Feitorias: o que eram as feitorias portuguesas?

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As feitorias portuguesas eram entrepostos comerciais fortificados que buscavam lucro através de metais preciosos e especiarias. Créditos: Francisco Anzola / Montagem: Eudes Bezerra.

As feitorias eram entrepostos comerciais fortificados que buscavam lucro através de metais preciosos e especiarias. Os portugueses foram os pioneiros nesse modelo mercantil que contava com acordos realizados com diversos reis e rainhas de reinos africanos poderosos.

Sem penetrar profundamente no território africano, os portugueses foram estabelecendo na costa uma série de feitorias, que eram postos fortificados de comércio; isso indicava a existência de uma situação em que as trocas comerciais eram precárias, exigindo a garantia das armas. (FAUSTO, 2015, p. 27)

Nota: Algumas partes podem soar repetitivas para algumas pessoas, mas é intencional (para melhor assimilar as informações).

Boa leitura!

TÓPICOS SOBRE AS FEITORIAS PORTUGUESAS

1. O que eram as feitorias?
2. A instalação de feitorias pelos portugueses
3. Relação dos monarcas portugueses e africanos
4. Feitorias na costa africana rumo às Índias
5. Feitorias portuguesas nas ilhas do Oceano Atlântico
6. O que eram as especiarias?
Referências

1. O QUE ERAM AS FEITORIAS?

As feitorias eram estabelecimentos comerciais, geralmente fortificados, e estabelecidos em regiões costeiras com fácil entrada e saída de embarcações, sendo o que hoje seria parecido com uma zona portuária.

Eram gerenciadas pelos feitores (nobres de confiança do rei) que comercializavam produtos com os comerciantes e traficantes da localidade.

Tratavam-se também de armazéns onde as mercadorias — especiarias e, se possível, ouro — eram estocados em grandes quantidades até o embarque em navios para o seu devido rumo.

Ainda, muitas feitorias passaram a comercializar escravos no extremamente lucrativo tráfico negreiro internacional, abastecendo diversas metrópoles (potências europeias) para os mais devidos fins de ordem mercantilista.

Sejam especiarias sejam metais preciosos, as feitorias foram sendo construídas e mantidas com propósitos comerciais que mudaram ao longo do tempo, como a inclusão do tráfico negreiro a partir de 1441 para Europa e posteriormente para América numa escalada estratosférica no século XVI e XVII.

Forte de São Jorge na atual Gana. Antes de ser convertido em um forte pelos holandeses, foi uma feitoria criada por Portugal em 1482 que ficou conhecida como A Mina, na qual o ouro era a parte mais cobiçada pelos portugueses (e demais potências europeias). Créditos: Francisco Anzola.

2. A INSTALAÇÃO DE FEITORIAS PELOS PORTUGUESES

Os portugueses foram os pioneiros na criação e movimentação de feitorias, visto o seu papel de destaque e pioneirismo na era das Grandes Navegações a partir do século XV.

Além do funcionamento habitual, também representavam pontos de apoio nos quais os comerciantes (burgueses) tinham seus interesses mais bem preservados e protegidos em localidades distantes.

A proteção primordial das feitorias ficava por conta da Coroa portuguesa que fazia acordos com os monarcas africanos das localidades onde as feitorias eram instaladas para segurança e viabilização do comércio entre as partes.

Igualmente, procurava-se evitar confrontos armados visto que o objetivo de Portugal era chegar às Índias e não travar uma guerra em diversas localidades da África.

3. RELAÇÃO DOS MONARCAS PORTUGUESES E AFRICANOS

De certa forma, eram pacíficas e os portugueses bajularam bastante com inúmeros e constantes presentes para reis e rainhas da África Atlântica, para manter o empreendimento (as feitorias).

O comércio, por sua vez, acabava sendo proveitoso para ambos os lados, incluindo o comércio de africanos escravizados em guerras, dívidas ou criminosos (mesma forma de escravidão tida em boa parte do período da República Romana, por exemplo).

Os portugueses, os pioneiros nas feitorias ao longo da costa africana, “entregavam” diversos presentes aos reinos africanos que poucas vezes ou mesmo nada são mencionados, como se não existissem reinos complexos e poderosíssimos na África.

Os impérios do Mali e de Songai, por exemplo, eram reinos seculares que se sucederam, respectivamente, e que já haviam sucedido outro poderoso reino — o Império de Gana —, tendo o Império de Songai perdurado até fins do século XVII.

Interessante ressaltar mais uma vez que as feitorias portuguesas nunca adentravam o interior dos continentes, evitando, assim, expedições mais custosas e possíveis desentendimentos com a população local (marinheiro bêbado faz besteira…).

O Império do Congo era uma potência formidável, complexa e possuía acordos comerciais com diversas cidades, incluindo algumas europeias, que beneficiaram ambos os lados (ao menos inicialmente — até a ascensão definitiva das potências europeias). Créditos: autoria desconhecida.

4. FEITORIAS NA COSTA AFRICANA RUMO ÀS ÍNDIAS

Os portugueses possuíam os mais diversos motivos para chegar às chamadas Índias, como as baixas arrecadações de impostos à Coroa e uma Europa incrivelmente destroçada desde a Crise do Século XIV.

Também havia a incapacidade de concorrer diretamente com cidades riquíssimas e poderosas como, por exemplo, Veneza, e por isso buscaram contornar o continente africano.

O contorno da África, o que não era nem de longe fácil ou barato, tornou-se lucrativo através das diversas feitorias na costa do gigantesco continente, tornando as distâncias cada vez “menores” ao mesmo passo em que a Coroa e os seus financiadores lucravam.

A cada feitoria estabelecida, mais longe a Coroa ibérica alcançava e muitos frutos começaram a ser colhidos ainda no século XV, como algumas das famosas especiarias (o marfim, por exemplo, algo que à época seria de monopólio dos árabes através da venda no Egito).

Um dos grandes desafios ao comércio no mar Mediterrâneo se impôs aos rugidos das Grã-Bombarbas do Império Turco Otomano que em 1453 venceram as aparentemente invencíveis muralhas de Constantinopla, bloqueando ou monopolizando o comércio entre a Europa e o Oriente. Créditos: Fausto Zonaro.

5. FEITORIAS PORTUGUESAS NAS ILHAS DO OCEANO ATLÂNTICO

Bem menos comentadas nesse aspecto, os portugueses também buscaram se empenhar na instalação de feitorias mais bem defendidas em ilhas e arquipélagos com proximidade ora de Portugal ora da costa africana ora dos dois.

Nesses redutos mais isolados, era possível fazer o plantio em larga escala utilizando mão de obra escrava, o que serviu de testes para os futuros empreendimentos maiores de Portugal (e as potências europeias que observavam atentamente).

Entre as ilhas e os arquipélagos, destacam-se as diversas ilhas que foram consecutivamente dominadas por Portugal, como:

  • Ilhas da Madeira em 1420;
  • Ilhas dos Açores por volta de 1427;
  • Ilhas do Cabo Verde em 1460; e
  • Ilha de São Tomé a partir de 1471.

A Ilha de São Tomé (atualmente denominada a República Democrática de São Tomé e Príncipe), localizada no Golfo da Guiné, se tornaria um dos principais pontos de comércio de africanos escravizados a serviço da Coroa portuguesa.

São Tomé, por sua posição estratégica, comercializava levas e mais levas de pessoas escravizadas para trabalharem na América e na Europa, principalmente a partir do século XVII com a decadência do ciclo açucareiro no Brasil.

O tráfico negreiro, na chamada Segunda Escravidão, quando as cores passariam a ser condenatórias. Isto é, a escravidão, diferentemente de tempos atrás, passaria a ter cores que estigmatizariam negros, indígenas, aborígenes e outros grupos durante séculos e que ainda permeia nosso mundo atual. Créditos: autoria desconhecida.

6. O QUE ERAM AS ESPECIARIAS?

Em poucas palavras, as especiarias eram quaisquer coisas raras na Europa Ocidental. Isto é, enquanto se mantivesse o status raridade, poderia ser considerada uma especiaria.

Exemplos clássicos de especiarias:

  • Pimentas;
  • Café;
  • Noz-moscada;
  • Gengibre;
  • Canela; e
  • Cravo.

Para se ter uma ideia, a cana de açúcar foi uma especiaria que com o passar do tempo se tornou algo comum, deixando de pertencer ao seleto (e lucrativo) grupo de especiarias, quando os holandeses suplantaram a produção portuguesa.

O mesmo se poderia falar do tão explorado Pau-Brasil, extraído logo no início da colônia portuguesa do Brasil.

REFERÊNCIA(S):

BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 3ª ed. reform. e atual. São Paulo: Moderna, 2007.

FAUSTO, Boris; FAUSTO, Sérgio (colab). História do Brasil. 14ª ed. atual. e ampl., 2º reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SILVA, Alberto da Costa e. A Enxada e a lança: a África antes dos portugueses. 5ed. rev. e ampl.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

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Autor: Eudes Bezerra

33 anos, pernambucano arretado, bacharel em Direito e graduando em História. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário. Gosta de ler, escrever, planejar e principalmente executar o que planeja. Na Internet, atua de despachante a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

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