Napoleão se despede da Guarda Imperial, um adeus inacabado

Napoleão se despede da Velha Guarda Imperial
Um adeus inacabado: Napoleão Bonaparte despede-se da sua fiel e intrépida Velha Guarda Imperial. Pintura L’Adieux de Napoléon à la Garde Impériale das la cour du Cheval-Branc du Château de Fontainebleau, de Antoine Alphonse Montfort.

Ao fim da trágica campanha militar na Rússia (1812), o exército francês encontrava-se esfacelado e seu poder de defesa debilitado. Os inimigos europeus, pela primeira vez, encontravam-se na iniciativa – no encalço de Napoleão. Desejando evitar qualquer mal à pátria amada diante da gigantesca aliança militar inimiga, Napoleão abdicou e, melancolicamente, despediu-se de sua tão leal Velha Guarda Imperial, para viver seu suposto exílio em 1814. Inesperadamente, este simbólico episódio ainda comportaria um capítulo e, ao término deste (1815), nasceria uma nova era para a Europa – o fervoroso século XIX.

Em tela, a pintura “L’Adieux de Napoléon à la Garde Impériale das la cour du Cheval-Branc du Château de Fontainebleau” (O Adeus de Napoleão à Guarda Imperial no pátio do Cavalo Branco do Castelo de Fontainebleau), de Antoine Alphonse Montfort, que retrata o melancólico 20 de abril de 1814 francês, quando ocorreu a triste despedida de Napoleão e seus mais antigos camaradas.

Os oficiais representados na pintura são membros da Velha Guarda Imperial (mais antigos e experientes). Nota-se o lamento e a emoção dos velhos guerreiros. Em meio ao discurso de adeus, diz-se ter sido possível escutar “soluços” advindos das fileiras. A camaradagem entre Napoleão e seus soldados foi reconhecidamente fraterna – ao ponto de arrancar lágrimas daqueles homens tão endurecidos pela guerra. [ver discurso ao final]

Antes de invadir o Império Russo (1812), não havia dúvida da força ímpar que o exército francês representava – a família real portuguesa e imensa parte da corte, em 1808, fugiram para o Brasil apenas com o vulto de jovens recrutas franceses. Além de disciplinarmente treinado e bem estruturado, as tropas francesas eram comandadas por aquele já reputado como lenda militar, o próprio Bonaparte. Diversas coligações foram constituídas por Estados europeus na tentativa de frear a expansão francesa, mas nada parecia ser capaz de aplacá-la.

Sob a bandeira do império francês, a Guarda Imperial francesa marchou e timbrou seu nome como grandiosa unidade militar. Seu advento remonta a escolta pessoal de Napoleão em sua época de general (Napoleão tornou-se general aos 24 anos por mérito próprio). Com o decorrer dos anos cresceu significativamente: em 1805, abarcava 12 mil homens. Em 1814, mais de 100 mil soldados engrossavam suas disciplinadas fileiras. A Guarda, na prática, equivalia a um “exército de elite”, pois replicava a maioria das unidades do exército ordinário.

Durante seu crescimento, foi dividida em três “seções”: Jovem, Média e Velha Guarda. A Velha Guarda era a dos veteranos, os soldados há mais tempo sob o comando do comandante francês. O “exército de elite” percebia melhor remuneração e dispunha, invariavelmente, de equipamentos e alimento de maior qualidade.

Ser incorporado à Guarda era motivo de grande honra. Com os ventos da Revolução Francesa (1789), a meritocracia começou a ser exercida e exigia, costumeiramente, o cumprimento de pré-requisitos rígidos, como os de que os homens precisassem contar cinco anos de serviço e haver lutado com bravura em batalhas anteriores.

Após o advento da Revolução Francesa, a França passou por profundas reformas e, dentre as mais importantes, encontrava-se a pertinente ao seu exército. Fundamentado por fortes laços de lealdade à pátria e fraternidade entre os homens, o exército francês foi convertido em um “exército de cidadãos”, tendo, como sua parte mais significativa a Guarda Imperial Francesa – o coração do exército.

Talvez, o traço mais marcante das modificações atenda pelo nome de nacionalismo. Este foi fomentado, sobretudo na Guarda Imperial, e gerou um divisor de águas na história: após as Guerras Napoleônicas, os Estados europeus, entre outros, objetivaram cada vez mais exacerbar a unidade nacional – fortalecer o sentimento de união e força entre os membros de uma mesma nação –, de modo que ao fim do mesmo século (XIX), as potências neocolonialistas viveram o tênue equilíbrio da “Paz Armada” (“1871”-1914), que desembocou tragicamente a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Em 1812, após uma série de gloriosos triunfos, como o de Austerlitz (1805), o Imperador autoproclamado finalmente seria derrotado: Napoleão objetivou “encerrar” definitivamente a longevidade do império dos Czar’s. Apesar da vastidão e do inverno russo serem proibitivos, Napoleão marchou. 600 mil soldados teriam sido empregados na Invasão da Rússia – apenas 20 mil retornaram à França, famintos e enregelados.

Fruto de sua insaciável fome de poder e glória, Napoleão se lançou contra a Rússia e a cobiça saiu cara – o coração do seu exército (Guarda Imperial) foi arrancado. Adotando a tática da terra arrasada/seca, os russos forçaram os franceses a dar meia volta. O “general inverno” se encarregaria de cuidar das tropas que vestiam seus uniformes de verão. Inobstante, a escaramuça executada pelo cossacos (“cavaleiros leves”) agravou a já desesperadora situação francesa – durante toda a campanha de retirada de Moscou, os cossacos hostilizaram os franceses aumentando a atmosfera de terror.

Dois anos após a retirada de Moscou, sem forças se defender e, principalmente, temendo as ações que seus vizinhos poderiam impor ao seu amado País, Napoleão abdicou em favor de seu filho (6 de abril de 1814). Em 20 de abril se despediu daqueles – Velha Guarda Imperial – que por mais de duas décadas liderou. Entretanto, em 18 de junho de 1815, nas proximidades de Waterloo, todos se reuniriam mais uma vez para marchar sob as ordens do comandante e enfrentar a derradeira Coligação Europeia – como leões, muitos tombaram rugindo.

Discurso de Napoleão aos oficiais da Velha Guarda Imperial:

Soldados da minha Velha Guarda, venho apresentar-vos minhas despedidas. Durante vinte anos a fio, muitas e muitas vezes, deparei-me convosco, palmilhando o caminho da honra e da glória. Nos dias que correm, como também, nos dias de nossos sucessos, nunca deixastes de ser modelos de bravura e de lealdade.

Com homens de vossa estirpe, nossa causa não estaria perdida. Mas a guerra parecia interminável. Corríamos o risco iminente de um conflito civil. Isso ocorrendo, a França tornar-se-ia ainda mais infeliz. Eis por que sacrifiquei todos os meus interesses em prol dos interesses da pátria e me afasto.

Quanto a vós, meus amigos, continuastes servindo à França. Para ela estiveram voltados todos os meus pensamentos. Para ele convergirão sempre meus melhores anelos. Não deploreis meu infortúnio. Se aceito sobreviver-me é, ainda, para servir vossa glória. Pretendo escrever sobre os grandes feitos que empreendemos juntos. Adeus, filhos meus. Gostaria de estreitar-vos a todos junto ao meu coração. Que eu beije, pelo menos, a vossa bandeira!

[neste momento, Napoleão beija a bandeira da França]

Adeus, mais uma vez, meus velhos camaradas! Que este último ósculo perpasse vossos corações!”.

REFERÊNCIAS:
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. trad. Pedro Libânio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. trad. Pilar Satierra. São Paulo: Tahyu, 2005.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
NEWARK, Tim. História Ilustrada da Guerra. trad. Carlos Matos. São Paulo: Publifolha, 2011.
Sol de Austerlitz. O Adeus de Fontainebleau.
Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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