Filipe V, a fúria da Macedônia, contra a República Romana

Moeda de Filipe V da Macedônia
Astúcia, habilidade e fúria, Filipe V da Macedônia, um dos grandes adversários que a República Romana teve que vencer para que pudesse se expandir. Créditos: PHGCOM / Creative Commons / Fotomontagem: Eudes Bezerra.

Filipe V da Macedônia teve seu comportamento modificado diversas vezes ao longo do seu tempo de vida na terra, mas uma coisa era certa: atacava como um leão e por um breve momento foi comparado ao seu antepassado, Alexandre, o Grande. Contudo, não foi páreo para a poderosa República Romana.

Sei que Filipe é um homem com um coração orgulhoso e um temperamento guerreiro. Existe uma fúria ardente em seu coração, como a de um animal preso em uma jaula ou acorrentado’ — Avaliação do caráter de Filipe por seu contemporâneo Alexandre de Arcarnia.” (MATYSZAK, 2013, p. 41, grifo nosso)

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Boa leitura!

SUMÁRIO

1. Origem, infância e primeiros anos
2. Herança do Império Macedônico
3. Filipe V se torna rei da Macedônia
4. Filipe V demostra sua força
5. Apoio a Aníbal Barca durante a Segunda Guerra Púnica
6. Primeira Guerra Romano-Macedônica (214–205 a.C.)
7. Paz temporária: o intervalo da guerra entre Roma e Macedônia
8. Segunda Guerra Romano-Macedônica (200–197 a.C.)
9. De inimigo a aliado da República Romana
10. Reviravolta e a fúria de Filipe V
11. Fim de Filipe V e o triunfo romano
12. Macedônia sob jugo de Roma
Referências

1. ORIGEM, INFÂNCIA E PRIMEIROS ANOS

Filipe V nasceu em 238 a.C. e o local de seu nascimento, embora filho do rei Demétrio, da Macedônia, é desconhecido.

Há poucas informações acerca dos primeiros anos do jovem que desafiaria, combateria e selaria a paz com a República Romana.

Filipe havia nascido em uma época em que o poderio romano se chocava com o cartaginês, o Egito ptolomaico era um poderoso rival, diversas tribos ao norte espreitavam e até algumas cidades-Estados gregas, que estavam sob influência e domínio da Macedônia, mostravam-se tumultuadas.

2. HERANÇA DO IMPÉRIO MACEDÔNICO

Cerca de um século antes do nascimento de Filipe V, a Macedônia era o maior império de sua época e se estendia até rio Hindu, na Índia e as suas falanges ainda se mostravam fortes, precisando apenas de bons comandantes.

Fruto da genialidade de Filipe II ao conceber as incríveis falanges macedônicas e do extraordinário comando tático do seu filho, Alexandre, o Grande, a Macedônia havia deixado de ser uma região marginal à Grécia para entrar na história e se tornar uma das grandes potências que o mundo já testemunhou.

Embora o império deixado por Alexandre Magno não tenha sobrevivido à sua morte, acabando por ser dividido em três partes, a Macedônia, como berço, mostrava-se como uma região desenvolvida e destinada ao crescimento.

A Macedônia era um país próspero. Ele ficava entre a Grécia e as tribos dos Balcãs, com o Danúbio funcionando como uma ligação comercial adicional.
O clima – uma mistura entre o mediterrâneo e o europeu, mais temperado – produzia terras férteis e florestas abundantes.
No subsolo havia reservas de ferro e prata que os macedônios exportavam com lucro. (MATYSZAK, p. 41, 2013)

Campanha de Alexandre o Grande
Campanha de Alexandre, o Grande, para formar o gigantesco território do Império da Macedôina. Créditos: Mircarlla 22 / Creative Commons.

3. FILIPE V SE TORNA REI DA MACEDÔNIA

O rei Demétrio morreu em 229 a.C, deixando o pequeno Filipe sob os cuidados de Antígono Doson, para que este governasse a Macedônia até que o jovem tivesse a idade necessária.

Antígono Doson não viveria muito mais tempo que o antigo rei, mas teria cumprido bem seu papel e dado tempo suficiente para que Filipe crescesse e assumir a coroa, um fato concretizado ainda aos 17 anos de idade.

4. FILIPE V DEMOSTRA SUA FORÇA

Como o próprio pai de Filipe havia previsto, não demoraria para que os vizinhos e rivais da Macedônia tentassem tirar algum proveito do recém-empossado rei Filipe V. Entretanto, Filipe logo teria demonstrado que isso não seria fácil. E não foi.

Ao chegar ao poder, Filipe logo se viu em guerra tendo que sufocar uma rebelião criada pelos etolianos, um dos povos da Tessália, na Grécia, e posteriormente voltando em velocidade à frente do seu exército para o norte da própria Macedônia para expulsar as tribos invasoras dos Balcãs, talvez da Trácia.

No Verão seguinte, o exército macedônico voltaria a Termos, a capital etoliana, em uma fulminante ação surpresa, que saqueou e incendiou suas estruturas.

A velocidade e o comando de Filipe logo seriam reconhecidos, gerando respeito e prudência por parte dos seus adversários.

Filipe parecia um rei nos moldes de Alexandre, o Grande, que ocupara o trono da Macedônia quase exatamente 100 anos antes. Ele era ativo e audacioso, embora moderado em sua conduta e compassivo com seus inimigos.

Ele também era inteligente e um orador animado, embora com um tom maldoso. Certa vez, quando um conselheiro que não enxergava bem expôs um argumento contrário ao dele, Filipe voltou-se para o conselho e disse sarcasticamente: ‘Anotem – até um cego pode ver isso’.

No decorrer dos anos, a personalidade de Filipe tornou-se mais sombria e mais selvagem – o que não é de se surpreender em um homem que passou a vida entre aliados traiçoeiros, inimigos pérfidos e súditos desleais”. (MATYSZAK, 2013, p. 43, grifo nosso)

5. APOIO A ANÍBAL BARCA DURANTE A SEGUNDA GUERRA PÚNICA

À época em que Filipe governava, os diversos povos do mar Mediterrâneo observavam atentamente a Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.), onde romanos e cartagineses mais uma vez se enfrentavam em duelos extremamente sangrentos.

Filipe inicialmente teria evitado tomar partido de algum dos lados, mas ao perceber que os interesses gregos e romanos pareciam caminhar na mesma direção (e provavelmente contra a Macedônia), decidiu formar uma aliança com o brilhante Aníbal Barca, o comandante cartaginês.

Aníbal parecia invencível e os romanos não mais o enfrentavam em campo aberto. O estrondoso sucesso de Aníbal na Batalha de Canãs, em 216 a.C. arrebatou de vez o monarca macedônico para o lado púnico (cartaginês).

aníbal barca
Aníbal barca, mesmo em minoria e longe de casa, mostrava-se implacável na guerra contra os romanos e seus aliados. Créditos: autoria desconhecida.

6. PRIMEIRA GUERRA ROMANO-MACEDÔNICA (214–205 A.C.)

Pela proximidade entre a Macedônia e a península italiana, separadas somente pelo mar Adriático, havia um justo receio do desembarque de tropas e suprimentos da Macedônia, algo que poderia representar a derrota romana.

Filipe, para testar a prontidão da marinha romana, despachou uma pequena frota, mas que não logrou êxito. Roma havia posicionado postos de observação e reforçado sua presença no Adriático para evitar que Aníbal recebesse reforços da Macedônia.

Ocorre que o embaixador de Filipe havia sido capturado pelos romanos e teria confessado a aliança entre Cartago e a Macedônia, dando um tempo precioso para que Roma reposicionasse parte de sua marinha.

Os romanos continuavam sendo surrados por Aníbal em terra e não dispunham de recursos suficientes para abrir uma nova e grande frente de batalha contra outro poderoso adversário, enviando uma pequena expedição que tentaria angariar mais soldados contra a Filipe V.

Através de alianças locais próximas à própria Macedônia, o que incluía novamente os etolianos, os romanos conseguiriam fazer uma pequena frente, mas que foi rapidamente destruída pelo exército macedônico, sofrendo os etolianos mais uma vez grande devastação de suas terras.

A própria expedição romana enviada teve que se contentar com um recuo ante a destruição certa orquestrada pela rápida e potente investida de Filipe, que parecia se inspirar em um leão para atacar.

Em 205 a.C., uma frágil paz foi estabelecida entre Macedônia e Roma, embora ambos os lados soubessem que um confronto era inevitável no futuro.

Havia equilíbrio de poder entre Roma e a Macedônia. Diferentemente das tribos bárbaras e povos menores, a Macedônia era um reino forte, próspero, com tradição militar e tinha um líder à semelhança de Alexandre Magno.

Moedas de Filipe V
Moedas em homenagem a Filipe V, da Macedônia, e o cônsul romano Quinto Flamínio, rivais que se respeitaram. Créditos: PHGCOM / Creative Commons.

7. PAZ TEMPORÁRIA: O INTERVALO DA GUERRA ENTRE ROMA E MACEDÔNIA

Entre 205 e 200 a.C., ambos os lados buscaram resolver suas questões internas e pendentes.

Se por um lado os romanos desejavam acabar com a guerra contra Cartago, feito realizado em 201 a.C., por outro, os macedônios também tinham as suas conquistas e problemas internos.

O rei macedônico almejava suas conquistas territoriais, como a tomada de mais algumas cidades gregas e possessões do Egito ptolomaico (uma das três divisões do império formado por Alexandre, o Grande) no mar Mediterrâneo.

Mapa dos combates de Filipe V
Mapa da região durante o reinício das hostilidades entre Roma e Macedônia em 200 a.C.. Créditos: Marsyas / Creative Commons.

8. SEGUNDA GUERRA ROMANO-MACEDÔNICA (200–197 A.C.)

Cartago havia sido derrotada em 201 a.C., embora já se mostrasse acabada desde a Batalha de Zama em 202 a.C.. Com isso, Roma pode se concentrar na Macedônia de Filipe V.

Havia ficado claro para os romanos que a Macedônia, ao ter se juntado com Aníbal, agora se tratava de uma clara inimiga de Roma e o cônsul Quinto Flamínio foi enviado à frente das cansadas, mas endurecidas legiões romanas em 200 a.C..

O rei Filipe V não desejaria mais a guerra contra Roma, embora estivesse em outra guerra (sitiando a cidade de Atenas). Os romanos, astutamente, firmaram um acordo com Atenas e os macedônios foram levados à mesa de negociação.

As exigências de Flamínio, como a cessão de territórios gregos, eram consideradas exorbitantes e não houve acordo: a guerra de fato recomeçaria.

Já em dificuldades, Filipe viu uma deserção em massa por parte dos seus aliados que sempre estavam a mudar de lado, exceto pelos arcanânios.

Filipe reforçou seu exército para que se equivalesse ao romano e marchou para o definitivo embate em 198 a.C. e que aconteceria nas proximidades de Farsalos, na chamada Batalha de Cinoscéfalos em 197 a.C..

Com terreno inapropriado para as falanges macedônicas, estas foram flanqueadas e derrotadas pelas manobráveis legiões romanas, já tão acostumadas e disciplinadas para manobras complexas no campo de batalha.

Filipe teria tido o amargo saldo de 8 mil soldados mortos e 5 mil feridos, também sendo obrigado a entregar a Grécia e seu filho como garantia a Roma, além da comum indenização de guerra.

Quinto Flamínio oferecendo liberdade aos gregos
Quinto Flamínio oferecendo liberdade aos gregos, de Giuseppe Sciuti, mostrando que o receio de Filipe V acerca de uma Grécia e Roma unidas, ainda que sob hegemonia roma, era verdadeiro e justo.

9. DE INIMIGO A ALIADO DA REPÚBLICA ROMANA

Filipe V, diferentemente do imaginava, viu-se bem tratado e foi mantido no governo da Macedônia, o que provocou grandes protestos dos etolianos, aliados dos Romanos.

Ao que parece, o cônsul Flamínio e Filipe V havia firmado uma estranha amizade e nutrido respeito mútuo durante a guerra.

Durante a década de 190 a.C., Filipe, ora por motivos próprios ora por motivos em defesa de Roma, lutou bem vencendo todas as tentativas de invasão estrangeiras.

Acabou recompensado com seu filho de volta, algumas possessões que havia perdido e o perdão do restante da indenização da guerra anterior, embora tivesse se tornado um estado vassalo de Roma.

10. REVIRAVOLTA E A FÚRIA DE FILIPE V

O assunto romano-macedônico parecia selado, no entanto, Filipe, em 181 a.C. reiniciou as manobras de conquista na Tessália, no que foi advertido por Roma.

Antes de desocupar as áreas invadidas, Filipe teria participado de um ataque selvagem ao massacrar os líderes da Maroneia que ainda estava ocupada.

Filipe mais uma vez pôs seu exército em alerta e o reforçou. Fez perseguições políticas, deportando alguns e executando outros.

O brilho nos olhos de Filipe parecia ter mudado drasticamente, não era mais como no tempo em que se tornou rei, mas seu coração ainda parecia arder pelo combate.

Filipe nesta época havia se torna impopular entre o seu próprio povo, contudo, ainda comandava com mãos de ferro e não existia a possibilidade de ser capturado por Roma ou qualquer que fosse o inimigo. Havia fúria em seus atos e rendição não seria uma opção.

11. FIM DE FILIPE V E O TRIUNFO ROMANO

Filipe V morreu durante uma batalha contra tribos bárbaras em 179 a.C. e o seu filho, que havia sido deserdado por forjar provas falsas contra outro filho (inocente que acabou executado), Perseus, apressou-se em tomar o trono.

Perseus não era Filipe nem Alexandre e ao lançar uma guerra com Roma acabaria por ser agrilhoado e levado para Roma da forma mais humilhante que os romanos poderiam fazer, pois se tratava de um rei, do rei da Macedônia, da terra de Alexandre, o Grande.

Nunca saberemos o que poderia ter acontecido se o astuto velho rei Filipe tivesse liderado o exército da Macedônia em Pidna [a batalha decisiva], mas seu filho não era páreo para Roma.

Perseus teve o destino que Filipe conseguira evitar – ser conduzido como prisioneiro por Roma em triunfo romano. (MATYSZAK, 2013, p. 49, acréscimo nosso).

O chamado triunfo romano era provavelmente a maior honraria da história de Roma e representava uma grande conquista contra adversários.
Os prisioneiros, geralmente reis e generais famosos, eram mostrados em vexame pelas ruas de Roma, enquanto, que, em triunfo, o conquistador romano usava a coroa de louros simbolizando sua vitória total e fama.

Muitas vezes o humilhado era morto em público ou em alguma cela de prisão…

Triunfo de Lúcio Emílio Paulo Macedônico
O Triunfo de Lúcio Emílio Paulo Macedônico, o conquistador da Macedônia. Créditos: Carle Vernet.

12. MACEDÔNIA SOB JUGO DE ROMA

Com esses eventos, a Macedônia agora orbitava a influência da república romana, perdendo sua liberdade, pagando tributos e cedendo tropas às legiões romanas. Também facilitou a integração entre gregos e romanos, que Filipe V havia previsto.

A conquista da região blindou o leste da península Itália (nos mares Adriático e Jônico), favoreceu a expansão marítima e maior domínio sobre o comércio dos mares Egeu, Negro, Mármara e do Estreito do Bósforos.

Nessa estratégica região (Bósforos), que liga a Europa e Ásia, é onde séculos mais tarde seria fundada a cidade de Constantinopla pelo imperador Constantino e que se tornaria a capital do Império Romano do Oriente. 


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REFERÊNCIA(S):

BEARD, Mary. SPQR: uma história de Roma Antiga. trad. Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta, 2017.
CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
GOLDSWORTHY, Adrian. Em nome de Roma: conquistadores que formaram o Império Romano. trad. Claudio Blanc. São Paulo: Planeta do Brasil, 2016.
MATYSZAK, Philip. Os inimigos de Roma. trad. Sonia Augusto. Barueri, SP: Manole, 2013.
VINCENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002.
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Buscou-se informações para creditar a(s) imagem(ns), contudo, nada foi encontrado. Caso saiba, por gentileza, entrar em contato: [email protected]
Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário. Gosta de ler, escrever, planejar e principalmente executar o que planeja. Na Internet, atua de despachante a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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