Primeira Cruzada (1096-1099): Resumo completo

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Causas, contexto, participantes e resultados da Primeira Cruzada, o primeiro de uma série de conflitos incitados pelo papa Urbano II. Créditos: A Tomada de Jerusalém, de Émile Signol / Palácio de Versalhes, França / Montagem: Eudes Bezerra.

 A Primeira Cruzada foi o inicial conflito de uma longa e desgastante guerra religiosa proclamada pela Igreja Católica a partir do discurso — fervoroso e desafiador — do papa Urbano II no Concílio de Clermont.

 Fatores religiosos, financeiros e mesmo conflitos internos da Europa serviram de alicerce para este conflito que ainda hoje não é esquecido na política global.

Em resposta ao apelo de Urbano, talvez umas 100 mil pessoas de toda a Europa tenham começado a rumar para o Oriente, numa onda humana motivada pela combinação de histeria religiosa, ganância por despojos e anseios de garantir a salvação — Urbano havia prometido a “imediata remissão dos pecados” a todos aqueles que morressem na Cruzada. (CUMMINS, 2012, p. 76)

TÓPICOS SOBRE A PRIMEIRA CRUZADA

1. O que foi a Primeira Cruzada em resumo?
2. Qual é o contexto histórico da Primeira Cruzada?
3. Convocação da Primeira Cruzada: o que leva a esse momento?
4. Como foi a Primeira Cruzada?
⠀⠀4.1 A Cruzada dos Mendigos
⠀⠀4.2 A Cruzada dos Nobres
5. Quais foram os participantes da Primeira Cruzada?
6. O que ocorreu depois da Primeira Cruzada?
Referências

1. O QUE FOI A PRIMEIRA CRUZADA EM RESUMO?

A Primeira Cruzada se trata da guerra inicial dentro de uma série de guerras religiosas conhecidas como Cruzadas, todas ocorridas durante o Período Medieval já na Baixa Idade Média.

 As cruzadas tiveram início após a convocação do Santo Padre Urbano II no Concílio de Clermont, discurso ocorrido na França e datado de 27 de novembro de 1095.

Compreendida efetivamente entre 1096 e 1099, possuía diversas motivações, incluindo a religiosa: a tomada de Jerusalém das mãos muçulmanas.

Um dos outros elementos que estavam em jogo era a possível reconciliação entre as Igrejas Católica e Ortodoxa que haviam se separado no evento conhecido como o Grande Cisma.

Juntamente com essa reconciliação, encontrava-se o reforço imediato do Império Bizantino, considerado a muralha que protegia a Europa cristã dos mulçumanos no lado leste da Europa.

A Primeira Cruzada culminou com a conquista de Jerusalém em 1099 e ficou machada por uma violência desmedida e indiscriminada por parte dos cristãos contra não cristãos, como judeus e principalmente muçulmanos.

Muitos dos êxitos da Primeira Cruzada foram perdidos no decorrer do tempo com a reconquista de vários territórios pelos muçulmanos, o que incitou a Segunda Cruzada, a Terceira Cruzada e assim por diante…

Tomada de Jerusalém na Primeira Cruzada
Embora terminada este evento que conhecemos por Primeira Cruzada, muitos outros viriam a ocorrer a partir das contraofensivas muçulmanas, o que tornaria o conflito secular e que ainda hoje respalda em nas relações entre cristãos e muçulmanos. Créditos: A Tomada de Jerusalém, de Émile Signol / Palácio de Versalhes, Paris, França.

2. QUAL É O CONTEXTO HISTÓRICO DA PRIMEIRA CRUZADA?

Antes da Primeira Cruzada, o Cristianismo e o Islamismo já se encontravam em conflito, ainda que existisse relativa paz no contexto geral entre cristãos e muçulmanos.

Os muçulmanos, após séculos de conquistas irrefreáveis, haviam conseguido conquistar grandes extensões territoriais, incluindo partes da Europa como Portugal e Espanha.

Embora existisse paz relativa, esta nunca foi evidente entre bizantinos e os povos fronteiriços que se sucederam.

Um desses povos, os turcos seljúcidas, criou um vasto império e arrasou as forças de Constantinopla (bizantinos) na Batalha de Manziquerta em 1071.

As forças bizantinas foram destroçadas pelas tropas seljúcidas nessa batalha que é tradicionalmente vista como o marco do declínio do Império Bizantino, ainda que o império já se encontrasse fragilizado há algum tempo.

A Terra Santa, que compreende Jerusalém, logo caiu sob o controle dos seljúcidas nos anos seguintes que ampliaram ferozmente o seu poder.

Todos esses impactos sacudiram a fé cristã na Europa, sobretudo na porção ocidental (mais fervorosa), que viu as suas peregrinações ameaçadas (e taxadas).

Com isso, os cristãos europeus, sobretudo os pertencentes ao clero e à nobreza, começaram a cultivar uma pré-disposição para a tomada da Terra Santa, assim como a ideia da implantação de estabelecimentos comerciais ao longo das rotas de peregrinação.

Batalha de Mazinquerta na Primeira Cruzada
Ruína bizantina na Batalha de Mazinkert (ou Manziquerta): até o imperador bizantino, Romano IV, acabou prisioneiro. Créditos: Batalha de Mazinkert, de O Mustafin / Creative Commons.

3. CONVOCAÇÃO DA PRIMEIRA CRUZADA: O QUE LEVA A ESSE MOMENTO?

 

Com a ameaça seljúcida ao Império Bizantino, o então imperador bizantino, Aleixo I Comneno, temendo o pior, solicitou o apoio militar ao Ocidente no Concílio de Placência (1095).

No Concílio de Clermont, ocorrido em 27 de novembro de 1095, o papa Urbano II estimulou os cristãos fiéis a empreenderem uma “peregrinação armada” até a Terra Santa, Jerusalém.

O papa prometeu aos participantes a absolvição imediata dos pecados e a garantia de terras e riquezas.

O discurso do papa teria sido recebido com grande fervor, com a plateia começando a gritar Deus vult (“Deus quer!”, em latim).

O discurso do Santo Padre foi amplamente aceito por várias classes sociais da comunidade cristã.

Além do apoio ao Império Bizantino e à própria Cristandade, Urbano II desejava conquistar Jerusalém para que permanecesse sob o domínio da Igreja ocidental — o que os bizantinos só ficariam sabendo posteriormente.

Entre outras coisas, o papa também desejava resolver duas questões de imediato:

  1. Canalizar a inquietante violência interna da nobreza, que vivia em disputas de terras, para fora da Europa Ocidental; e
  2. Tentar reunificar as igrejas ocidental e oriental, que estavam oficialmente rompidas desde o Grande Cisma (1054).

4. COMO FOI A PRIMEIRA CRUZADA?

A convocação para a Primeira Cruzada teve uma recepção bastante positiva, chegando a ter ao menos 35 mil pessoas envolvidas.

Possivelmente, mais de 70 mil pessoas participaram em um gigantesco e surpreendente movimento das massas.

Aliás, o número de participantes superou qualquer expectativa chegando ao ponto de assustar as próprias autoridades pela dimensão e os desafios logísticos.

4.1 A Cruzada dos Mendigos

O primeiro grupo a agir foi uma massa de cristãos predominantemente pobres liderados por Pedro, o Eremita, um padre francês, que comandou a desastrosa Cruzada Popular — vulgarmente chamada Cruzada dos Mendigos.

A Cruzada Popular foi o primeiro grupo a “marchar” durante a Primeira Cruzada, tendo passado pelo Sacro Império Romano-Germânico e empreendido diversas atividades antissemitas e maus exemplos no decorrer do caminho.

Esse movimento acabou destruído ainda em 21 de outubro de 1096 durante uma emboscada comandada pelo sultão seljúcida Kilij Arslan, na Batalha de Civetot (ou Cibotos).

Cruzada Popular Cruzada dos Mendigos Primeira Cruzada
Pedro, o Eremita, pregando a Cruzada Popular. Tal movimento causou imensos transtornos por onde passou, sendo fácil e completamente destruído ainda em 1096 (e bem longe da Terra Santa). Ilustração: James Archer.

4.2 A Cruzada dos Nobres

A convocação do papa Urbano II também teve força entre os nobres, o que levou à segunda etapa da Primeira Cruzada: a Cruzada dos Nobres.

Esse movimento, muito mais bem organizado, partiu da Europa utilizando cruzes vermelhas, o que sinalizava a motivação religiosa do conflito.

Apesar das imensas dificuldades logísticas, a Cruzada dos Nobres foi marcada por êxitos. Em 1097, milhares de cruzados em Constantinopla se dividiram em exércitos menores, mas bem organizados e com funções bem definidas.

A primeira conquista foi a cidade de Niceia em 1097, que era a capital dos turcos seljúcidas do Rum, uma divisão dos turcos seljúcidas.

Em 1098, conquistaram também a importante cidade de Antioquia após um custoso e sangrento cerco iniciado em 1097 — e sob o qual a Cruzada dos Nobres poderia ter encontrado seu fim.

Antioquia teria caído diante das estratégias e das oportunidades abraçadas por Boemundo, o príncipe de Taranto, que teria dado exemplos, como o de escalar as muralhas da cidade em vez de simplesmente mandar seus subordinados.

primeira cruzada boemundo I de antioquia e taranto
Boemundo I é possivelmente o principal líder da Primeira Cruzada. Durante o cerco à cidade murada de Antioquia, criou-se o falso rumor de se ter encontrado a Sagrada Lança de São Longino (a mesma que o centurião romano Longinus usou para perfurar o tórax de Cristo na cruz). Isso elevou o moral das tropas cristãs e se mostrou decisivo para a vitória em batalha na qual se diz ter ocorrido um milagre: um exército de anjos teria auxiliado os guerreiros cristãos no combate. Créditos: Merry-Joseph Blondel / Palácio de Versalhes, França.

Posteriormente, a grande cidade-alvo de Jerusalém foi alcançada, sendo conquistada na metade de 1099 (datas divergem entre junho e julho de 1099).

A cidade de Jerusalém logo se tornou um reino — o Reino de Jerusalém — sob o comando de um dos mais importantes líderes da Primeira Cruzada, Godofredo de Bulhão, o duque da Baixa Lorena.

 Além do Reino de Jerusalém, outros três estados cruzados foram formados na região para garantir a passagem de peregrinos e o estabelecimento de rotas comerciais:

  1. Condado de Edessa;
  2. Principado de Antioquia; e o
  3. Condado de Trípoli.
Godofredo de Bulhão Primeira Cruzada
Estátua do duque da Baixa Lorena e hábil estrategista da Primeira Cruzada, Godofredo de Bulhão. Créditos: Estátua de Eugène Simonis localizada em Bruxelas, Bélgica / Fotografia: autoria desconhecida.

5. QUAIS FORAM OS PARTICIPANTES DA PRIMEIRA CRUZADA?

Por parte dos cruzados, foram reunidos:

  • Condado de Flandres;
  • Reino da França (ainda não unificada);
  • República de Gênova;
  • Sacro Império Romano-Germânico;
  • Condado da Sicília;
  • Ducado da Apúlia e Calábria; e os
  • Estados papais.

Também houve a participação dos cristãos orientais, como o Império Bizantino e o Reino Armênio da Cilícia.

Por parte dos muçulmanos, os envolvidos foram:

  • Califado Fatímida;
  • Emirado Danismendida;
  • Império Seljúcida.

6. O QUE OCORREU DEPOIS DA PRIMEIRA CRUZADA?

Para reforçar a defesa dos novos Estados, o papa Pascoal II, sucessor de Urbano II, convocou campanhas adicionais para ampliar e consolidar as conquistas.

Essas campanhas, no entanto, nem de longe obtiveram o êxito da expedição principal, tornando-se, na prática, um fiasco.

Posteriormente, as forças muçulmanas reconquistariam alguns redutos, reduzindo o território sob o controle cristão, como na reconquista de Edessa em 1144, o que culminaria na Segunda Cruzada (1147–1150).

Pouco tempo depois, seria a própria Jerusalém tomada em 1187, quando a poderosa Terceira CruzadaA Cruzada dos Reis — esbarrou em um poderoso e habilíssimo monarca curdo-muçulmano: Salah al-Din Yusuf ibn Aiu — conhecido no Ocidente como Saladino.

Saladino Terceira Cruzada Cruzada dos Reis
Estátua de Saladino em Damasco, Síria. Créditos: autor desconhecido.

REFERÊNCIAS

CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.
FERNANDES, Fátima Regina. Cruzadas na Idade Média. In. MAGNOLI, Demétrio (org.). História das Guerras. 5 ed. São Paulo: Contexto, 2011.
JESTICE, Phyllis G. História das Guerras e Batalhas Medievais. O Desenvolvimento de Técnicas, Armas, Exército e Invenções de Guerra na Idade Média. trad. Milton Mira de Assumpção Filho. São Paulo: M. Books, 2012.
SILVA, Daniel Neves. Primeira Cruzada. Acesso em: 1º mar. 2022.
WATERSON, James. Espadas Sacras: Jihad na Terra Santa, 1097-1291. trad. Giancarlos Soares Ferreira. São Paulo: Madras, 2012.

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PALAVRAS-CHAVES SECUNDÁRIAS: igreja católica, império bizantino, cruzada dos nobres, Europa ocidental, terra santa, papa Urbano II, cavaleiros das cruzadas, grande cisma.

Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário. Gosta de ler, escrever, planejar e principalmente executar o que planeja. Na Internet, atua de despachante a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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