Maratona, 490 a.c.: a batalha que valeu por uma guerra

batalha de Maratona
“Em Maratona, uma pequena força de gregos impediu o avanço do grandioso exército persa em uma batalha que alteraria o equilíbrio de poder entre Oriente e Ocidente. É comemorada ainda hoje, quase 2500 anos depois, por uma corrida famosa” — Cawthorne. Créditos: Time Life Pictures/Mansell/Time Life Pictures/Getty Images.

No verão de 490 a.c., um grande e experiente exército persa foi transportado para Grécia com o objetivo de conquistá-la. Seguindo ordens do rei Dário I, centenas de embarcações persas cruzaram as águas do Mar Egeu desembarcando próximo da cidade-estado de Atenas. A situação ateniense era no mínimo desesperadora, entretanto, apesar da superioridade numérica e diversidade de unidades da força invasora, os atenienses se prepararam e partiram para o encontro dos persas. O resultado deste breve conflito provou que uma pequena força poderia sobrepujar um poderoso exército por meio de simples estratagemas.

Em 492 a.c. os persas tentaram invadir a Grécia pelo norte, mas sua frota naval foi arruinada por uma terrível tempestade. Dário I parecia não acreditar no acontecido, mas, ainda disposto a invadir a Grécia, prosseguiu com seus planos e no verão de 490 a.c., com 600 galés (“navios de transporte/guerra”), desembarcou aproximadamente 25 mil soldados ao sul da Grécia. Dentre as ambições do rei persa, conquistar a cidade-estado de Atenas seria a primeira a ser saciada.

Os persas aportaram em uma baía perto da cidade de Maratona, aproximadamente 40 quilômetros ao norte de Atenas. Além da praia de Maratona, havia uma ampla planície — o que favoreceria incrivelmente o emprego da cavalaria persa em detrimento das lentas falanges gregas. Sob o comando de Dátis, o acampamento persa foi erguido e a preparação para o embate aquecido por discursos inflamados.

Os números da Batalha de Maratona

Os atenienses criaram um exército com cerca de 9 mil soldados e solicitaram ajuda às demais cidades-estado da Grécia, mas apenas Plateia disponibilizou enviando 1.000 hoplitas (soldados de infantaria), para engrossar as fileiras do recém-formado exército ateniense. Os espartanos tinham festivais religiosos e só poderiam enviar ajuda ao fim destes.

Os persas possuíam grandes contingentes de arqueiros e cavalarias armadas com lanças, espadas, arcos e dardos. A infantaria persa costumava avançar e manter o combate corporal com uma forte linha de frente, enquanto os arqueiros despejavam suas setas sobre a profundidade das fileiras inimigas. A cavalaria, embora relativamente blindada, era extremamente veloz e habitualmente conseguia êxito no flanco inimigo, sendo a chave de diversas vitórias persas desde os tempos de Ciro, o Grande (rei persa antecessor de Dário I).

Os atenienses, assim como vários outros gregos, dispunham de exércitos relativamente simples. Contudo, a falange grega — formada por hoplitas — era considerada a principal unidade de infantaria de sua época. “Os hoplitas lutavam em fileiras cerradas, com o escudo de um homem protegendo o corpo do vizinho à esquerda. Essa formação era conhecida como falange, termo grego cujo sentido é ‘estaca’. Os hoplitas avançavam relativamente devagar contra o inimigo, em blocos que tinha por vezes a profundidade de 16 homens, e, enquanto mantinham sua formação, seus escudos e armaduras proporcionavam boa proteção contra as setas e lanças inimigas”. (GILBERT, 2005, p.16)

Apesar de difíceis de manobrar por seu pesado equipamento, as falanges habitualmente desferiam grande gama de ataques ao inimigo. Isso porque não apenas a primeira fileira atacava, mas até a terceira também por meio de longas lanças (as falanges macedônias, melhor adaptadas, atacariam até com a quinta/sexta fileira)

O comando das forças atenienses estava nas mãos de Miltíades. Este comandante grego era natural da Península de Galípoli, então parte do império persa, e já tinha participado das campanhas persas, como a de Cítia. Miltíades havia traído Dário I e fugido para Grécia. Ele nutria forte desejo de luta contra os persas — seria contra o imperialismo médico. Medos: um dos povos que constituíam o império persa, daí o nome das guerras.

A estratégia da batalha

Miltíades conhecia bem as artimanhas de guerra dos generais persas e decidiu que seria melhor levar o combate até eles — marchando em direção à cabeça de praia persa. Cabeça de praia: litoral conquistado pelo inimigo — a baía sob controle persa.

No provável campo de batalha, o comandante grego, receoso com o tamanho do exército persa e principalmente com o emprego da cavalaria, que poderia arrasar suas falanges, dispôs suas tropas na parte mais estreita do vale — evitando os ataques da cavalaria na grande planície e não criando uma linha de combate que não poderia fazer frente.

Preocupados com seus flancos, os gregos criaram obstáculos para infantaria e cavalaria de Dário I: abatis (“estacas”) foram postas nas extremidades do exército grego, ao passo que mais soldados também estavam posicionados. Foi concluído que centro do exército grego, em meio ao confronto, sofreria uma redução para o fortalecimento dos flancos, que deveriam avançar. Manobra perigosa: caso os persas conseguissem vencer o centro grego, o exército de Miltíades seria dividido em dois e teria que se defender por diferentes lados — seria a ruína ateniense.

A Batalha de Maratona

O início da batalha foi anunciado pelas saraivadas de flechas caindo sobre os gregos que mantiveram sua formação. A infantaria persa foi ao encontro da grega que rapidamente tomou as posições antes demarcadas por Miltíades. Dátis precipitou o ataque e logo se lamentou: sua cavalaria foi anulada — simplesmente ficou atrás da linha de infantaria persa que já se engalfinhava freneticamente com a grega, no “estreito” vale.

A cavalaria persa havia sido anulada, mas os gregos ainda estavam em grande desvantagem numérica e o seu centro — parte mais frágil da formação — estava sofrendo fortes investidas. A situação grega estava difícil: seus flancos teriam que avançar para obterem algum espaço seguro e poder atacar o centro persa — com duas novas zonas de ataque.

O centro grego era comandado pelos veteranos Aristides e Temístocles que logo perceberam a dificuldade dos flancos em avançar (era praticamente impossível empurrar os persas). Diante da dificuldade, tentaram o improvável: aproveitando-se do recuo que estavam sofrendo, em uma manobra extremamente mirabolante, resolveram ceder pouco mais de terreno do centro grego aos persas, para criar um “funil” em que o centro inimigo estaria sob o crivo dos flancos ateniense e plateense. Um simples erro nessa manobra e as laterais gregas seriam expostas — a falange estaria quebrada.

Agindo com precisão cirúrgica, Aristides e Temístocles reuniram seus homens, cederam espaço aos persas e desferiram feroz contra-ataque ao centro persa. Ao mesmo tempo, os flancos gregos, igualmente ousados, viraram contra o centro persa. A vanguarda persa, extremamente estendida, viu-se sob ataque por três lados. A linha se rompeu e a unidade de persa foi quebrada rachando-se em duas partes. O caos tomou conta dos oficiais que já não pareciam ter voz. Utilizar a cavalaria persa para repor a linha seria suicídio. Os persas fugiram para a praia onde se encontravam seus navios. Os gregos ganharam o dia.

Movimentação durante a batalha de Maratona
Movimentação durante a batalha (gregos em azul e persas em vermelho). Créditos: autoria desconhecida.

Pós-batalha e a corrida à cidade de Maratona

As baixas de cada lado geram questionamentos: enquanto os persas teriam perdido cerca de 6.400 mil (sem contabilizar prisioneiros), os gregos apenas 192 soldados. “Diz, inclusive, que as 192 figuras no friso do Partenon — agora parte dos Mármores de Elgin no Museu Britânico — representam os 192 gregos mortos em maratona”. (CAWTHORNE, 2010, p. 13)

Com a vitória inquestionável, Miltíades ordenou que o soldado Felípedes corresse até Atenas levando a notícia da vitória arrasadora. Miltíades teria dito: “Felípedes, corra! Corra até Atenas para contar que vencemos. Corra muito, antes que nossas esposas coloquem em prática o plano em caso de derrota“. Após o combate, exausto, Felípedes teria corrido para Atenas (40 km aproximadamente), entregue a mensagem — “NIKE!” (Vitória) — e caído no chão, morto. Esta jornada foi a épica primeira maratona.

Morte de Eucles [Felípedes] depois da corrida à cidade de Maratona.
Morte de Eucles [Felípedes] Depois da Batalha de Maratona. Créditos: “Death of Eucles After Battle of Marathon”. Bettmann/CORBIS. ID: RF573.

Dez anos depois, os persas desembarcariam na Grécia mais uma vez: sob o comando de Xerxes I, um exército colossal com mais de 200 mil soldados — oriundos de todos os cantos do império persa — colocaria mais uma vez a guerra grega em prova. O ensinamento de Maratona refletiria pelos próximos 300 anos, inclusive nas Termópilas dos 300 de Esparta (os 300 de Esparta enfrentariam riscos ainda maiores).

REFERÊNCIAS:
CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História: Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. Trad. Glauco Dama. São Paulo: M. Books, 2010.
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. Trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
MOON, Peter. O dia em que o Ocidente nasceu. Acesso em: 7 abr. 2013.
VINCENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002.
Templo de Apolo. A Batalha de Maratona. Acesso em: 7 abr. 2013.
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Autor: Eudes Bezerra

30 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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