Assalto a Lindisfarne, 793: o início da Era Viking

O aparentemente íntegro mosteiro de Lindisfarne (encontra-se em ruínas atualmente). Pela dificuldade em encontrar registro gráfico, mesmo que pintura clássica, apenas a atual fotografia acompanha a matéria – o acontecido no monte, além de ainda misterioso, fora tão aterrador que de modo algum foi reproduzido pelos bretões.

No final do século VIII, no nordeste da Inglaterra, encontrava-se o pacato e importante mosteiro de Lindisfarne. Por sua localização remota e pela cristianização que percorria a Europa, floria o sentimento de segurança contra invasões pagãs. Todavia, sentimento nunca foi blindado e acabou sendo  destroçado, quando os donos do apocalipse mais “heavy metal” da história — o Ragnarök! — desembarcaram de seus navios-dragão visando saques. A crença cristã ou regras terrenas não poderiam contê-los e pelo aço escandinavo foi desencadeada a avassaladora Era Viking.

Em 08 de junho de 793, não muitos vikings (“piratas”), talvez, menos de sessenta, saltaram de seus drakkar’s (navios-dragão) para saquear o templo costeiro de Lindisfarne. A população da ilha se resumia a pastores, agricultores e religiosos e seus objetos de valor, basicamente, referentes aos ritos religiosos.

Lindisfarne abrigava um dos mais sagrados templos da Bretanha e a paz reinava no local. Embora invasões pudessem ocorrer, era pouco provável que se precipitasse sobre a remota ilha. Somente maior que a suposta segurança, era a de que nenhum invasor profanaria o templo religioso nem seus sacerdotes. Entretanto, nenhum axioma cristão seria válido, ou mesmo significativo, para os distintos invasores daquele 8 de junho.

Diferentemente dos cristãos, o “Paraíso” Viking só poderia ser conquistado (e não “reconhecido”) através de atos de coragem: essencialmente, seu “santuário” seria o campo de batalha e suas preces o recíproco sangue jorrado – somente a pura bravura abriria as portas do Valhalla (“Salão dos Mortos”), cuja destinação final seria marchar ao lado dos Deuses contra os gigantes no apocalítico Ragnarök (o apocalipse Viking).

A repentina e devastadora devassa realizada em Lindisfarne prenunciou o terror que aplacaria a Europa abordo dos domados e longos “dragões” vikings (os drakkar’s). Embora já fosse registrado algum contato, pouco se sabia a respeito daqueles que foram comparados às feras. Os invasores assassinaram, saquearam e desapareceram com a mesma velocidade que surgiram, de modo que não se tem registro detalhado do ocorrido. Segundo fonte, depois do transcorrido, teriam dito que, na verdade, tratava-se de um castigo de Deus gerado pela fornicação (adultério e incesto) e ganância.

Alcuíno, um estudioso anglo-saxão da corte do grande rei Carlos Magno, teria escrito:

Com quase 350 anos em que vivemos nesta terra linda, nunca tal terror como o de agora apareceu na Bretanha, que sofre com uma raça pagã. Nem pensado que tal incursão do mar poderia ser feita. Eis a igreja de St. Cuthbert, salpicada com o sangue dos sacerdotes de Deus, despojados de todos os seus ornamentos. Os pagãos derramaram o sangue dos santos ao redor do altar. Pisaram sobre os corpos no templo de Deus como esterco nas ruas.”

Sem influência/contato greco-romano, os nórdicos (“homens do norte”) não possuíam respeito ao direito ou à vida nas cidades, menos ainda pela crença em um deus cristão. Entre os séculos VIII e XI, o tsunami nórdico solapou a Europa com saques e batalhas selvagens. Com uma cultura singular, os Vikings (noruegueses, suecos e dinamarqueses) mostraram a frágil estabilidade europeia e que o feudalismo não foi uniforme.

A odisseia nórdica durou, oficialmente, até o ano de 1066. Neste mesmo período também foi selado o fim da dinastia anglo-saxônica na Inglaterra: em 1066, Harald Hardrada, rei viking da Noruega, foi morto na batalha de Stamford Bridge lutando contra o recém-empossado Haroldo II (rei da “Inglaterra”). Três semanas após Stamford Bridge, foi a vez de Haroldo II encontrar a morte: tentando defender o “surrupiado” trono inglês na batalha de Hastings, foi morto pelas tropas de Guilherme, o Conquistador. Guilherme e seus soldados (normandos), embora convertidos ao Cristianismo, eram descendentes de Vikings que colonizaram a Normandia (França).

Apesar da má-fama gerada pela ferocidade dos seus ataques, os Vikings foram extremamente significativos para o mundo, sobretudo para Europa. Constituíram uma civilização singular, sofisticada e complexa, que gravou profundas marcas no Ocidente: descobriram a Islândia, Groenlândia e América (esta, 500 anos antes de Colombo) e criaram longínquas rotas de comércio (norte da África, Arábia e China).

Foram mestres na forja e indústria naval, tendo se aventurado por rios, mares e pelo Oceano Atlântico. Em Constantinopla, constituíram a Guarda Varegue do imperador bizantino e deram o melhor exemplo de força mercenária à época. Para a guerra, forneceram, possivelmente, o mais feroz e intrigante guerreiro que o mundo já viu: o temido berserker.

Agradecimento especial ao Hednir Clan pelo valioso auxílio e disposição prestados.

REFERÊNCIAS:
BRONDSTED, Johannes. Os Vikings: História de Uma Fascinante Civilização. trad. Mercedes Frigolla e Claudete Agua de Melo. Hemus, 2004.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
NEWARK, Tim. História Ilustrada da Guerra. trad. Carlos Matos. São Paulo: Publifolha, 2011.
PORTARI, Douglas. Harold II X Harald Hardrada. Acesso em: 5 jun. 2013.
RITCHIE, Anna. Terror from the sea. Acesso em: 11 maio 2013.
RITCHIE, Anna. Lindisfarne sacked. Acesso em: 11 maio 2013.
SOMMA, Isabelle. A Fúria Viking. Revista Aventuras na História. São Paulo: Abril, n. 47, p. 38-43, jul. 2007.
VILAR, Leandro. A Saga Viking. Acesso em: 11 maio 2013.
Autor: Eudes Bezerra

32 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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