Hebreus: história, religião, sociedade

Hebreus Cerco de Jericó
Hebreus durante o Cerco de Jericó. Créditos: autoria desconhecida.

Um dos povos mais interessantes da História, os Hebreus têm sua origem em um dos povos semitas que habitavam o Oriente Médio na Antiguidade. Demonstraram uma fé inabalável ao longo dos milênios e transformaram o mundo com o Cristianismo, ficando atualmente conhecidos como judeus.

Nota de observação: faz-se importante ressaltar desde já o possível desencontro de informações, principalmente quanto à questão cronológica, visto que algumas referências bíblicas sofrem de exatidão técnica quando comparadas às fontes historiográficas.

QUEM ERAM OS HEBREUS

Estabelecidos há aproximadamente 2000 anos a.C. na Palestina, os hebreus faziam parte dos povos semitas (descendentes de Sem, o filho de Noé). Eram monoteístas e sua sociedade era originariamente patriarcal, poligâmica e com política descentralizada.

Após conflitos e perseguições desde tempos remotos, os hebreus sobreviveram e atualmente são popularmente conhecidos como judeus, continuando a construir sua história alicerçados por sua grande força: a fé em seu Deus, Jeová.

O povo hebreu, dentre os demais povos do Oriente, é o que mais estreita relação com as origens e a evolução da Civilização Ocidental. Embora tenha desempenhado um papel político bastante secundário, sua contribuição à Humanidade foi enorme no terreno religioso.
Fato único e absolutamente excepcional na história, os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó tornaram-se, através de muitos séculos, os pertinazes portadores de uma mensagem de fé monoteísta que, com o Cristianismo, alcançou tamanha amplitude a ponto de suplantar as antigas superstições e derrubar os velhos ídolos do paganismo (GIORDANI, 1969, p. 224)

1 REGIÃO, RIO JORDÃO E OS PRIMÓRDIOS DOS HEBREUS

Estabelecidos há aproximadamente 2000 anos antes de Cristo, os hebreus eram pastores nômades originários do sul da Mesopotâmia e sob a liderança do patriarca Abraão (“o que atravessou o rio”), transferiram-se para o vale do rio Jordão, na Palestina, que naquela época já era chamada de Terra Prometida (Canaã). Região árida e de difícil sobrevivência, exceto nas proximidades do vale.

Devido às dificuldades de sobrevivência que a Palestina impunha, o rio Jordão proporcionava agricultura, pesca e pastoreio, sendo por isso palco de frequentes disputas entre os tantos povos que viviam nas redondezas.

rio jordão mapa
O rio Jordão em destaque, na Palestina. Créditos: autoria desconhecida.

2 CATIVEIRO E ÊXODO DO EGITO

Por volta de 1800 a.C., os hebreus migraram espontaneamente para o Egito Antigo devido a uma série de secas na Palestina. Durante essa fase, os hebreus trabalhavam “livremente” na terra dos faraós.

Contudo, tempos depois o Egito foi conquistado pelos militarmente avançados hicsos, permanecendo na condição de povo conquistado por quase 200 anos. Os egípcios, após retomarem a sua independência ao expulsar os hicsos, teriam culpado os hebreus pela desgraça que havia lhe caído, dando início à escravidão.

Em cerca de 1250 a.C., surgiu Moisés que liderou a revolta dos hebreus, conseguindo a libertação do seu povo e o retorno à Terra Prometida, Canaã, na Palestina. Moisés também ficou conhecido como O Legislador pelo seu papel nos Dez Mandamentos.

êxodo do Egito antigo
O Êxodo do Egito, de David Roberts.

3 POLÍTICA HEBRAICA

A política hebraica passou por diversas fases, sendo inicialmente apresentada como uma política descentralizada, mas que caminhou em direção à centralização quando os hebreus tiveram seus reis, como Saul, Davi e Salomão.

3.1 Patriarcado

Inicialmente, cada família possuía um líder, o patriarca. Por isso se diz que a civilização hebraica era uma sociedade patriarcal. Período de descentralização política onde os mais velhos possuíam grande respeito e dirigiam a sociedade. O cativeiro do Egito teria ocorrido nesta fase.

3.2 Fase dos juízes

Durante essa fase “nasceram” as Doze Tribos de Israel (descendentes dos 12 filhos de Jacó) e devido ao forte crescimento populacional, o patriarcado passou a ter dificuldade de governança. Para esse problema administrativo surgiram os juízes, um governo de indivíduos que gerenciava a sociedade hebraica. A política era descentralizada, mas já apresentava traços de poder restrito.

Nessa fase os hebreus, recém-libertos do Egito, precisavam se organizar melhor para conseguir conquistar os povos estabelecidos em Canaã, como os filisteus e cananeus (fenícios). Por isso a criação dos Juízes para facilitar a governança.

Ainda nesta fase se decidiria sobre a transformação em reino sob a liderança de um rei que foi escolhido, segundo a Bíblia, por Samuel. Samuel teria recebido o chamado de Deus durante enquanto dormia. Independentemente de como tenha se dado, o fato é que os hebreus entraram na fase régia.

3.3 Fase dos reis

O primeiro rei de Israel foi Saul, mas pouco tempo permaneceu no poder, dando espaço ao famoso rei Davi. Entre os feitos de Davi se destacam a criação de um exército permanente e profissional e a homologação dos Dez Mandamentos, impondo que todo àquele que desejasse morar ali deveria mais do que seguir os Dez Mandamentos: deveria acreditar. A política se tornou centralizada.

O rei Davi, após sua morte, foi sucedido pelo seu filho, Salomão, também conhecido como Salomão, o Sábio. Este rei criou a mais imponente construção do seu povo, o Templo de Salomão (ou o Primeiro Templo).

Salomão no Primeiro Templo
O rei Salomão no Primeiro Templo (ou Templo de Salomão), de James Tissot.

4 CISMA HEBRAICO

Da morte de Salomão decorreu o Cisma Hebraico em 926 a.C., dividindo, assim, as 12 Tribos e gerando fragilidades, o que favoreceu a conquista dos dois grupos por povos vizinhos.

Os dois filhos do falecido rei Salomão, Roboão e Jeroboão, tiveram uma crescente rivalidade e se dividiram, aliando-se cada um às outras tribos hebraicas para gerar reinos independentes, mesmo que sob a mesma fé em Cristo.

A primeira divisão — de Roboão — ficaria conhecida como a do reino de Judá (com 2 das 12 tribos originais). É deste reino que vem o termo judeu (termo estendido aos demais hebreus e popularizado pelo destaque que Judá teve durante um determinado período). A segunda ramificação — de Jeroboão —, por sua vez, fundou o reino de Israel (com 10 das 12 tribos).

O reino de Israel não demoraria a ser dominado pelos assírios (fato ocorrido em 722 a.C.), enquanto que o reino de Judá se manteria livre por mais alguns séculos, mas encontrando o mesmo fim nas armas dos babilônios sob o comando de Nabucodonosor II em 587 a.C., quando se iniciou o Cativeiro da Babilônia.

5 CATIVEIRO DA BABILÔNIA E LIBERTAÇÃO PERSA

Sob o jugo babilônico, os hebreus permaneceram escravizados por cerca de 50 anos, quando foram libertados por Ciro II que liderou os persas contra o império babilônico, vencendo-o e o conquistando.

Diz-se, de acordo com os textos bíblicos, que Ciro, mais conhecido como Ciro, o Grande, teria recebido uma mensagem do Deus dos hebreus para que os libertassem. Por outro lado, segundo a política persa de praxe, povos dominados pagariam tributos em vez de serem escravizados.

Independentemente da real causa, Ciro libertou os hebreus, enviando-os de volta à sua região anterior, a Palestina, mas sob o regime de tributação ao império da Pérsia.

Ciro também ficou conhecido por sua tolerância, destreza social e principalmente como um dos maiores conquistadores da história. Atualmente é um dos grandes heróis da Pérsia (um dos nomes oficiais do Estado moderno do Irã).

Daniel na cova dos leões
A famosa retratação bíblica de Daniel injustamente atirado à cova dos Leões, durante o Cativeiro da Babilônia, mas que nada de mau lhe aconteceu. Pintura de Briton Rivière.

6 HEBREUS DOMINADOS PELOS IMPÉRIOS MACEDÔNICO E ROMANO

6.1 Império Macedônico

Em aproximadamente 330 a.C., Alexandre, o Grande, conquistou não só a região dos hebreus, como também todo o império persa, o Egito e a Mesopotâmia em uma das campanhas militares mais extraordinárias da História (Alexandre chegou até a atual Índia e nunca sofreu uma derrota em campo de batalha).

Alexandre, que havia sido discípulo de Aristóteles, também compartilhava de uma política similar à persa, que consistia em conquistar, mas mantendo a estrutura burocrática dos povos vencidos. Alexandre concedeu autonomia aos hebreus. Contudo, tudo logo mudaria com a precoce e misteriosa morte de Alexandre na Babilônia, em 323 a.C..

6.2 Império Romano

Os romanos, diferentemente, agiram com tremenda brutalidade, escravizando povos em vastas regiões. Particularmente sobre os hebreus, havia um motivo em especial para escravizar e destruir sua cultura: o messias Jesus e a crença monoteísta cristã.

Os romanos eram politeístas e cultuavam deuses com nomes de planetas e de modo similar aos gregos, como, por exemplo, Júpiter encontrando seu equivalente em Zeus e Marte em Áries, deuses romanos e gregos respectivamente. Alguns imperadores romanos, principalmente os tidos como loucos, emplacaram perseguições severas aos hebreus.

Os romanos se empenharam em destruir os hebreus e conseguiram no ano de 70 d.C.. A resistência hebraica persistiu duramente, exigindo um tremendo esforço das legiões romanas que só conseguiram vencer as defesas de Jerusalém após um exaustivo cerco de quase três anos.

Ironicamente, o próprio império romano se converteria aos Cristianismo alguns séculos depois.

saque romano a jerusalém menorá
Retratação em alto relevo do saque romano após a conquista de Jerusalém. Pode-se verificar em destaque a Menorá que foi roubada e levada à Roma. Créditos (fotografia): Beit HaShalom

7 DIÁSPORA JUDAICA

Com a destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., os hebreus se dividiram em pequenos grupos, dispersando-se para regiões diferentes em busca de sobrevivência.

Quase 2 mil anos depois da destruição provocada pelos romanos, os hebreus (agora chamados de judeus) novamente se agruparam originando o Estado Moderno de Israel na Palestina, feito concretizado em 1948.

judeus chegando Palestina 1945
Judeus sobreviventes do campo de extermínio nazista de Buchenwald (alguns ainda com os trajes) em uma embarcação a caminho do porto de Haifa, na Palestina. Créditos: Zoltan Kluger.

8 ECONOMIA HEBRAICA

Agricultura e pastoreio como modos clássicos de movimentação da economia. Os hebreus mais abastados costumavam viver da agricultura e os menos do pastoreio nas terras circundantes. Comércio, artesanato e carpintaria também eram atividades de destaque na sociedade.

9 SOCIEDADE HEBRAICA

Os costumes mudaram muito ao longo dos séculos, tendo o povo hebreu se adaptado a cada nova realidade. Entretanto, uma característica clássica era o patriarcalismo, que impunha respeito de todos aos mais velhos, mesmo na sua fase régia. Ainda hoje os judeus têm essa característica de respeito aos mais velhos.

10 RELIGIÃO HEBRAICA

Os hebreus eram profundamente marcados pela religião, de modo que todo o seu universo girava sob as regras dela. Eram monoteístas (tinham apenas um Deus), o que os diferenciava destacadamente pelo fato das demais civilizações ao seu redor acreditarem em vários deuses, sendo, assim, politeístas.

Sistema jurídico, comércio e modo de viver eram baseados em leis divinas. Portanto, os hebreus se governavam de acordo com as regras do Teocentrismo (Teo, de Deus; e Centrismo, de centro. Ou seja, Deus no centro).

11 CULTURA HEBRAICA

Além da principal característica dos hebreus, o Teocentrismo, havia características bem peculiares e pouco difundidas, como a poligamia (um homem poderia ter várias mulheres para gerar frutos).

A justificação para esse costume era a necessidade de povoar e fazer o povo hebreu crescer rapidamente em virtude da proteção contra povos vizinhos. Era tão importante que quando homens e mulheres morriam sem ter procriado era considerada uma grande tragédia.

De acordo com a referência bíblica, descendentes de Abraão receberam a tarefa de gerar uma nação. Isto é, reproduzir sob a benção de Deus para o vital crescimento do seu povo.

REFERÊNCIA(S):
BOTTÉRO, Jean. No começo eram os deuses. trad. Marcelo Jacques de Morais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 3ª ed. reform. e atual. São Paulo: Moderna, 2007.
CLINE, Eric H.; GRAHAM, Mark W.. Impérios antigos: da Mesopotâmia à Origem do Islã. trad. Getulio Schanoski Jr.. São Paulo: Madras, 2012.
GIORDANI, Mário Curtis. História da Antiguidade Oriental. 13 ed. Petrópolis: Vozes, 1969.
JACQ, Christian. O Egito dos Grandes Faraós: história e lenda. trad. Rose Moraes. Rio de Janeiro: Bertrand, 2007.
SOLLA, Walter. Hebreus, Fenícios e Persas. Acesso em: 27 fev. 2018.
VINCENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002.
IMAGEM(NS):
Buscou-se informações para creditar a(s) imagem(ns), contudo, nada foi encontrado. Caso saiba, por gentileza, entrar em contato: [email protected]
Autor: Eudes Bezerra

31 anos, pernambucano arretado e graduado em Direito. Diligencia pesquisas especialmente sobre História Militar, Crime Organizado e Sistema Penitenciário (além de tudo que consta no site). Gosta de ler, escrever e planejar. Na Internet, atua de capacho a patrão, enfatizando a criação de conteúdo.

Publicações de Eudes Bezerra
Top