Esse período também foi marcado pela determinação da regente em construir uma forte imagem de si diante dos egípcios.

Ptolomeu César Filadelfo, chamado de Cesário pelos egípcios, contudo, parece ter sido deixado de lado pelo pai, Júlio César. Em seu testamento e memória não se faz nenhum ato de reconhecimento. Roma não aprovava o relacionamento de César e Cleópatra, motivo talvez pelo qual os amantes tenham protegido Cesário.

6 ASSASSINATO DE JÚLIO CÉSAR E A VINGANÇA PELA ESPADA

Em 44 a.C. uma conspiração envolvendo o Senado de Roma tirou a vida de Júlio César a facadas, momento em que teria dito seu famoso lamento ao seu pupilo, Marco Bruto: “Até tu, Brutus?”. Marco Bruto era um dos conspiradores.

Com César morto, Cleópatra, que se encontraria em Roma, mais uma vez se viu em apuros, rumando de volta ao Egito por temer o mesmo destino que seu amante.

Júlio César morto
Júlio César assassinado no Senado, de Jéan-Leon-Gérôme.

6.1. A vingança na Batalha de Filipos

A morte de César deu origem à guerra civil mais sangrenta da Antiguidade Ocidental, onde Caio Otávio e Marco Antônio derrotaram Marco Bruto e Cassio Caio Longino nas duas Batalhas de Filipos, na Macedônia, em 42 a.C..

Otávio e Antônio se vingaram dos assassinos de Júlio César, deixando um saldo de ao menos 40 mil romanos mortos. As habilidades militares e a visão estratégica de Marco Antônio foram primordiais para o sucesso dos vingadores de César.

6.2 A crise romana

O assassinato do Ditador Perpétuo Júlio César lançou Roma em uma nova crise política. Os conspiradores de César foram caçados e executados e o Segundo Triunvirato estabelecido com Marco Antônio, Marcos Lépido e Caio Otávio. Os dois primeiros eram importantes generais de César e Otávio seu sobrinho e tido como herdeiro oficial.

Devidamente divididas as jurisdições de cada um, a Marco Antônio, que era o homem de confiança de Júlio César, coube administrar e proteger os territórios orientais da república romana, o que compreendia o Egito.

7 CLEÓPATRA E MARCO ANTÔNIO: POLÍTICA, AMOR E LUXO

Diferentemente de César, Cleópatra parece ter vivido uma grande paixão com Marco Antônio. Tão forte quanto teria sido essa paixão, também foi a campanha difamatória e intrigas de que foi vítima em Roma.

busto de Marco Antônio
“[Marco Antônio] com cerca de quarenta anos, é um militar de boa aparência, viril, colérico, que gosta de viver de maneira suntuosa e aprecia as mulheres e a vida fácil. Sabe conduzir os homens em terra firme, mas as complicações políticas não são seu forte. Caprichoso, não gosta de refletir acerca de problemas abstratos, e os negócios o aborrecem. Só o prazer e a ação o apaixonam, É tratado em toda parte com muitas honrarias.” (JACQ, 2007, p. 186, acrescimento nosso). Créditos: autoria desconhecida.

7.1 Cleópatra e Marco Antônio se conhecem

Se com Júlio César as versões sobre o início da paixão são inúmeras, com Marco Antônio simplesmente torna inoportuna relatar tantas suposições. Mas de uma coisa se tem certeza: Cleópatra, amadurecida e agora com 28 anos, estava mais preparada do que nunca para governar sua sociedade.

Com Marco Antônio as coisas eram diferentes, porque ela estava pronta para encontrá-lo; estava naquele momento em que as mulheres estão mais bonitas e têm pleno conhecimento. Ela se preparou para ele com muitos presentes, dinheiro e adornos da magnitude de sua fortuna e de seu reino, mas foi na capacidade pessoal mágica e em seu charme que depositou as melhores esperanças. (PLUTARCO, apud: SALVADOR, 2011, p. 90, grifo nosso)

Cleópatra e Antônio, ambos extravagantes ao seu modo, ela refinada como rainha de um país milenar e místico, ele rude como é o soldado endurecido pela guerra. Logo tiveram uma disputa amigável onde cada um buscou impressionar o outro com banquetes e apresentações circenses suntuosas. Cleópatra ganhou a disputa com facilidade e, claro, requinte.

Sobre a incapacidade de Marco Antônio em surpreender a monarca, que o presenteou com um magnífico jantar de boas vindas, destaca-se um trecho de Plutarco sobre o fiasco do romano ao não conseguir se igualar ao banquete recebido:

Ele foi o primeiro a rir de si mesmo, de sua falta de sofisticação e de seus modos de soldado. Cleópatra respondeu aos comentários de Antônio com o mesmo humor, relaxada e confiante. Muitos dizem que não foi sua beleza que o impressionou, mas a atração e persuasão de sua fala, a conversa inteligente e estimulante. Era um prazer ouvir o som de sua voz e ela podia moldá-la, como um instrumento musical, em várias línguas. (PLUTARCO, apud: SALVADOR, 2011, p. 95)

Cleópatra convidou Marco Antônio a conhecer a resplandecente Alexandria, que imediatamente teria aceitado. Lá eles teriam vivido um forte romance no qual Antônio teria sido comparado a um menino em sua colônia de férias.

Ambos eram extravagantes e gostavam de festas, o que se tornou um hábito e logo desagradou Roma, que já não via Cleópatra com bons olhos desde o seu envolvimento com Júlio César. Antônio, em termos educados, abusava da bebida e seus porres provocavam um péssimo mau humor no dia seguinte.

7.2 As intrigas se iniciam em Roma

As histórias de Marco Antônio e Cleópatra chegavam a Roma em tom de intriga. Este momento foi aproveitado por Otávio para ampliar seu poder, uma vez que Antônio permanecia ausente e distante. Antônio era um militar respeitadíssimo, mas seus hábitos boêmios eram tão conhecidos quanto sua capacidade militar.

Lépido, a essa altura, representava apenas um enfeite no Segundo Triunvirato e logo morreria, deixando Otávio e Antônio como adversários, de modo similar a César e Pompeu anos antes. No meio disso, novamente se encontrava Cleópatra.

Em 40 a.C, Antônio retornou à Roma para se casar com Otávia, irmã de Otávio. A situação foi provocada (e imposta) para assegurar sua lealdade à república romana e tanto o Senado quanto Otávio fizeram vista grossa quanto ao passado de Antônio no Egito. Nesse mesmo ano Cleópatra teve filhos gêmeos de Antônio, chamados de Alexandre e Cleópatra.

pintura de Cleópatra
“Mentirosa, interesseira, manipuladora, promíscua, insaciável, feiticeira, prostituta – foram alguns dos adjetivos atribuídos a Cleópatra pela campanha difamatória liderada por Otávio contra a amante e aliada política de Marco Antônio” — Arlete Salvador, 2011, p. 111). Créditos: Cleópatra, John William Waterhouse.

7.3 Agora a gente não se separa mais

Em 37 a.C. Cleópatra e Antônio se encontraram novamente na Antioquia, na atual Turquia, para nunca mais se separar. As desavenças entre Otávio e Antônio estavam cada vez mais acirradas.

Para superar Otávio, Antônio e Cleópatra firmaram um acordo em que Cleópatra forneceria suprimentos e homens em troca de receber parcelas do território romano. A decisão de entregar território romano ao Egito enfureceu Roma e Otávio ganhou mais seguidores em sua campanha contra o casal.

Em 36 a.C. Cleópatra teve o terceiro filho de Marco Antônio, Ptolomeu Fidalfo.

7.4 As Doações de Alexandria

Em 34 a.C., Cleópatra e Marco Antônio estavam praticamente casados e ela fornecia recursos materiais e humanos para as campanhas militares dele. Como recompensa, o Egito recebia novas parcelas de território romano, fazendo Cleópatra uma mulher extremamente poderosa.

As novas aquisições davam à Cleópatra uma dimensão política que, talvez, nem ela tivesse ousado sonhar. Na prática, retomou os territórios que haviam integrado o antigo Império Egípcio, o império de seus primeiros antepassados durante o domínio de Alexandre, o Grande. (SALVADOR, 2011, p. 109)

No Egito, esses acordos realizados entre os dois eram sempre comemorados exaustivamente com festas suntuosas, desfiles diante de multidões e muita bebedeira por parte de Marco Antônio.

Em Roma essas concessões territoriais eram vistas como traição e demonstração de ódio à república. O fato era que Marco Antônio não parecia mais ser aquele homem disciplinado e servo fiel de Roma na época em que esteve trabalhando com Júlio César. Antônio parece ter escolhido Cleópatra e o Egito em detrimento de sua verdadeira pátria, Roma.

8 ROMA DECLARA GUERRA AO EGITO

Em 32 a.C. Marco Antônio se separou da irmã de Otávio para se casar com Cleópatra nos moldes do Egito, fato que deixou os romanos horrorizados e o Senado inquieto. Marco Antônio havia rompido oficialmente com Otávio, ou melhor, desafiado.

Nesse mesmo ano Otávio arrancou a declaração de guerra do Senado à Cleópatra. Cleópatra. Não a Marco Antônio. A situação dos dois maiores líderes da república brigando entre si era tida como vexatória. Entretanto, sabia-se que o casal lutaria junto contra Otávio.

A guerra é declarada: não contra Antônio, mas contra Cleópatra. Suprema habilidade de Otávio, que evita a guerra civil e envolve o seu exército num conflito justo contra um inimigo estrangeiro. Chega a tentar uma última reconciliação, convidando Antônio a vir discutir na Itália. Cleópatra convence Antônio de não cair na armadilha. (JACQ, 2007, p. 290)

8.1 O fiasco na decisiva Batalha do Áccio

Em 2 de setembro de 31 a.C., no Mar Jônico, a esquadra do Senado de Roma representada por Otávio enfrentou a esquadra combinada de Cleópatra e Marco Antônio. O número de embarcações envolvidas é incerto e se acredita que cada lado teria perto das 400, tendo a frota combinada um número relativamente superior à sua disposição.

Cleópatra teria convencido Marco Antônio a travar um duelo naval em vez da luta em terra, a especialidade de Antônio. Por outro lado, Otávio contava com o seu amigo e experiente comandante naval Marco Vipsânio Agripa. Agripa, no mar, seria tão imbatível quando Marco Antônio era em terra firme.

Batalha do Áccio
A Batalha do Áccio, 2 de setembro de 31 a.C., de Lorenzo A. Castro. Obra constante no Museu Marítimo Nacional, Londres, Inglaterra.
mapa da Batalha do Áccio
Disposição das embarcações na Batalha do Áccio. Créditos: autoria desconhecida.

Apesar de longamente planejada por Marco Antônio, a Batalha do Áccio foi um tremendo fiasco que ainda hoje não tem resposta definitiva ora pela falta de informações históricas ora pela atitude de Marco Antônio, que simplesmente abandonou seus soldados à própria sorte, quando Cleópatra repentinamente fugiu.

Quando os soldados se deram conta da fuga dos seus líderes, muitos tentaram acompanhá-los, alguns lutaram, mas a maioria se entregaria aos comandantes de Otávio, consolidando a vitória total de Roma.

8.2 Ruína e vergonha

Cleópatra retornou ao Egito anunciando uma grande vitória na batalha naval, mas aos poucos a verdade vai sendo surgindo. Cleópatra teria mandado executar muitos egípcios, quando o resultado catastrófico de Áccio começou a circular nas ruas do Egito.

Seja qual for a verdade sobre os acontecimentos no Ácio, o fato é que Marco Antônio saiu dele não apenas derrotado, mas também humilhado e desacreditado. Mesmo os mais entusiasmados analistas militares acreditam que há fatores incompreensíveis no comportamento dele e na estratégia de combate.

A própria opção de uma guerra por mar parece irracional. Marco Antônio era um soldado do exército, experiente em batalha no chão. Quem tinha mais experiência em navegação era a tropa de Cleópatra. A opção pela batalha teria sido dela. (SALVADOR, 2011, p. 128)

9 DESOLAÇÃO E DESCONFIANÇA MÚTUA

Após a derrota na Batalha do Áccio, Cleópatra retornou à cidade de Alexandria, enquanto Antônio tentou ajuda de antigos aliados. A rainha enviou pedidos de perdão e presentes a Otávio; Marco Antônio retornou ao Egito sem conseguir apoio algum e também pediu misericórdia a Otávio. Nenhum dos dois teve seus pedidos e alternativas aceitos e sabiam que logo as legiões romanas do vencedor do Áccio estariam no Egito.

Entre Cleópatra e Marco Antônio há uma infinidade de versões sobre os acontecimentos após a batalha, incluindo uma plausível sobre a existência de um clima de desconfiança e receio mútuo.

Cada um teria pensado nas possibilidades, mas, qualquer que fosse, dependeria da vontade de Otávio, agora indiscutivelmente o mais poderoso dos romanos como fora seu pai adotivo, Júlio César. Otávio, inclusive, se tornaria primeiro imperador, dando início à fase imperial de roma.

10 O DESTINO DE MARCO ANTÔNIO E OS FILHOS DE CLEÓPATRA

10.1 O suicídio de Marco Antônio

Marco Antônio tentou resistir em vão à investida de Otávio, quando este avançava sobre o Egito. As tropas de Antônio simplesmente depuseram armas e algumas até confraternizaram. Afinal, todos eram romanos, estavam longe de casa, cansados da guerra, a disputa entre Otávio e Antônio estava chegando ao fim e em breve estariam do mesmo lado. Logo todos estariam mais uma vez unidos e lutando por Roma.

Marco Antônio estava arrasado, nem de longe lembrava o comandante que lutou triunfante em tantas guerras ao lado de César. Marco Antônio teria recebido uma mensagem avisando que Cleópatra tinha se suicidado. Essa mensagem carece de comprovação, mas o fato é que Otávio cravou sua espada no abdome e o ferimento lhe custaria a vida.

10.2 Os filhos e a filha de Cleópatra

Cleópatra tentou negociar, inclusive com a abdicação do trono em prol dos filhos, mas teve o pedido negado. Cesário, seu filho com Júlio César, havia sido enviado à Índia para permanecer em segurança, mas acabou morto no caminho.

Traído pelo próprio tutor que seria de confiança, o garoto foi entregue a Otávio que o matou porque seria o verdadeiro herdeiro de Júlio César, o que ameaçava seu trono.

Os três filhos de Cleópatra e Marco Antônio foram levados à cidade de Roma, sendo os meninos mortos. A filha, Cleópatra Selene, contudo, foi preservada, protegida, educada e se causou com um rei ou príncipe da Mauritânia, tendo uma vida tranquila e confortável.

11 CLEÓPATRA VENCIDA

Cleópatra, também arrasada, havia se entrincheirado em um mausoléu construído subterrâneo. Além dos seus tesouros mais valiosos, encontrava-se bastante material inflamável, indicando que ela não pretendia se render para ser exposta acorrentada, maltrapilha e totalmente vencida nas ruas de Roma por Otávio, que a apresentaria como troféus em pleno triunfo (o triunfo era uma espécie de honraria altíssima dada somente aos maiores vencedores de Roma).

Encontrava-se vencida e sem expectativa. Teria tentado seduzir Otávio e oferecido toda a sua fortuna. Sem efeito. Otávio era glacial, frio, comedido. O último encontro entre Otávio e Cleópatra também carece de informações confiáveis.

Plutarco e Cássio Dio descrevem situações completamente diferentes para o encontro dos dois, tendo na do primeiro a rainha suja, acabada, magra, diferentemente da versão do segundo onde Cleópatra se encontrava majestosa, cheirosa e sedutora.

12 O SUICÍDIO DE CLEÓPATRA

Após o encontro, a eterna rainha do Egito sabia que somente o suicídio lhe forneceria uma saída ainda digna.

morte de Cleópatra
Cleópatra se suicidando através da famosa passagem com a serpente. Créditos: A morte de Cleópatra, de Reginald Arthur.

12.1 Segundo Plutarco, Cássio Dio e Shakespeare

Plutarco, Cássio não viveram no tempo de Cleópatra, tendo recebido relatos de terceiros. Falavam sobre a famosa morte por picada, mas com ressalvas.

Shakespeare, que teve inspiração em Plutarco e nasceu mais de 1.500 anos depois de Cleópatra, criou uma famosa peça teatral chamada de Cleópatra e Marco Antônio para os antigos amantes.

Contudo, a morte pelo veneno da cobra, muito além de meramente romanceada na peça de William Shakespeare, trata-se da versão oficial sobre a morte da última monarca ptolomaica.

12.2 Evidências científicas e o túmulo desconhecido

A naja não possui capacidade de picar três pessoas numa mesma ocasião, pois lhe faltaria veneno. Contudo, Cleópatra manipulava veneno como poucas pessoas. Era verdadeiramente versada em nessa arte e teria realizado diversos experimentos em pessoas.

O túmulo de Cleópatra, desconhecido até então, pode conter a chave para essa e tantas outras respostas sobre a mais famosa rainha da história.

12.3 A versão clássica: Cleópatra se deixa picar pela naja

Cleópatra morta por serpente
Cleópatra morta após uma picada de cobra no seio, de Jean Andre Rixens.

Apesar de qualquer coisa, a versão que retumba na história acerca da morte da última Faraó do Egito Antigo é a morte pelo veneno, como bem descreve Christian Jacq (2007, p. 293):

O sonho de Cleópatra está desfeito. Mas privará Otávio de um magnífico triunfo em Roma, durante o qual seria mostrada a um povo cheio de ódio como uma escrava acorrentada.

Reza uma tradição célebre (que parece próxima da verdade) que, depois de tomar um banho e de escrever uma carta a Otávio pedindo para repousar junto de Antônio, Cleópatra manda vir um cesto com frutas.

O cesto trazia uma serpente escondida, que a rainha agarra. Mordida no seio, sucumbe dignamente. É possível que Cleópatra tenha escolhido está maneira de morrer por motivos religiosos.

Os faraós eram protegidos por uma serpente sagrada que aniquilava seus inimigos. A desesperada rainha fez deste poder vital uma força destrutiva. A serpente criadora transforma-se numa serpente de morte.

No dia 29 de agosto do ano 30 a.C., o Egito soberano é assinado pela última vez, na pessoa de Cleópatra.

REFERÊNCIAS:

CLINE, Eric H.; GRAHAM, Mark W.. Impérios antigos: da Mesopotâmia à Origem do Islã. trad. Getulio Schanoski Jr.. São Paulo: Madras, 2012.
COSTA, Márcia Jamille Nascimento. Uma Viagem Pelo Nilo. Aracaju: Site Arqueologia Egípcia, 2013.
JACQ, Christian. O Egito dos Grandes Faraós: história e lenda. trad. Rose Moraes. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007.
MATYSZAK, Philip. Os inimigos de Roma. trad. Sonia Augusto. Barueri: Manole, 2013.
SALVADOR, Arlete. Cleópatra: como a última rainha do Egito perdeu a guerra, o trono e a vida e se tornou um dos maiores mitos da História. São Paulo: Contexto, 2011.
SILVA, Alberto da Costa e. A Enxada e a lança: a África antes dos portugueses. 5ed. rev. e ampl.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
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Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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