A Gripe Espanhola – o mundo doente

Hospital para vítimas gripe espanhola
Hospital militar de emergência montado no Kansas (EUA) para tratar as vítimas locais da pandemia de gripe espanhola. O cenário de aflição encontraria milhares de “réplicas” por todo o globo. Créditos: National Museum of Health and Medicine, Armed Forces Institute of Pathology.

Enquanto as potências mundiais se digladiavam na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), um inimigo silencioso e ainda mais devastador surgiu: a gripe espanhola. O planeta foi arrebatado por um terrível surto de gripe que mataria mais que a Grande Guerra. Com o término desta e o consequente retorno de milhões de pessoas envolvidas para seus países de origem, a disseminação foi rápida e implacável. Estima-se que a avassaladora influenza tenha matado entre 30 e 100 milhões de pessoas.

A epidemia ocorreu entre 1918-1919 e percorreu os mais longínquos e aparentemente “isolados” lugares da Terra. Europa, América, Ásia, África e Oceania, nenhum continente saiu ileso. Vilarejos esquimós no Círculo Polar Ártico foram varridos. “Acampamentos aborígenes de lugares remotos da Austrália e em assentamentos nas selvas africanas e sul-americanas. Matou milhões de pessoas na Índia. Apareceu em navios em alto-mar. Sob o nome de gripe espanhola, matou mais pessoas que a Primeira Guerra Mundial”. A gripe infectou cerca de 500 milhões de pessoas.

Os médicos encontravam dificuldade para diagnosticar os casos e a demanda ferozmente crescia. Embora a gripe em si tenha matado, a maioria das pessoas morreu de pneumonia severa desenvolvida a partir da gripe inicial.

Condutor de bonde de rua proibindo a entrada de passageiro
Condutor de bonde de rua em Seattle, EUA, proibindo a entrada de passageiro sem máscara, 1918. Créditos: autoria desconhecida.

O vírus atacou em duas ondas. Na primeira (primeira metade de 1918), teve efeitos “pequenos”, mas, na segunda (final de 1918), depois de sofrer uma mutação, sua agressividade tornou-se perturbadora e a velocidade com que se alastrou e os estragos causados se mostraram sem equivalentes na história – nunca a guerra, catástrofe ou epidemia tinha feito tantas vítimas em tão pouco tempo. A gripe espanhola foi implacável e universal.

Não se sabe ao certo quando ocorreu o primeiro caso da gripe e menos ainda o número aproximado de vítimas fatais. Embora se acredite que alguns dos primeiros casos tenham ocorrido na Espanha, muitos pesquisadores acreditam que a doença tenha surgido nos EUA e irradiado para a Europa através dos soldados estadunidenses, que desembarcavam em números cada vez maiores.

Em fevereiro de 1918, a cidade de San Sebastián, na Espanha, foi infestada pela influenza e, diferentemente dos países envolvidos na Primeira Guerra que censuraram notícias relativas, as notícias sobre a doença foram amplamente divulgadas. Os países beligerantes na guerra não permitiram a divulgação da notícia tentando evitar o caos nas fileiras dos exércitos. Também há o fato de os governos sempre atribuírem o nome de doenças a outros Estados: “a moda de uns países atribuírem a outros a origem de doenças não é nova; quando a sífilis apareceu, na Idade Média, os franceses chamavam-na de ‘mal napolitano’, e os italianos de ‘mal francês’.”

Antes do desembarque do vírus no Brasil, sua marinha, que se encontrava empregada na guerra, já contabilizava altíssimo número de mortes. A gripe teria infectado 90% dos 1.500 tripulantes causando a morte de 125 marinheiros.

No Brasil, acredita-se que a o vírus tenha chegado por ocasião do navio inglês Demerara, que havia atracado em Recife e em Salvador ainda em 1918. O grande contingente migratório que o Brasil recebia também é apontado como grande causa do alastramento da gripe. As causas que teriam favorecido o surto epidêmico ainda são confusas e parecem estar longe de serem apontadas de forma definitiva.

REFERÊNCIAS:
BONALUME NETO. Ricardo. Gripe espanhola castigou Marinha do Brasil na Primeira Guerra.
BORGES, Jerry Carvalho. 1918, um ano funesto.
Cruz Vermelha portuguesa. Factos Números sobre desastres.
PORTO, Fernando; CAMPOS, Paulo Fernando de Souza, OGUISSO, Taka. Cruz Vermelha Brasileira (filial São Paulo) na imprensa (1916-1930).
SCLIAR, Moacyr. A fúria da gripe espanhola.
SEED. Gripe: O Vírus Comum que Pode Matar: A Pandemia de Gripe Espanhola de 1918.
Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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