Guerra dos Cem Anos, a mais longa guerra da história

batalha medieval Guerra dos Cem Anos
A Guerra dos Cem Anos, um período de grandes embates medievais e muitas inovações armamentistas. Créditos: autoria desconhecida.

A Guerra dos Cem Anos explodiu em 1337 e só terminou em 1453, quando os franceses conseguiram expulsar definitivamente os ingleses do seu território. O conflito retumba com o mais longo da História, tendo os franceses saído com um leve gosto de vitória, ainda que mais tenha sido um empate técnico.

O QUE FOI A GUERRA DOS CEM ANOS

A Guerra dos Cem Anos foi um conflito envolvendo Inglaterra e França entre os anos de 1337 e 1453. Ambientado na França e com duração total de 116 anos, encontra sua origem em questões econômicas e dinásticas pelo trono francês. A guerra é notoriamente uma das mais famosas da história.

O conflito, devido à longa duração, ficou marcado por uma série de fatos peculiares, como inovação tecnológica na guerra, Peste Negra e a participação de dezenas de reis. Esta guerra revelou a famosa comandante militar — e atualmente santa — Joana d’Arc.

batalha de crécy
A Batalha de Crécy, em 1346, quando o poder dos arqueiros ingleses armados com arcos longos se tornou evidente sobre o orgulho da nobreza francesa, a cavalaria. Créditos: autoria desconhecida.

1. HISTÓRICO

Muito antes do conflito, Inglaterra e França já possuíam forte rivalidade por diversos motivos, como o domínio inglês de territórios ao norte da França e a clara rivalidade comercial e militar sobre a Europa.

Séculos antes, em 1066, Guilherme, o Conquistador, um duque normando havia invadido e conquistado o trono inglês na Batalha de Hastings. Guilherme, um descendente dos vikings, embora tenha se tornado rei da Inglaterra, manteve estranhamente suas possessões na França, sendo vassalo do rei francês para estas terras como prezava o feudalismo.

Com o passar do tempo essa faixa territorial na França, ainda que reduzida, mas pertencente à Inglaterra, passou a incomodar grandemente o trono francês que no início do século XIV tentaria confiscá-la, fazendo com que a guerra tivesse início. Em suma, esse domínio territorial inglês ameaçava a centralização do poder monárquico da França.

2. CAUSAS DA GUERRA

Apesar do atrito existente entre ingleses e franceses, havia relativa paz. Mas tudo mudou com a morte de Filipe, o Belo, o rei francês. Filipe deixou seu filho Carlos IV como rei, mas este reinado durou pouco.

Carlos IV morreu em 1328 sem deixar herdeiros, o que findou a dinastia dos Capeto e abriu a sucessão ao trono francês através dos descendentes do seu pai, Filipe.

2.1 Interesse dinástico pelo trono da França

Filipe IV, mais conhecido como Felipe, o Belo, morreu em 1314 sem deixar herdeiros. Eduardo III, rei da Inglaterra, era o parente mais próximo e reclamou o trono para si, os franceses não toleraram e invocaram uma antiga lei consuetudinária (baseada nos costumes), a Lei Sálica.

A Lei Sálica dizia que a linhagem real não poderia ser transmitida através da parte materna. Eduardo III era filho de Isabel, filha de Filipe IV, e o vínculo através de sua mãe o impossibilitaria de ascender ao trono da França, que logo foi ocupado por Filipe de Valois (filho do primo de Filipe, o Belo).

Durante algum tempo, Eduardo III, neto de Filipe IV, aceitou a sucessão do trono, mas as relações mudaram quando Filipe de Valois, agora Filipe VI, passou a fornecer armamento e suprimentos aos escoceses para que enfrentasse os ingleses. Eduardo III então, como vingança, começou a reivindicar abertamente o trono francês.

rei eduardo iii da Inglaterra
O rei da Inglaterra, Eduardo III. Créditos: autoria desconhecida.

2.2 Interesse comercial com Flandres

Ao norte da antiga França, na atual Bélgica, encontrava-se a rica cidade de Flandres (a cidade ainda existe). Flandres possuía um forte vínculo comercial com a Inglaterra, de onde importava lã para sua confecção de tecidos. Por outro lado, localizava-se no território francês.

Os burgueses flamengos (habitantes de Flandres) se mostravam favoráveis aos ingleses para continuar a parceria comercial e se livrar dos impostos franceses. Por outro lado, os nobres (senhores feudais) eram vassalos do rei francês a quem se mantinham leais.

A Inglaterra, como os franceses para com os escoceses, também apoiou revoltas em Flandres contra os franceses, acabando por desencadear de vez a Guerra dos Cem Anos.

3. ESTOPIM DA GUERRA

Além das acusações e ameaças mútuas, o rei da França confiscou o território da Aquitânia dos ingleses em 24 de maio de 1337, desencadeando a guerra que há muito se organizava. Eduardo III despachou um exército para que desembarcasse em Flandres.

Ao lado de Inglaterra e França uma porção de outros reinos e cidades importantes da Europa fizeram suas apostas, fazendo com que as dimensões do conflito crescessem bastante.

batalha naval de sluys
Batalha de Sluys, de Jean Froissart. Vitória da força combinada da Inglaterra e Flandres sobre a armada francesa. Pela pintura se pode ter uma noção do caos que era a guerra naval medieval.

4. FASES DA GUERRA DOS CEM ANOS

Em virtude do longo período, a Guerra dos Cem Anos é tradicionalmente dividida em três fases, quais sejam: Guerra Eduardiana (1337–1360); a Guerra Carolina (1369–1389); e a Guerra de Lancaster (1415–1453).

Há um quarto período incluso e referente à trégua que Inglaterra e França (1389–1415) selaram devido a graves problemas internos de cada país.

Ainda, o tamanho e o nome de cada período da guerra varia de acordo com as referências utilizadas, mas isso não prejudica em nada o aprendizado. Trata-se apenas de didáticas diferentes.

4.1 Guerra Eduardiana (1337–1360)

Marcada por grandes vitórias inglesas sobre os franceses, dando a indicar que a França estaria perdida. O período é marcado pela chegada da Peste Negra e encerrado com o tratado de paz de Brétigny em 1360. Este período abarcou as famosíssimas e arrasadoras vitórias inglesas de Crécy (1346) e Poitiers (1356).

pintura mostrando a batalha de poitiers
“Na guerra europeia da Baixa Idade Média, a infantaria ganhou importância, e surgiram as armas de pólvora. Essa mudança coincidiu com o desenvolvimento de exércitos mais profissionais, alguns dos quais eram verdadeiras forças mercenárias internacionais. O surgimento de Estados mais poderosos, sobretudo a Inglaterra e a França, significou que mais dinheiro podia ser investido na formação de exércitos, o que resultou em guerras de longa duração” — Adrian Gilbert (2005, p. 64). Créditos: Batalha de Poitiers, de Eugene Delacroix.

4.2 Guerra Carolina (1369–1389)

Fase em que a França conseguiu recuperar territórios perdidos para os ingleses. Grande parte do mérito das reconquistas recaem sobre duas pessoas, o rei Carlos V da França e principalmente sobre o seu competente comandante militar, Bertrand du Guesclin, também conhecido como A Águia da Bretanha e O Cão Negro de Brocéliande.

4.3 Trégua forçada (1389–1415)

Período de estagnação na guerra devido a fortes problemas internos tanto na Inglaterra quando na França. Na Inglaterra, Eduardo III havia morrido e seu sucessor, Ricardo II, mostrava-se incapaz logo sendo sucedido por Henrique IV. A França, por sua vez, encontrava-se literalmente nas mãos de um rei louco, Carlos VI.

4.4 Guerra de Lancaster (1415–1453)

O último período da guerra é marcado por uma avalanche de vitórias arrebatadoras da França, onde paulatinamente venciam os ingleses e se mostravam novamente a mais poderosa nação da Europa. Durante este período se destacou a jovem comandante Joana d’Arc a partir do Cerco de Orléans em 1429.

Joana d'Arc em Orléans
Joana d’Arc, a Virgem, que escutava “vozes” de santas para guiá-la na libertação da França. Joana foi beatificada em 1920, sendo a santa padroeira da França. Créditos: Joana d’Arc no Cerco de Orléans, de Jules Eugène Lenepveu.

5. PRINCIPAIS BATALHAS DA GUERRA DOS CEM ANOS

A batalha de início da guerra teve início em 25 de junho de 1340 na Bélgica. A armada combinada da Inglaterra e de Flandres, embora em menor número, conseguiu uma grande vitória sobre franceses e genoveses na Batalha de Sluys.

A Batalha de Crécy (1346);

A Batalha de Calais (1347);

A Batalha de Poitiers (1356);

A Batalha de Cocherel (1364);

A Batalha de Azincourt (1415);

O Cerco a Orléans (1429);

A Batalha de Jargeau (1429);

O Cerco de Paris (1429);

A Batalha de Meung-sur-Loire (1429);

A Batalha de Patay (1429);

A Batalha de Formigny (1450);

Batalha de Azincourt Agincourt
A histórica Batalha de Azincourt (ou Agincourt). Com pouco mais de 600 baixas fatais, os ingleses trucidaram o exército francês, infligindo quase 10 mil mortes e aprisionando centenas de nobres. Créditos: autoria desconhecida.

6. O FIM DA GUERRA

A última batalha da guerra só veio a ser travada em 17 de julho de 1453, a conhecida Batalha de Castillon, quando finalmente os ingleses se deram por vencidos.

As últimas tropas da Inglaterra se renderam incondicionalmente às francesas em 19 de outubro de 1453 em Bordeaux. A guerra terminou, mas nenhum tratado de paz foi formalizado para regularizar a relação entre os dois países.

Tecnicamente, a Guerra dos Cem Anos foi um empate. Mas fica evidente o gostinho de vitória dos franceses, que acabaram ficando mais unidos fortalecendo o conceito de nação.

7. CONSEQUÊNCIAS

Os ingleses perderam definitivamente seus territórios na França, também se encontrando grandemente endividados. Logo entrariam em guerra civil na chamada Guerra das Rosas.

A França, igualmente como os ingleses, sofreu graves privações financeiras em virtude da destruição de suas áreas agrícolas e rotas comerciais.

A guerra devastou o poder dos nobres (senhores feudais), acentuando implacavelmente o fim do Feudalismo. A nobreza saiu duramente enfraquecida e o seu grande orgulho, a cavalaria, antes dominante nos campos de batalha, entrou em colapso.

Por outro lado, o enfraquecimento do Feudalismo gerou o fortalecimento dos reis e a consequente formação dos estados modernos, onde muitos países envolvidos no conflito se unificaram e possibilitaram o Absolutismo. A França, inclusive, teria séculos depois o mais famoso rei absolutista, Luís XIV, o Rei Sol.

Ainda, tanto a França quanto a Inglaterra se encontravam atrasadas em relação a outros países, como Portugal que se dedicava às Grandes Navegações e estava prestes a conseguir exclusividade ao abrir nova rota de comércio às Índias.

8. INDICAÇÃO DE FILMES E SÉRIES

Joana d’Arc, de Luc Besson, 1999.

Henrique V, de Kenneth Branagh, 1989.

REFERÊNCIA(S):
BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 3ª ed. reform. e atual. São Paulo: Moderna, 2007.
CAWTHORNE, Nigel. As Maiores Batalhas da História: Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. trad. Glauco Peres Dama. São Paulo: M. Books, 2010.
CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
JESTICE, Phyllis G. História das Guerras e Batalhas Medievais. O Desenvolvimento de Técnicas, Armas, Exército e Invenções de Guerra na Idade Média. trad. Milton Mira de Assumpção Filho. São Paulo: M. Books, 2012.
NEWARK, Tim. História Ilustrada da Guerra: Um estudo da evolução das armas e das táticas adotadas em conflitos, da Antiguidade à Guerra de Secessão dos Estados Unidos, no século XIX. trad. Carlos Matos. São Paulo: Publifolha, 2011.
VINCENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002.
WHITE, Matthew. O grande livro das coisas horríveis: a crônica definitiva das cem piores atrocidades da história. trad. Sergio Moraes Rego. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
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Autor: Eudes Bezerra

30 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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